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O irmão bolsominion: a esquerda precisa parar de agir como se tivesse o monopólio do amor

Neste segundo turno, devemos focar em desconstruir Bolsonaro em vez de jogar o jogo dele, que é fazer com que odiemos uns aos outros cada vez mais

Os irmãos Bruno e Thiago Gagliasso em 2015. Foto: divulgação
Cynara Menezes
06 de outubro de 2022, 18h42

Na segunda-feira seguinte à eleição, ainda abalada com a ida de Jair Bolsonaro ao segundo turno, fui a um hipermercado desses aqui em Brasília para comprar alguns produtos de limpeza. Para meu espanto, me dei conta que estava paranoica, olhando todos a meu redor com desconfiança. Será que aquela mulher de roupa de ginástica é bolsominia? E aquele senhor de óculos? Aquele casal elegante? Afinal, as eleições mostraram que há milhões de bolsonaristas não assumidos entre nós, que, na hora agá, pirililili: apertaram o 22.

Imediatamente me veio à cabeça 1984, de George Orwell, onde os membros da “polícia do pensamento” estão sempre incógnitos, à espreita, para denunciar os inimigos do sistema. No romance, qualquer um pode ser da “polícia do pensamento”. Assim eu me sentia dentro daquele supermercado: cercada de bolsonaristas. Tratei de fazer as compras rápido e dar o fora dali. Mais tarde elaborei esse sentimento e cheguei à conclusão que nós, de esquerda, estamos fazendo exatamente o que Bolsonaro, como anticristo que é, deseja, porque é disso que se alimenta: que nos odiemos uns aos outros cada vez mais.

Não dá para acreditar que mais de 50 milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro sejam perversos como ele. É nisso que ele quer que a gente acredite, mas não é real. Nós, de esquerda, estamos fazendo exatamente o que Bozo, anticristo que é, deseja, porque é disso que se alimenta: que nos odiemos uns aos outros cada vez mais

O presidente teve 51.072.345 votos no primeiro turno da eleição, contra 57.259.504 de Lula, o primeiro colocado na disputa. Um quarto da população brasileira votou pela continuidade de um governo incompetente, antidemocrático e diretamente responsável pelo Brasil ter perdido mais de 700 mil vidas na pandemia e ter se tornado o terceiro país com mais vítimas fatais. Mas não dá para acreditar que mais de 50 milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro sejam perversos como ele. É nisso que ele quer que a gente acredite, mas não é real. É mais um de suas mistificações, mais um de seus truques malignos.

Ao fazer um discurso calcado nas fake news, no fundamentalismo religioso, na intolerância com os adversários, Bolsonaro quer que a gente conclua que todos que votam nele pensam exatamente como ele pensa, que todos que votam nele são fascistas. Mas, até estatisticamente, é improvável que isso seja verdade. Sim, eu sei que muita gente que vota no presidente vota porque concorda com ele: porque odeia a esquerda, porque quer que os povos indígenas se lasquem, porque acha que cortar as árvores da Amazônia “faz parte” do desenvolvimento e que o pobre é pobre “porque não se esforçou”.

Mas há muitas pessoas, milhões delas, que votam em Bolsonaro porque ele conseguiu lhes incutir medo da esquerda, medo dos avanços da sociedade em termos sexuais e até medo de perder o emprego. E, por mais incrível que isso possa parecer para nós, há muitos que votam em Bolsonaro porque ele, sob o ponto de vista de seus eleitores, também fala de “amor”: o amor à Pátria, à Família e a Cristo. Sim, o discurso de Bozo pode soar falso para nós, mas há bolsonaristas que votam nele por amor. É por isso que a esquerda precisa calibrar seu discurso e parar de agir como se tivesse o monopólio do amor.

Em vez de afirmar que temos um quarto de “fascistas” entre nós, a esquerda (e a campanha de Lula) ganharia mais mostrando como Bolsonaro foi capaz de semear a discórdia dentro das famílias, no trabalho, nas amizades, ao mesmo tempo em que se diz “defensor da família”

Um dos maiores malefícios do bolsonarismo tem sido a sua principal arma: semear a discórdia dentro das casas, jogar irmão contra irmão, ao mesmo tempo que se diz “defensor da família”. Quem de nós, hoje, não tem um irmão bolsominion? Um primo? Um amigo? Quantas amizades e famílias não foram destruídas por causa de Bolsonaro? Desde que ele surgiu no horizonte, até crimes são cometidos no país por conta de briga política, desde o assassinato do mestre capoeirista Moa do Catendê por um bolsonarista em 2018 até o bolsonarista morto pelo amigo petista com quem morava por causa de uma discussão essa semana.

Penso nos irmãos Thiago e Bruno Gagliasso. Até setembro de 2018, Bruno e Thiago apareciam sempre juntos. Em maio daquele ano, Bruno deu a maior força para Thiago retomar a carreira de ator depois de 10 anos, na peça Quase um Gagliasso, onde zoava o fato de ser menos conhecido (e menos talentoso) que o irmão mais velho. As postagens de Thiago no instagram naquela época se resumiam a futebol, família, o filho Gabriel, fotos carinhosas com o irmão e a cunhada Giovanna Ewbank e os sobrinhos…

Até que, em setembro de 2018, algo mudou. Ele mesmo contou o que provocou a guinada. “Confesso que sempre fui alienado politicamente, nunca me posicionei, simplesmente porque nunca tive estudo o suficiente e pra não falar merda como um monte de ‘formadores de opinião’ falam por aí, é melhor ficar calado”, escreveu. “Assisti uma série do Brasil Paralelo e me identifiquei muito, ‘A Última Cruzada’. Aprendi e tive um outro ponto de vista sobre a nossa história, recomendo muito!”

Postagem de Thiago Gagliasso em 2018

Brasil Paralelo é a produtora que atua fazendo revisionismo histórico e promovendo lavagem cerebral pró-Bolsonaro em muita gente, ocupando a lacuna deixada pelo finado Olavo de Carvalho –que, aliás, é uma das estrelas da série. Com uma pegada nacionalista exaltação, A Última Cruzada reconta a história do Brasil sob a ótica dos colonizadores e não a partir de uma narrativa decolonial, das vítimas do genocídio que significou o “descobrimento”, como tem feito os historiadores modernos (ou “esquerdistas”, como dizem o bolsonaristas).

Thiago parecia a vítima ideal: era apolítico e carregava dentro de si uma frustração pessoal, como muitos que caem nas garras do bolsonarismo. O recalque, a rivalidade dele em relação a Bruno, ao que parece, remonta à infância –mais velho 7 anos do que Thiago, o ator é filho da mesma mãe, mas de outro pai. “De 1 a 7 anos, eu odiava meu irmão. Eu falava que ele não era meu irmão. Minha mãe ficava até assustada e aí ela fez uns trabalhos kardecistas comigo e eu melhorei”, contou Thiago ao participar do reality A Fazenda, em 2011.

Após o documentário, Thiago mudou radicalmente de postura e começou a opinar sobre política. A primeira briga pública com o irmão aconteceu na campanha eleitoral de 2018, quando discutiu com a cunhada por conta do movimento “Ele Não”. A relação entre os dois ia desmoronando à medida que a eleição se aproximava. Thiago, que nunca conhecera o sucesso como ator, começava a a amealhar seguidores nas redes sociais ao aderir ferozmente ao discurso bolsonarista em contraposição ao irmão, cada vez mais à esquerda.

Em abril de 2019, o bolsonarista Thiago passou a ter 425 mil seguidores no instagram; este ano, já tem quase 1 milhão (ainda bem distante dos 21 milhões de Bruno) e se elegeu deputado estadual em São Paulo pelo PL, o partido do presidente. E uma das primeiras coisas que fez após a vitória foi provocar o irmão. “Brunão, obrigado. Por você falar tanta merda conseguiu me dar tantos votos. Então, obrigado”, postou. A relação entre os dois está esfrangalhada. Thiago Gagliasso é “fascista”? Não sei. Seu irmão bolsonarista é? E o meu? Tenho minhas dúvidas.

Bruno e Thiago em abril de 2018

Acho que, neste segundo turno, a campanha de Lula deveria dar menos ênfase à disputa entre “amor e ódio” e se concentrar em mostrar as contradições do responsável por implantar a cizânia entre nós. Bolsonaro não é sincero quando diz que é patriota, por exemplo. Nada do que fez à frente da presidência da República nestes quatro anos faz crer que colocava o interesse do Brasil e dos brasileiros em primeiro lugar.

Bolsonaro é mesmo cristão? Porque no discurso dele não há nada que indique seguir princípios cristãos. Bolsonaro diz que defende a vida. Ué, quem defende a vida diz que vai “metralhar” opositores? Estimula a população a comprar revólveres que têm tirado a vida de inocentes, como ocorreu outro dia numa escola na Bahia? Essas contradições no discurso dele é que devem ser exploradas e não a falsa dicotomia de que só nós, esquerdistas, somos capazes de amar enquanto nossos adversários só sabem odiar. O ser humano é mais complexo, tem mais nuances do que isso.

Entre nós, eleitores de Bolsonaro e Lula (não entre Bolsonaro e Lula), há algumas similitudes que ambos fazemos questão de negar. Todos nós acreditamos que queremos o melhor para o Brasil, cada qual à sua maneira. De um lado estão os que almejam um Brasil mais seguro e para isso estão dispostos até a comprar uma arma; do outro, os que queremos um Brasil mais humano e por isso abominamos armas; de um lado estão os que desejam um Brasil onde as pessoas possam ficar ricas; do outro, os que sonham com um Brasil onde não falte nada a ninguém. São diferentes modos de ver o mundo, sem dúvida, mas não a ponto de um lado querer matar o outro, como vem acontecendo –e é isso que Bolsonaro deseja, porque vem daí a sua força.

Se Lula é o único capaz de promover a reconciliação do Brasil, estamos errando ao sabotar essa reconciliação apontando o dedo para o nosso semelhante como fascista. O fascista é Bolsonaro. É isso que temos que mostrar ao país –e até para quem vota nele

Outro ponto em comum é que ambos temos líderes carismáticos, a quem defendemos ferrenhamente. E ambos temos um inimigo em comum: o nosso é Bolsonaro e a ameaça autoritária; o deles é Lula e “o comunismo”, capaz de desvirtuar seus valores mais caros. Nosso inimigo é real; o dos bolsonaristas, moinhos de vento. A diferença, portanto, é que só um dos líderes é sincero. O outro é um mentiroso compulsivo que ainda consegue iludir muita gente e nosso papel é abrir os olhos delas. Nossas energias têm que se concentrar em demolir Bolsonaro, deixá-lo a nu diante de seus próprios eleitores.

Em vez de afirmar que temos um quarto de “fascistas” entre nós, a esquerda (e a campanha de Lula) ganharia mais mostrando como Bolsonaro foi capaz de semear a discórdia dentro das famílias, no trabalho, nas amizades. Quantos de nós não temos um parente bolsonarista com o qual cortamos relações? Todos eles são pessoas odiosas? Repito: há muitos que coadunam com o pensamento do “mito”, mas tem, sim, gente que vota nele por querer uma “segurança” ilusória, por ter sido contaminado pelo ódio à esquerda e por temer as transformações da sociedade. Precisamos demonstrar que Bolsonaro joga com os sentimentos dessa parcela da população.

É preciso conseguir transmitir sobretudo que eleger Lula é importante porque o projeto de Lula é melhor. Porque Lula é mais competente. Porque com Lula o Brasil era mais respeitado lá fora. Porque os brasileiros, inclusive muitos dos que hoje votam em Bolsonaro, eram mais felizes. Se Lula é o único capaz de promover o que queremos, a reconciliação do Brasil, estamos errando ao sabotar essa reconciliação apontando o dedo para o nosso semelhante como fascista.

O fascista é Bolsonaro. É isso que temos que mostrar ao país –e até para quem vota nele.

 


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Luciane em 07/10/2022 - 09h45 comentou:

Olá Cynara! Bom dia!
Que maravilha de texto e sacada. Me senti como você, paranóica. Não tive, ainda, sua grandeza, generosidade e “amor no coração” para olhar todos como vítimas desse discurso de ódio, inclusive eu. Ao ler sua análise percebi isso. Vou tentar, obrigada❤️👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽❤️

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Jose Maria Haenni Infante em 07/10/2022 - 21h32 comentou:

Como ver amor em alguém que exalta a tortura e debocha de doente de covid ? Não entendo.Não tenho a mínima vontade de brigar com bolsominion mas quero ficar bem longe , pois não tenho paciência para aturar.

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Rodrigo Coelho em 11/10/2022 - 03h47 comentou:

A campanha do Lula (agora com muitos democratas no mesmo barco) pode até apontar para as contradições do Bolsonaro, mas é impossível negar que os eleitores do tal de “mito” sejam fascistas. Quem vota no Bolsonaro deseja sim que a “petralhada”, se não exterminada de uma vez (nossas tias talvez não), ao menos seja silenciada.

O que você sentiu no supermercado eu senti na fila na hora de votar. Fiquei assustado e resolvi que se alguém puxasse qualquer assunto, mesmo que não fosse sobre política, eu ficaria em silêncio. Ninguém poderia provocar, bater, esfaquear ou atirar num homem que não abriu a boca. Seria arriscado para o fascista.

Pode parecer exagero e paranoia, mas é o efeito da violência que o Bolsonaro produz todo dia, violência aceita e aplaudida pelos eleitores dele. Esse direitista bonzinho do seu texto, se tivesse caráter mesmo, poderia levar a terceira via para o segundo turno ou, pelo menos, assustar a campanha do Bolsonaro com números mais expressivos. Mas não, porque esse sujeito endossa as barbaridades do Bolsonaro. E que se dane nossa família reacionária! Por que precisamos de tios nazistas, tias carolas e priminhos armados? É medo de passar o Natal sozinho assistindo ao Roberto Carlos? Pois eu prefiro assim.

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Gabriel Arruda em 11/10/2022 - 18h42 comentou:

Tá rolando brigas aqui em casa a algum tempo e Eu já perdi a linha algumas vezes por causa da frieza e do fanatismo de Parentes.

Mas ultimamente a coisa ficou mais suportável.

A Propaganda do Bolsonaro dá a entender que um apocalipse vai rolar aqui se o Lula ganhar dia 30 e que o Brasil é uma paraíso terreno criado e mantido pelo Bolsonaro.

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Eugênio Bh em 14/10/2022 - 20h30 comentou:

Nada de Brancaleone,
nada de Quixotesco,
trata-se de horror. E seu gozo múltiplo.
Ou Jorge enfrenta a Fera,
ou …

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Daniel - P. Alegre em 18/10/2022 - 02h13 comentou:

Entendo teu ponto de vista e de certa forma acho louvável. É verdade que o único caminho viável é desconstruir o “mito”, até porque discutir com bolsonarista é inútil.
Mas tem um espectro do bolsonarismo que você esqueceu que é a idolatria conservadorista e o fundamentalismo religioso.
Ok, nem todo bolsonazi é um fascista completo mas desculpa tirar a tua ilusão, todos eles tem um componente maior ou menor de fascismo, simplesmente porque seus princípios e valores guardam profunda semelhança com. Tu conhece algum bolsonazi que não seja pelo menos uma dessas coisas ? Racista, homofóbico ou antipobre ? Eu não conheci ainda …..
Então sinto de desapontar de novo mas a hecatombe chamada bolsonaro mostrou um Brasil feio, preconceituoso e violento que estava há muito represado, potencializado mais recentemente pelo fundamentalismo religioso. Não dá pra tapar o sol com a peneira, e infelizmente teremos que conviver com isso daqui pra frente porque foi aberta a caixa de pandora. Engana-se que bolsonaro seja o causador. Ele é só a ferramenta que abriu a caixa. E mesmo que saísse da política agora não adianta mais, porque os monstros já saíram de lá de dentro.

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Nana em 19/10/2022 - 19h24 comentou:

Opinião bonita.. que pra mim não dá, tentei mostrar que o atual presidente NÃO é uma boa opção (Mostrando quantas semelhanças ele tem com a Alemanha Nazi), mas um familiar que eu adorava demais não vê de propósito (Usa sempre a mesma frase “Vai pra Venezuela” sendo que também já expliquei que o caso da Venezuela não é o que ele pensa).
Alguém até pode falar “Nossa mas se afastar de familiar por política? Que intolerante” mas não, eu não tenho que ser tolerante com quem apoia uma pessoa que NUNCA foi tolerante comigo (No caso uma pessoa Lgbt+ e Neurodivergente) sabendo que essa pessoa não é tolerante

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