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O primeiro presidente tatuado da história do Chile começou a governar

Uma crônica sobre o novo presidente chileno, o esquerdista Gabriel Boric, que assumiu o poder há menos de 15 dias

Gabriel Boric em sua casa durante a campanha. Foto: reprodução Facebook
Da Revista Anfibia
23 de março de 2022, 19h15

Por Roka Valbuena, na revista Anfíbia
Tradução Cynara Menezes

Em 11 de março a história do Chile começou a mudar. Gabriel Boric assumiu a presidência e, pelo visto, tudo será diferente. Pela primeira vez este país será comandado por um jovem tatuado e viciado em heavy metal. Em resumo, um líder único no planeta.

No dia da posse há uma multidão esperando o grande homem, o herói, o Arcanjo Gabriel. Estamos na porta de seu escritório e um grupo de devotos sem tanta ideologia, mas com o fanatismo que gera um centroavante, espera que aconteça: o herói vai aparecer.

–Eu conheço uma pessoa que o conhece, diz um jovem, com os olhos arregalados.

–E falaram o quê?

–Que ele é sensacional.

Em dezembro Boric obteve 5 milhões de votos chilenos, obteve o cetro, a cadeira estofada, derrubou um alemão que liderou a direita, ofuscou os comunistas e sua ira bolchevique, e foi ele, caralho, o grunge de barba, o ícone da esquerda simpática, que modificou nosso universo

Em 21 de dezembro Boric obteve 5 milhões de votos chilenos, obteve o cetro, a cadeira estofada, derrubou um alemão que liderou a direita, ofuscou os comunistas e sua ira bolchevique, e foi ele, caralho, o grunge de barba, o ícone da esquerda simpática, que modificou nosso universo.

–Te amo, grita uma universitária como se estivesse aguardando a aparição de Eddie Vedder ou do grupo Pearl Jam todo.

–Fique calma, aconselha uma voz amarga, um invejoso à beira da maturidade que titubeia diante da nova era, o outro mundo impulsionado pelo vencedor. A julgar pelo aspecto do senhor, se trata de um social-democrata, um morno de nascença. Os sociais-democratas não esperam o Pearl Jam; eles esperam que Ricardo Lagos volte.

–Quando ele vem para cá, cumprimenta todo mundo, tira fotos, autografa camisetas…, explica uma fã.

–Mas é um político…

–Sim, e é o máximo. E é humano, acrescenta, com o olhar brilhante.

Então o jovem ganhou e agora é nosso Hércules, nosso Lennon, nosso Vedder que aderiu ao progressismo, a mistura entre Che e Pepe Mujica, o democrata do momento. É, enfim, o primeiro presidente tatuado da história do Chile. Lhe gravaram uma árvore de Punta Arenas, sua terra natal, acima do peito. Lhe gravaram um farol nostálgico no antebraço, uma ave transtornada da Terra do Fogo no bíceps, uma fita negra e realmente enigmática perto do cotovelo.

 

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A verdade é que este homem, mais que um presidente, é um roqueiro forçado a mandar: estamos falando do fã mais poderoso do mundo da banda de rock progressivo chamada Tool. Ou ainda este homem, mais que um presidente, é um cantor que quer reformar um grande país: falamos do ex-vocalista da banda de rock pesado chamada Crack Heads, a banda que Sua Excelência liderou a gritos nos anos 1990.

–Eu cantava coisas de Nirvana, do Pearl Jam, do Metallica. E coisas minhas, confessou uma vez.

–Pode cantar algo?, pediu um apoiador.

–Nem fodendo.

Ou seja que tudo indica que o Chile logo vai se despentear: temos pela primeira vez um presidente que saúda a multidão usando uma camiseta do Black Sabbath.

–Mas… cuidado!, adverte um fiel que estuda tendências.

–Com o quê?

–Ele é dois homens ao mesmo tempo.

–Do que você está falando?

–Ele tem duas formas de saudar.

Acontece que o herói, em momentos de eletricidade, saúda erguendo três dedos –o polegar, o indicador e o mínimo. A saudação do rock, o gesto de Ozzy, o código do Metal, e o povo vibra. Mas outras vezes, sobretudo desde que comanda 17 milhões de compatriotas, o herói, em sinal de saudação, toca o coração, e o povo, sentimental, também vibra. O presidente tem duas formas de agradar, uma usa de noite e a outra usa para ilustrar a paz.

Boric na posse. Foto: reprodução/Facebook

–Parece que está para chegar!, gritam, no grupo de admiradores.

–Não consigo respirar!, grita alguém, e a voz emerge atrofiada.

–Olha, ele não é tão baixo! A TV engana!, lança um BoricLover.

–Não idealize! É baixinho! E isso importa? Devemos ficar complexados por um líder de pernas curtas?, repreende um terceiro.

–De jeito nenhum! Gabriel é interessante!, argumenta um fã.

O ambiente é apaixonado.

–Adoro suas ideias!, argumenta uma viúva.

E outros dialogam extasiados:

–Dias atrás vim esperá-lo…

–E o que aconteceu?

–Parece que me olhou…

–O que você sentiu?

–Conexão…, murmura um jovem que permanece atônito.

E nesta manhã, horas antes de se converter oficialmente em Nossa Luz, em Senhor Presidente, todos ali seguem esperando Gabriel Boric Font. Como acontece com as estrelas do rock.

Este herói tem 35 anos levados com a camisa aberta e os pelos à mostra; o herói foi forjado na via pública. Em 2010 ergueu o punho na rua, quando estudava Direito na Universidade do Chile, ou quando se ausentava por direito e não aparecia na Universidade do Chile. Fez discursos em cima de um poste de luz, perdeu a voz difundindo o progressismo fogoso, se defendeu da polícia grudado num cartaz:

EDUCAÇÃO PARA TODAS E TODOS

As balas lhe roçaram, as balas de borracha, as porradas, os carabineiros andavam atrás dele. Vivia em permanente tensão. Ainda assim inventou uma esquerda que não parecia melancólica. Outorgou a ela caráter, guitarras elétricas, bigodes, culhões, e exerceu a raiva na Alameda. Costumava dizer que não estava só: vamos consultar as bases, dizia uma e outra vez. E o povo, desconfiado, se perguntava:

E quem diabo são as bases?

As balas lhe roçaram, as balas de borracha, as porradas, os carabineiros andavam atrás dele. Vivia em permanente tensão. Ainda assim inventou uma esquerda que não parecia melancólica. Outorgou a ela caráter, guitarras elétricas, bigodes, culhões, e exerceu a raiva na Alameda

As bases, no final das contas, eram a massa anônima, são as companheiras e companheiros, é o idealismo em estado bruto. Boric, o comandante, sempre devia às bases e dela extraía um ponto de vista. E os de seu grupo acreditavam desconfiando: olhem, diziam, depreciativos, é um filho da burguesia de Magallanes, o herdeiro do neoliberalismo do fim do mundo, esse hippie de sala com vista para o Cabo de Hornos obteve educação privilegiada, olhem, fala corretamente o inglês, é torcedor do Universidad Católica, o time dos loiros, o time dos sacerdotes, o time do status quo, dos que aceleram um Jeep. E ele se mantinha firme, de pé, cabeleira ao vento, uma piscola (coquetel de refrigerante com pisco) sem coca-cola na mão, a orelha perfurada por um brinco e com seus livros de Albert Camus.

–O país deve despertar, apontava.

–Ninguém percebe que as coisas vão mal?, se perguntava.

–Santiago é um nojo, enfatizava.

E dava entrevistas. Era o croata chamativo, o filho de um esquerdista suave e de uma católica exagerada.

–O que busca, senhor Boric?, lhe perguntou um jornalista da televisão em 2011 e com um microfone que lhe raspou a costeleta.

–Que escutem…

–Quem tem que escutar?

–Os chefes.

Este mesmo repórter uma vez o interceptou no meio de uma marcha.

–Com o que você sonha?, lhe perguntou o repórter com evidente cafonice.

Foi a primeira vez que cruzaram o olhar. Boric então era o lenhador de barba e botas desamarradas. Sempre com uma camisa xadrez besuntada de ketchup, cabelo de existencialista; era, em suma, um elegante utópico com um buraco na calça e, ao mesmo tempo, um símbolo sexual para uma nova fornada de progressistas.

–Então… com o que sonha?, insistiu o repórter.

–Sonho que estou na minha casa, respondeu.

E tossiu.

–Você está bem?

Boric olhou o horizonte.

–Eu –disse– dormia num quarto que dava para o fim do mundo. O mar e, mais além, a Antártica.

–E você dormia olhando para o fim do mundo?

–Todas as noites. E por isso sempre fiz a mesma coisa…

–O quê?

–Dormi com a janela aberta. Ainda que estivesse 15 graus abaixo de zero. O vento se metia em minha cama, compadre.

Disse isso e entrou outra vez na marcha.

E o que se seguiu veio em 5 anos corridos: foi deputado e recusou a gravata. No primeiro dia no Parlamento pegou um microfone e disse: “Proponho que todos os deputados reduzamos o salário à metade… O que acham?” Olharam-no estupefatos. Em um debate acalorado, pediu a palavra e recitou Corazones Rojos, da banda chilena Los Prisioneros, para advogar pela legalização do aborto.

Este repórter, uma vez, em 2016, o perseguiu ao longo de 192 degraus do Congresso Nacional tentando extrair-lhe um só pensamento. Mas Gabriel subiu 7 andares em silêncio. “Fale comigo”, rogou o repórter. E nada, Gabriel não queria se pronunciar porque sentia que ia aparecer em um jornal de direita –no entanto, no Chile, salvo exceções, todos os jornais são de direita. E subiu depressa as escadas. “Pelo menos diga, senhor Boric, por que raios não usa o elevador?”, insistiu o repórter. Então ele parou, ofegante, e esclareceu: “Para emagrecer, babaca”.

E, tempo depois, se descobriu que padecia de um TOC, que saía de casa e logo, nervoso, achava que havia deixado a luz da cozinha acesa e voltava para apagá-la, mas já estava apagada. E então saía outra vez, apressado, e sentia que agora sim havia deixado a luz da cozinha acesa e voltava correndo para apagar, mas já estava apagada. E assim sucessivamente. Por esse motivo se ausentou um tempo do Parlamento e agora toma 4 remédios que lhe dão a sensação de que a luz da cozinha está implacavelmente apagada.

E outro dia este repórter voltou a entrevistá-lo para um esforçado programa de TV a cabo chamado El Giornalista e lhe disse com respeito:

–Por que o chamavam Gaybriel no colégio?

E o olhou tranquilamente. E Boric respondeu, imutável:

–Porque eu experimentei com homens. Me agarrei com um amigo. Recomendo.

E o repórter abordou outros tópicos e lhe perguntou:

–Você é nosso Che Guevara?

–Não.

E em seguida Gabriel começou a cantar uma canção punk que, entre outras coisas, diz: “…como gostaríamos de mijar num capacete militar” (no original, “…como quisiéramos mear en un casco militar”, sucesso da banda punk chilena Fiskales Ad-Hok). E logo se foi, porque estava com 38,5 de febre. E o repórter o levou em seu carro a um destino indecifrável. Apertaram as mãos e o repórter, que já francamente se sentia vinculado ao Arcanjo Gabriel, lhe disse: “Você é o chefe”. Ou algo neste sentido e Boric fez o gesto do rock, os três dedos levantados, a manobra da rebeldia, e ali ficou o futuro presidente, parado numa esquina, com o cabelo cortado sem harmonia nenhuma. Rindo, roqueiro, feliz.

Mas, em 18 de outubro de 2019, o país explodiu. E a multidão saiu às ruas para queimar Mercedes Benz, postes de luz, estações de metrô. Os ricos eram procurados nos campos de golfe. Os pobres eram procurados nas chamas. E Gabriel, aflito, assinou um Acordo Pela Paz e assim foi possível redigir uma nova Constituição. Uma tarde, uns anarquistas se encontraram com Gabriel e o chamaram de traidor por ter se dobrado a um acordo. Disseram que ele “amarelou”, que é como se diz de um covarde. E o banharam em cerveja.

Gabriel não opôs resistência.

Sua imagem, caminhando, indo embora, jorrando cerveja, estremeceu a nação.

No entanto, o herói, como fazem os imortais, logo se colocou de pé. E ganhou de todos.

Foi eleito por ampla maioria.

E agora vem.

Senhoras e senhores, vem vindo o herói. Já não veste a camisa xadrez, não há manchas de ketchup, uma equipe de estilistas já lhe aparou a barba contemplando um exemplar da Vogue. Compraram-lhe ternos, mocassins, lhe instalaram uns óculos para que enxergue gravemente a realidade. A multidão grita ao vê-lo.

–Presidente, eu lhe trouxe um desenho!

–Presidente, eu lhe trouxe uma galinha viva para que coma uma sopa!

–Obrigado a todos, diz o líder.

Arrumaram Boric, o perfumaram, mas é ele, senhoras e senhores, o presidente jovem, o torcedor de futebol, o amigo de Roger Waters, o amigo de Pepe Mujica, o que se corresponde com Macron, a jovem revelação do século 21, a versão baixinha de Trudeau, o ar fresco.

Já não veste a camisa xadrez, não há manchas de ketchup, uma equipe de estilistas já lhe aparou a barba contemplando um exemplar da Vogue. Compraram-lhe ternos, mocassins, lhe instalaram uns óculos para que enxergue gravemente a realidade. Mas, penteado ou despenteado, é o mesmo de sempre

É o mesmo que teve fome outro dia e saiu para morder um sanduíche no restaurante La Terraza; hoje o sanduíche se chama El Boric.

É o subversivo que vai morar no bairro Yungay, uma região improvável, cheia de bares, de sofrimentos e de artistas (no Chile não existe morada presidencial). Será vizinho de um homem que vende amendoim. E de um taxista. Talvez com eles tome, na Casa do Governo, o pisco puro com duas pedras de gelo, que é como a fera de Magallanes aprecia.

Outro dia passeou pelo bairro e, em uma loja de discos, por alguma razão, comprou o LP Adiós Sui Géneris e depois se deparou com um excêntrico que lhe apertou a mão. Esse excêntrico relatou: “A mão do presidente é macia, deve passar creme. É um rei. É o capo. Esse sim é o chefe. E a única coisa que sonha é poder sair nas manhãs de domingo a comprar pão”.

–Se Boric fosse argentino deixaria o cabelo comprido e abriria a camisa, disse um cronista portenho, invejoso.

–Se Boric fosse colombiano sairia de farra de noite e governaria usando sandálias, disse um cronista colombiano, invejoso.

Mas é nosso Boric.

O homem a quem levam tortas, flores, chocolates. O roqueiro que ingressou no sistema, o mesmo utópico de 2010 que prometeu mudar o mundo. Penteado ou despenteado, é o mesmo de sempre.

É Boric. O namorado de Irina. O irmão de Simón. O amigo de Giorgio.

O presidente mais jovem da história do Chile.

O primeiro presidente que conviverá com uma namorada em uma Casa de Governo.

O presidente que deu nome a um sanduíche.

O presidente da esquerda feliz, que levanta o braço, bendiz a população, com sua camiseta do Black Sabbath.

–Obrigado!, grita Gabriel Boric e entra num carro. E, naquele 11 de março, o carro sai disparado rumo ao poder.

Começou sua era.

Senhoras e senhores, o primeiro presidente tatuado do Chile começou a governar.

Roka Valbena é jornalista, licenciado em Literatura. Atualmente trabalha na rádio La Clave, conduz o programa de entrevistas El Giornalista e escreve no jornal The Clinic


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ALEXANDRE BRITO FERREIRA em 24/03/2022 - 21h56 comentou:

Fantástica vida. Parabéns Cynara sempre assisto você no 247 e na Forum. Linda matéria.

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