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Cultura

O injusto linchamento de Raul Seixas no tribunal lavajatista das redes sociais

Como fui defender o cantor da "suspeita", sem provas, de ter dedurado Paulo Coelho e acabei alvo da inquisição virtual

Paulo Coelho e Raul nos anos 1980. Foto: divulgação
Cynara Menezes
25 de outubro de 2019, 16h40

Sou fã declarada de Raul Seixas e das músicas que fez com Paulo Coelho. Admiro ambos, a despeito da má vontade da crítica literária brasileira com a obra do “mago”. Foi, portanto, com espanto e indignação que recebi a “notícia” de que o cantor baiano poderia ter delatado o parceiro na época da ditadura, surgida a partir de uma matéria publicada pela Folha de S.Paulo na quarta-feira, 23 de outubro, sobre uma nova biografia de Raul escrita pelo jornalista Jotabê Medeiros, Não Diga Que a Canção Está Perdida (editora todavia).

No livro, aparece um documento que indicaria que o músico “dedurou” o escritor e sua namorada, Adalgisa Rios, que acabaram presos. Paulo foi torturado por duas semanas em 1974, mesma época em que o cantor foi ao DOPS depor e ficou apenas 30 minutos. A reportagem afiança que Jotabê acredita que o escritor “não tem dúvidas de que Raul o entregou”. Paulo Coelho chegou a divulgar a reportagem da Folha com o comentário: “Fiquei quieto por 45 anos. Achei que levava segredo para o túmulo”.

De cara, a tentativa de “simonalização” de Raul me pareceu injusta, primeiro porque o cantor está morto há 30 anos e não pode se defender. E, mais importante, porque o “documento” revelado é absurdamente inconclusivo. Com base nele, não é possível afirmar nada, quanto mais apontar Raul como dedo-duro. Além disso, o que exatamente o cantor poderia “dedurar”? Paulo afirma não ter sido militante de nenhuma organização; e não estava foragido ou na clandestinidade. Delatar o quê? Reagi com firmeza no twitter, lamentando o julgamento precipitado sobre o cantor.

De nada adiantou meu protesto: a fraca “suspeita” se transformou em certeza no tribunal lavajatista das redes sociais. Raul Seixas virou “X-9” e foi “cancelado”, gíria da rede para decretar a “morte” de alguém após alguma denúncia. O assassinato da reputação de Raul, nunca acusado de algo parecido, parecia consumado.

A jornalista Rosana Hermann rebateu meu tweet original, direcionado a Paulo Coelho, em que eu afirmava não achar bacana levantar suspeitas tão graves contra alguém que já não pode se defender. Para Rosana, o que falei seria o mesmo que impedir alguém de atacar o torturador Brilhante Ustra, contra quem existem dezenas de provas e depoimentos e que foi submetido a julgamento ainda vivo, em 2008 (ele morreria em 2015). Ou seja, equipararam Raul Seixas a Ustra!

A partir do tweet de Rosana, passei a ser eu o alvo do linchamento. Fui acusada de tentar “passar pano” na denúncia; e de “duvidar da palavra da vítima”. Disseram que eu não tinha “lugar de fala” para comentar o tema. Vários me chamaram de “louca”; e um rapaz me xingou de “putinha” e “vagabunda” por não aceitar que Raul “dedurou Paulo Coelho para comprar maconha”. Ele acabou apagando a postagem.

Fernando Morais, biógrafo de Paulo, afirma que o escritor, em quatro anos de convívio, jamais mencionou a suspeita de Raul ter lhe caguetado, e que o “documento” apresentado nada mais é do que uma ficha do cantor feita pelo DOPS

Mas a história teria uma reviravolta. O escritor Fernando Morais, biógrafo de Paulo, publicou um texto em seu blog Nocaute afirmando que o escritor, em quatro anos de convívio, jamais mencionou a suspeita de Raul ter lhe caguetado, e que o “documento” apresentado nada mais é do que uma ficha do cantor feita pelo DOPS. “O documento não revela que Raul fez depoimento no dia 22 de abril. Não é possível saber, sequer, se ele estava presente quando esse documento foi produzido”, diz Morais. “Até que surja alguma nova informação, o que esse documento prova é que no dia 22 de abril de 1974 o trio Raul-Paulo-Gisa entrou no radar do CIEx/DOI-Codi.”

O que aconteceu a seguir foi que o escritor recuou. Apagou o tweet original, onde corroborava a suspeita, e publicou outro onde acusa o biógrafo de induzi-lo ao erro, exibindo um e-mail onde Jotabê afirma que Raul “já tinha sido ouvido” e que chamara Paulo ao DOPS sabendo “que ele ficaria por lá”.

O jornalista, por sua vez, publicou um texto no facebook onde diz que “em nenhum momento” seu livro afirma que Raul delatou Paulo. O que existia, segundo Jotabê, era a desconfiança do escritor em relação ao parceiro, como ele mesmo admitiu, aliás, ao compartilhar a matéria da Folha. O próprio biógrafo defende que o documento é “inconclusivo”.

Em entrevista ao G1 nesta sexta, Jotabê Medeiros rebate Paulo Coelho e diz que foi o escritor quem lhe mostrou o documento e não o contrário. “O Paulo me disse que, pelo documento, o Raul havia sido incumbido de vigiar ele. Bom, eu fui até o Arquivo Público do Rio de Janeiro e peguei o documento, ele achava que poderia ser inventado. O original está lá, eu tenho fotos, o número da pasta, tudo.”

“Quando eu vi o documento ponderei que ele não era conclusivo, e o livro diz que ele não é conclusivo. Ele indica que a ditadura determinou que o Raul fosse contatado, mas não se sabe se foi verdade. O Paulo provavelmente surtou, não sei o que aconteceu com ele. Eu não assumi a questão da delação, ele achava que eu fosse assumir.”

O que se conclui dessa história? Que afinal não há nada que indique que Raul Seixas tenha sido colaborador da ditadura e denunciado seu amigo, co-autor de algumas de suas músicas mais famosas. No entanto, a mancha já paira sobre a reputação do cantor. Sem prova alguma, Raul foi julgado e condenado como “dedo-duro”. Foi “cancelado”. Infelizmente, o rancor antigo que Paulo parece carregar até hoje em relação ao parceiro prejudicou seu julgamento e ele acabou participando ativamente desse processo lamentável. Arrependido, voltou atrás, mas era tarde.

A reação dos inquisidores virtuais é reflexo do que vivemos na política. Acusações sem prova e delações de criminosos, replicadas à farta pela imprensa, viraram a nova verdade. Hoje mesmo Lula está sendo acusado por um pilantra de ser mandante de um assassinato e o assunto virou capa de revista

Triste momento este que vivemos no Brasil. As redes sociais, em vez de contribuírem para conscientizar politicamente a sociedade e para disseminar informações corretas, favorecem o comportamento de manada: as pessoas seguem, sem pensar, as turbas movidas pelo ódio para linchar o desafeto da vez, como naqueles filmes antigos de terror onde a multidão ensandecida carrega tochas para queimar o “monstro” –e que, no final, muitas vezes se revela uma injustiça.

Sinto, nessa reação irracional dos inquisidores virtuais, o reflexo do que vivemos na política nos últimos anos. Acusações sem prova, delações premiadas de criminosos feitas sabe-se lá sob quais circunstâncias, replicadas à farta pela imprensa sem nenhuma investigação, viraram a nova verdade. Ora, hoje mesmo Lula está sendo acusado por um pilantra de ser mandante de um assassinato, sem qualquer evidência disso, e a “denúncia” virou capa de revista. Lula foi mais uma vez “julgado” e “condenado” pela opinião pública a partir da declaração de um criminoso, com a ajuda (claro!) do presidente da República, que apressou-se a dar seu “veredito”.

É uma assustadora volta à Idade Média, em todos os aspectos. Multidões sem juízo acreditam em terra plana, confiam sua fé a fundamentalistas aloprados, tomam boatos espalhados por fanáticos como verdades absolutas, queimam pessoas em fogueiras… E quem se levantar para defender os direitos dos acusados que se cuide: será incinerado junto.

 

 


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(11) comentários Escrever comentário

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Tiago em 25/10/2019 - 18h42 comentou:

Nunca gostei do Paulo Coelho, e com essa história passo a desgostar ainda mais.
Atitude bem mal caráter a dele nessa ocasião… Se ficou calado por 45 anos sobre o caso, poderia ficar mais uns 45, afinal não acrescentou nada.

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dimi éter em 26/10/2019 - 05h55 comentou:

Acho que com o Raul Seixas, isso não vai pegar, o santo dele é mais forte que a pós-verdade. Deixo aqui um link para os dias de hoje > http://dimieter.blogspot.com/2019/10/livrai-nos.html

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Luiz Antônio Bento em 26/10/2019 - 07h50 comentou:

Sou fã do Raul Seixas e continuo sendo, não né deixei abalar por essa notícia já sabendo que é apenas comércio. Também nunca fui muito com a cara desse Paulo Coelho. Parabéns pelo seu texto, aliás excelente texto. E as pessoas precisam respeitar as opiniões dos outros.

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Vinícius Melo em 26/10/2019 - 11h49 comentou:

Texto bom e triste. Triste pela conclusão, obviamente. E mais triste ainda é ver que as pessoas nem leram a reportagem da Folha antes de tomarem partido. Na reportagem, fica claro que não existem provas da delação e que é apenas uma suspeita do Jotabê. Nem é preciso ler o livro pra concluir isso.

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Luciano em 26/10/2019 - 14h25 comentou:

Sou fan incondicional de Raul, e li alguns livros do Paulo mesmo sem gostar dele e acho que se não fosse o Raul ele não seria o que é hoje.

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Enio Truyts em 26/10/2019 - 18h14 comentou:

Cynara Menezes , vivemos num mundo repleto de experts e entendidos em assuntos gerais . Muitos falam , dão opiniões e até mesmo vociferam por trás de uma rede social entendendo que nada lhes atingirá . Sou fã de Raulzito , ele não tinha o menor jeito pra dedo duro . Era o nosso maluco beleza , apesar de ter minhas retiscenscias com Paulo Coelho , mas em nada diz que Raul tenha dedurado ele . Que bom que em tempo hábil , Paulo Coelho viu o que esse escritor medíocre , através de uma polêmica , tentou fazer vender seu livro , sendo que por ser apenas referente a Raul Seixas já o venderia por si próprio . Deu um tiro no pé.
Não te esquente com os pseudos carrascos pois quem é fã de Raul Seixas nunca o deixará de ser e pros cães que ladram , que fiquem olhando a tua caravana , Cynara, passar !!

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Max em 27/10/2019 - 20h01 comentou:

Na boa, passando trinta minutos no dops, dedura- se até Jesus Cristo. Qta hipocrisia. Agora, nesse mato tem cachorro, melhor: coelho!

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Jade da Rocha em 27/10/2019 - 23h12 comentou:

O Medeiros, usa o nome do Raul Seixas para fazer suspense no livro que está lançando. Ao que parece, o ponto alto do livro é uma suspeita. Sendo assim, não deveria ser explorada. O imbecil do Paulo, confirma as suspeitas ao publicar no Twitter que deveria ter levado para o caixão. Se guardou segredo por 45 anos agora ele se borrou. Jogou o Raul debaixo do ônibus e agora mudou de ideia. Palhaçada do Paulo e jogo baixo do Medeiros. Espero que ninguém compre o livro deste cara. Sensacionalismo baixo!

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Paulo Roberto Martins em 28/10/2019 - 09h16 comentou:

O mais importante é sua avaliação sobre estes “tristes tempos”.Enquanto na Argentina,no Chile,no Equador,no Líbano,na Catalunha e muitos outros lugares os democratas e a esquerda se unem ao povo para lutar por liberdade,aqui os medíocres e covardes,sentados em seu sofazinho,ficam na frente do computador fazendo sua revoluçãozinha de fofocas,de intrigas e baixarias.Um país na merda e uma esquerda de merda! Ao invés de levantarem defuntos de quarenta anos atrás deveriam estar na rua derrubando aqueles que ressuscitaram para nos infernizar,num país que tem o gado mais escroto do mundo.Estamos mesmo fudidos(e mal pagos!)

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Evaldo em 28/10/2019 - 15h17 comentou:

Cynara, você faz um longo texto esclarecendo toda a confusão e ainda alerta para os julgamentos impróprios e injustos da internet e logo nos comentários aparecem as falas julgadoras! Meu Deus, o que está acontecendo com o mundo? Ninguém se entende mais, ou melhor, ninguém mais entende um texto! A passagem bíblica da Babel está de volta! Má índole ou analfabetismo funcional? Não sei o que é pior. Se combinados então…

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Cláudio em 04/11/2019 - 06h13 comentou:

Não simpatizo com Paulo Coelho, ao meu ver, escritor medíocre, bem (exatamente, bastante) classe méRdia, extremamente comercialesco mas Raul Seixas era um porra-louca que pela massificação promovida pela mídia conseguiu abrigo (imerecido) até mesmo no pensamento (supostamente racional) de gente que consideramos progressista. Não era, não foi nada disso que seus/suas fã-náticos/as professam, alienadamente. Basta examinar, com o devido cuidado, as letras de suas músicas para perceber que não era autenticamente progressista nem de longe mas tributário/caudatário de uma rebeldia consentida e, portanto, sem sentido (maior), alienada e alienante, onde aflora até mesmo o desprezo pela realidade proletária, vilipêndio, escracho e deboche para com as classes menos favorecidas (“E a empregada Me bate à porta Me explicando Que tá toda torta E que já não sabe O que vai dá pra mim comer”), além de outros aspectos negativos na letra da música, por exemplo, “Eu também Vou Reclamar” (soberba, estrelismo, competição desenfreada na área musical). Depois (ou além disso) também o estranhamente queridinho de gregos e troianos lamentou (COM TODA A AMPLA DIVULGAÇÃO E LIBERDADE QUE TEVE) não ter explorado ainda mais a máquina que o construiu (“Atlantas colossais, que eu não soube como utilizar”, trecho da letra da música ‘S.O.S.’). E por aí vai, traindo-se nos detalhes mas a massa de fanáticos fazendo vistas grossas ou pior: fazendo ouvidos de mercador para seus senões. Algumas músicas são “bonitinhas” mas ordinárias, se examinadas criticamente. Salva-se, por exemplo, a letra de “A Maçã” (“Mas compreendi
Que além de dois existem mais…”) . . . Acho que sim, em troca de “facilidades” (como não perseguição pelos órgãos de repressão e/ou da censura artística)), o cabra pode ter mesmo dedurado o outro, ambos, para mim, flores que não se cheiram. #LulaLivre #abaixoaclassemedia #AssangeLivre #FreeAssange #FreeLula #Vivamospovoslivres #VivaLatinoAmericaAutodeterminada

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