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Cultura

Niemeyer e Boff: conversas sobre Deus

“Quem é ateu e viu milagres como eu…” Sempre lembro destes versos de Caetano Veloso quando tento definir meu agnosticismo místico, se é que me entendem. Conversas sobre Deus, o divino, os mistérios deste mundo, me emocionam, sobretudo quando elas se dão entre ateus e teólogos que se respeitam intelectualmente. Foi assim com este texto […]

Cynara Menezes
07 de dezembro de 2012, 19h26

“Quem é ateu e viu milagres como eu…” Sempre lembro destes versos de Caetano Veloso quando tento definir meu agnosticismo místico, se é que me entendem. Conversas sobre Deus, o divino, os mistérios deste mundo, me emocionam, sobretudo quando elas se dão entre ateus e teólogos que se respeitam intelectualmente. Foi assim com este texto que recebi do frei Leonardo Boff, um dos ideólogos da Teologia da libertação, sobre sua amizade com Oscar Niemeyer e que gostaria de compartilhar com vocês. É maravilhoso.

***

O comunismo ético de Oscar Niemeyer

Por Leonardo Boff

Não tive muitos encontros com Oscar  Niemeyer. Mas os que tive foram longos e densos. Que falaria um arquiteto com um teólogo senão sobre Deus, sobre religião, sobre a injustiça dos pobres e sobre o sentido da vida?

Nas nossas conversas, sentia alguém com uma profunda saudade de Deus. Invejava-me que, me tendo por inteligente (na opinião dele) ainda assim acreditava em Deus, coisa que ele não conseguia. Mas eu o tranquilizava ao dizer: o importante não é crer ou não crer em Deus. Mas viver com ética, amor, solidariedade e compaixão pelos que mais sofrem. Pois, na tarde da vida, o que conta mesmo são tais coisas. E nesse ponto ele estava muito bem colocado. Seu olhar se perdia ao longe, com leve brilho.

Impressionou-se sobremaneira, certa feita, quando lhe disse a frase de um teólogo medieval: “Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe”. E ele retrucou: “Mas que significa isso?” Eu respondi:  “Deus não é um objeto que pode ser encontrado por ai; se assim fosse, ele seria uma parte do mundo e não Deus”. Mas então, perguntou ele: “que raio é esse  Deus?” E eu, quase sussurrando, disse-lhe: “É uma espécie de Energia poderosa e amorosa que cria as condições para que as coisas possam existir; é mais ou menos como o olho: ele vê tudo mas não pode ver a si mesmo; ou como o pensamento: a força pela qual o pensamento pensa, não pode ser pensada”. E ele ficou pensativo. Mas continuou: “A teologia cristã diz isso?” Eu respondi: “Diz mas tem vergonha de dizê-lo, porque então deveria antes calar que falar; e vive falando, especialmente os Papas”. Mas consolei-o com uma frase atribuída a Jorge Luis Borges, o grande argentino: “A teologia é uma ciência curiosa: nela tudo é verdadeiro, porque tudo é inventado”.  Achou muita graça.  Mais graça achou com uma bela trouvaille  de um gari do Rio, o famoso Gari Sorriso: “Deus é o vento e a lua; é a dinâmica do crescer; é aplaudir quem sobe e aparar quem desce”. Desconfio que Oscar não teria dificuldade de aceitar esse Deus tão humano e tão próximo a nós.

Mas sorriu com suavidade. E eu aproveitei para dizer: “Não é a mesma coisa com sua arquitetura? Nela tudo é bonito e simples, não porque é racional mas porque tudo é inventado e fruto da imaginação”. Nisso ele concordou adiantando que na arquitetura se inspira mais lendo poesia, romance e ficção do que se entregando a elucubrações  intelectuais. E eu ponderei: “Na religião é mais ou menos a mesma coisa: a grandeza da religião é a fantasia, a capacidade utópica de projetar reinos de justiça e céus de felicidade. E grande pensadores modernos da religião como Bloch, Goldman, Durkheim, Rubem Alves e outros não dizem outra coisa: o nosso equívoco foi colocar a religião na razão quando o seu nicho natural se encontra no imaginário e no princípio esperança. Ai ela mostra a sua verdade. E nos pode inspirar um sentido de vida.”

Para mim a grandeza de Oscar Niemeyer não reside apenas na sua genialidade, reconhecida e louvada no mundo inteiro. Mas na sua concepção da vida e da profundidade de seu comunismo. Para ele “a vida é um sopro”, leve e passageiro. Mas um sopro vivido com plena inteireza. Antes de mais nada, a vida para ele não era puro desfrute, mas criatividade e trabalho. Trabalhou até o fim, como Picasso, produzindo mais de 600 obras. Mas, como era inteiro, cultivava as artes, a literatura e as ciências. Ultimamente se pôs a estudar cosmologia  e física quântica. Enchia-se de admiração e de espanto diante da grandeur do universo.

Mas mais que tudo cultivou a amizade, a solidariedade e a benquerença para com todos. “O importante não é a arquitetura”, repetia muitas vezes, “o importante é a vida”. Mas não qualquer vida; a vida vivida na busca da transformação necessária que supere as injustiças contra os pobres, que melhore esse mundo perverso, vida que se traduza em solidariedade e amizade. No Jornal do Brasil de 21/04/2007 confessou: “O fundamental é reconhecer que a vida é injusta  e só de mãos dadas, como irmãos e irmãs, podemos vive-la melhor”.

Seu comunismo está muito próximo daquele dos primeiros cristãos, referido nos Atos dos Apóstolos nos capítulos 2 e 4. Ai se diz que “os cristãos colocavam tudo em comum e que não havia pobres entre eles”. Portanto, não era um comunismo ideológico mas ético e humanitário: compartilhar, viver com sobriedade, como sempre viveu, despojar-se do dinheiro e ajudar a quem precisasse. Tudo deveria ser comum. Perguntado por um jornalista se aceitaria a pílula da eterna juventude, respondeu coerentemente: “Aceitaria se fosse para todo mundo;  não quero a imortalidade só para mim”.

(os azulejos de Athos Bulcão na igrejinha da 108 Sul, em Brasília)

Um fato ficou-me inesquecível. Ocorreu nos inícios dos anos 80 do século passado. Estando Oscar em Petrópolis, me convidou para almoçar com ele. Eu havia chegado naquele dia de Cuba, onde, com Frei Betto, durante anos dialogávamos com os vários escalões do governo (sempre vigiados pelo SNI), a pedido de Fidel Castro, para ver se os tirávamos da concepção dogmática e rígida do marxismo soviético. Eram tempos tranquilos em Cuba que, com o apoio da União Soviética, podia levar avante seus esplêndidos projetos de saúde, de educação e de cultura. Contei que, por todos os lados que tinha ido em Cuba, nunca encontrei favelas mas uma pobreza digna e operosa. Contei mil coisas de Cuba que, segundo frei Betto, na época era “uma Bahia que deu certo”. Seus olhos brilhavam. Quase não comia. Enchia-se de entusiasmo ao ver que, em algum lugar do mundo, seu sonho de comunismo poderia, pelo menos em parte, ganhar corpo e ser bom para as maiorias.

Qual não foi o meu espanto quando,  dois dias após, apareceu na Folha de S.Paulo um artigo dele com um belo desenho de três montanhas, com uma cruz em cima. Em certa altura dizia: “Descendo a serra de Petrópolis ao Rio, eu que sou ateu, rezava para o Deus de Frei Boff para que aquela situação do povo cubano pudesse um dia se realizar no Brasil”. Essa era a generosidade cálida, suave  e radicalmente humana de Oscar Niemeyer.

Guardo uma memória perene dele. Adquiri de Darcy Ribeiro, de quem Oscar era amigo-irmão, um pequeno apartamento no bairro do Alto da Boa-Vista, no Vale Encantado. De lá se avista toda a Barra da Tijuca até o fim do Recreio dos Bandeirantes. Oscar reformou aquele apartamento para o seu amigo, de tal forma que de qualquer lugar que estivesse, Darcy (que era pequeno de estatura), pudesse ver sempre o mar. Fez um estrado de uns 50 centrímetros de altura. E como não podia deixar de ser, com uma bela curva de canto, qual onda do mar ou corpo da mulher amada. Ai me recolho quando quero escrever e meditar um pouco, pois um teólogo deve cuidar também de salvar a sua alma.

Por duas vezes se ofereceu para fazer uma maquete de igrejinha para o sítio onde moro em Araras. Relutei, pois considerava injusto valorizar minha propriedade com uma peça de um gênio como Oscar. Finalmente, Deus não está nem no céu nem na terra, está lá onde as portas da casa estão abertas.

A vida não está destinada a desaparecer na morte mas a se transfigurar alquimicamente através da morte. Oscar Niemeyer apenas passou para o outro lado da vida, para o lado invisível. Mas o invisível faz parte do visível. Por isso ele não está ausente,  mas está presente, apenas invisível. Mas sempre com a mesma doçura, suavidade, amizade, solidariedade e amorosidade que permanentemente o caracterizou. E de lá onde estiver, estará fantasiando, projetando e criando mundos belos, curvos e cheios de leveza.


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(15) comentários Escrever comentário

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Philipe Van R.Lima em 07/12/2012 - 19h40 comentou:

"Nas nossas conversas, sentia alguém com uma profunda saudade de Deus. "
Que coisa bonita, espero que tenha encontrado com Deus para matara esta saudade.

Responder

puelocesar em 07/12/2012 - 19h59 comentou:

Então… Cristãos deveriam ser comunistas?

Faz sentido, afinal, como pode-se amar o próximo ao mesmo tempo que o explora?

Responder

Otto em 07/12/2012 - 21h54 comentou:

Só uma correção, Cynara: é "teologia" da libertação, não "ideologia".

No mais, é sempre bom ler um texto de um grande ser humano sobre outro grande ser humano…

Responder

    morenasol em 07/12/2012 - 22h25 comentou:

    obrigada, otto. distração! corrigido ; )

Celso Orrico Filho em 07/12/2012 - 22h23 comentou:

Cynara , um achado esse texto..obrigado por compartilhar com nós;;

Responder

Danilo Mendes em 07/12/2012 - 22h27 comentou:

É isso:

"a força pela qual o pensamento pensa, não pode ser pensada”. E ele ficou pensativo. Mas continuou: “A teologia cristã diz isso?” Eu respondi: “Diz mas tem vergonha de dizê-lo, porque então deveria antes calar que falar; e vive falando, especialmente os Papas”.

Responder

João em 07/12/2012 - 23h14 comentou:

"Então… Cristãos deveriam ser comunistas?

Faz sentido, afinal, como pode-se amar o próximo ao mesmo tempo que o explora? "

Não. Marxismo é anti-religioso (materialista), violento, autoritário e anti-democrático (pelos menos antes de chegar na parte utópica). Igrejas foram destruidas e padres assassinados na União Soviética Comunista de Stalin. Assim o cristão deve ser sempre anti-comunista. Da mesma maneira deve ser sempre anti-capitalista, contra o consumismo exacerbado e a opressão aos pobres e trabalhadores (esse é o espírito desde os tempos da grande Rerum Novarum), Resumindo o cristianismo deve ser cristão.

Responder

    Ana Silva em 08/12/2012 - 19h26 comentou:

    Vendo deste ponto de vista,concordo.Mas,acho que ele estava falando da igualdade,da divisão igualitária (que nem existe no comunismo).

    David Musso em 10/12/2012 - 10h50 comentou:

    o cristianismo não é comunista; o marxismo não é Stalin; e não existe capitalismo sem opressão dos pobres – que começa, em muitas vezes, na própria igreja.

H.92 em 08/12/2012 - 03h42 comentou:

Perguntado por um jornalista se aceitaria a pílula da eterna juventude, respondeu coerentemente: “Aceitaria se fosse para todo mundo; não quero a imortalidade só para mim”.

Me emocionei aqui.

Responder

Schrley Schramm em 08/12/2012 - 11h57 comentou:

Grandes homens ,não precisam de grandes momentos e grandes homenagens ou serem imortais fisicamente , precisam tão somente serem percebidos, compreendidos, convividos, absorvidos, para que nossas células carreguem pela eternidade da história sua humanidade divina.

Responder

Milton Senna em 08/12/2012 - 12h55 comentou:

¨Finalmente DEUS não esta nem no Céu nem na terra, esta lá onde as portas da casa estão abertas¨.Emociona a expressão (Que na verdade é isto mesmo, frase de comentarista Cynara)

Responder

David Musso em 10/12/2012 - 10h57 comentou:

sublime, provocativo. prazeroso ao fazer viajar numa realidade paralela, tal qual numa peça ficcional, que para mim não está descolada da crença em algo superior.

Responder

Alexandre em 10/12/2012 - 14h54 comentou:

Reinaldo Azevedo é a menina fantasma do elevador

Por Renato Rovai
em http://revistaforum.com.br/blogdorovai/2012/12/08
08/12/2012

#######################################

… E esse infeliz [que recuso – a borrar de infâmia os meus dedos – digitar o *nome!], na insanidade-mor dos inescrupulosos, recorreu a elementos matemáticos (sic) para elaborar juízo de valor acerca do legado do pensador Oscar Niemeyer… Ora, é cientificamente impossível ‘matematizar’ valores, pensamentos… Não existe nenhum **postulado – que dirá tese! – no mundo científico [e racional!] que propugne mensurar, quantificar, enfim objetivar aspectos eminentemente subjetivos, portanto, de foro íntimo… Em sendo assim, “os 50% idiota 'do *'” significam que, pasme, Oscar Niemeyer, do ponto de vista do pensamento político, seria, digamos, 100% idiota. Pensamento político, cumpre aclarar, que transcende os aspectos comezinhos da política partidária!…
*: nome do abjeto detrator e assassino de reputações "a soldo dos nefastos Civitas"!
**postulado: Mat Proposição admitida sem demonstração e que serve de ponto de partida para dedução de novas proposições; Filos Proposição que, não sendo demonstrável nem evidente, se toma como ponto de partida de um raciocínio dedutivo
FONTE: http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/ind

COMPROVANDO CIENTIFICAMENTE QUE, SEGUNDO O QUANTITATIVO 'DO *' , ELE ['O *' ] É 100% IDIOTA!

“A vida é um sopro, um minuto!… Uma mudança para melhor vai acontecer quando o homem compreender que é fruto da natureza. Que é um bicho, que nasce e morre… O homem, vítima do que lhe impõe o destino! Quando eu faço um projeto, fico quebrando a cabeça e procuro lutar por ele, mas, no fundo, quando fico sozinho, sei que não tem importância. Como essa conversa agora: aqui, um dia, não vai ter mais ninguém também. Penso que tanto faz ser feliz ou infeliz, a vida é um sopro, um minuto…” [Gênio atemporal] Oscar Niemeyer – declarações proferidas em ***entrevistas concedidas em dois momentos a Sílvio Cioffi, 1984, 1994.

***"Minha arquitetura não aceita regras"
Projetos devem criar espanto e beleza, diz Niemeyer
http://www.senado.gov.br/noticias/opiniaopublica/

NOTA: trechos das entrevistas publicados em http://www.viomundo.com.br/entrevistas/niemeyer-t
Niemeyer: “Tanto faz ser feliz ou infeliz, a vida é um sopro, um minuto”
em 6 de dezembro de 2012 às 13:27

BRASIL NAÇÃO – em homenagem ao gênio atemporal e eminente pensador humanista ****Oscar Niemeyer [do BRASIL NAÇÃO]
**** Oscar Niemeyer: um brasileiro ecumênico!…

Bahia, Feira de Santana
Messias Franca de Macedo

Responder

Lucas em 05/01/2013 - 04h35 comentou:

O Chico falou uma boa também: "eu não acredito em Deus, mas acredito que existem coisas inacreditáveis" =)

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