Socialista Morena
Cultura

Nós, os “inimigos do fim”: quem nunca?

Crônica da escritora baiana Joana Rizério, que começa a escrever semanalmente no Socialista Morena

Foto: Holanda Cavalcanti
Joana Rizério
21 de agosto de 2023, 15h54

Inimigos do fim éramos nós, fechando bares depois de abraçar garçons simpáticos, portando notas de dinheiro robusto pra deixar de gorjeta sem se arrepender do gasto na manhã seguinte, encontrando a boemia resistente do Largo de Santana, comprando o amendoim cozido da bacia do ambulante, que não matava a fome, e levava ao enfrentamento da fila do acarajé tão gostoso que Regina fritava, sob uma brisa que cheirava a sal de mar com notas de cigarrinho de artista.

Trôpegos, porém defendidos pelo escudo da barriga cheia, nossa próxima parada naturalmente era a Casa da Mãe, de onde Stella, a dona do lugar que sorria mais que o gato de Alice, comandava uma qualidade inédita de sarau onde todo mundo era bem vindo, e o lugar enchia, e a rua que outrora era dos carros parecia imitação de avenida no carnaval, cheia de gente, e embora a cerveja nunca fosse quente, e o cigarro fosse uma estrela acesa, ninguém lembrava de trazer de casa a tristeza.

Quem queria calor humano, encontrava, quem queria sentar, sentava na longa balaustrada defronte à praia… A terra girava apagando a noite e espantando todo mundo menos a gente, que seguia em frente e a pé em busca de qualquer mesa de plástico

Quem queria calor humano, encontrava, quem queria sentar, sentava na longa balaustrada defronte à praia de onde se viam pessoas com roupas novas no mesmo bloco em que dançavam os parcamente vestidos catadores de latinhas, num lugar onde a polícia não se atrevia a esbanjar sua covarde carreata reluzente, porque é democrático demais aquele bairro, que ainda era palco pra skatistas deslizarem suas rodinhas envenenadas, pra bêbados desatinados e cachorros.

A terra girava apagando a noite e espantando todo mundo menos a gente, que seguia em frente e a pé em busca de qualquer mesa de plástico, de qualquer estabelecimento aberto, sempre desembocando no mercado do peixe, hoje estragado pelas reformas de um prefeito com fixação por cimento, mas sujo na medida certa naquela época, reunindo a marginália, os injuriados e os de coração partido na degustação de uma cerveja tão quente quanto a manhã que nascia.

Não existia aplicativo pra carro, nem tampouco dinheiro para táxi, aliás, não havia mais dinheiro algum, e a gente finalmente ensaiava o desânimo da volta pra casa se escorando no vidro do ponto de ônibus, parecendo ter vindo de outro planeta em meio aos madrugadores que passavam correndo pra manter a saúde, sentindo cada raio de sol como o rasgo de uma navalha, até alguém sugerir um banho de mar que revigorava tanto que quase fazia a gente reiniciar a farra.

 


(8) comentários Escrever comentário

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Mônica Curvelo em 21/08/2023 - 18h44 comentou:

Que texto retado de bom!! Amei!

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Teca Rizério em 21/08/2023 - 22h23 comentou:

Cacilds! Já vivi tanto este não querer o fim da noitada, em muitos lugares da cidade da Bahia! Só muda o lugar, Quintal, Bar do Pinho, Gotas de Orvalho, Gereré, Travessia, Juvená… oh maravilha

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Roberta em 22/08/2023 - 01h51 comentou:

Nossa, que lindeza de crônica!

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Evandro em 22/08/2023 - 07h41 comentou:

Muito boa crônica. “Nós os inimigos do da noite”, somos marginalia renidos para desabafar e também contemplar as agruras das labutas diarias…

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Cláudio Simões em 22/08/2023 - 08h01 comentou:

Legal… Lembrei-me das Vias Sacras que fazíamos nas madrugadas de BH….. Mas não temos o mar…. 😕😃🤣✌🏼🇧🇷

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Anna em 22/08/2023 - 10h54 comentou:

Texto incrível! Sucesso, Joana ❤️

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Andréa Glória em 22/08/2023 - 14h22 comentou:

Conheço bem o que é ser uma inimiga do fim, inclusive em Salvador. Hahaha! Amei! Vida longa com suas crônicas no Socialista Morena. Ganha o site, ganhamos nós! Parabéns! Abreijos, como diz o poeta de Brasília, Nicolas Behr 🙂

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Luciana Melo em 22/08/2023 - 21h05 comentou:

Sem comentários!!! Muito bom 👏👏👏

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