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Direitos Humanos

Os negros dos EUA que foram utilizados como cobaias humanas para “pesquisar” a sífilis

No Dia da Consciência Negra, conheça uma das páginas mais vergonhosas da história da Medicina: o estudo de Tuskegee

Alguns dos participantes do estudo de Tuskegee. Foto: National Archive
Cynara Menezes
20 de novembro de 2019, 11h30

No dia 16 de maio de 1997, o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, fez um pedido oficial de desculpas a um grupo de cinco idosos negros, todos já com mais de 80 anos de idade. “O governo dos EUA fez algo errado –profundamente, moralmente errado…”, disse. “O que o governo dos EUA fez foi vergonhoso, e eu sinto muito. Digo a nossos cidadãos afro-americanos: sinto muito que nosso governo federal tenha orquestrado um estudo tão claramente racista. Não se pode permitir que isso jamais aconteça de novo.”

O estudo a que Clinton se referia constitui uma das páginas mais vergonhosas da história da Medicina. Entre 1932 e 1972, 399 homens negros contaminados com sífilis foram mantidos sem tratamento, utilizados como cobaias humanas pelo Serviço Público de Saúde para supostamente pesquisar a cura para a doença. Outros 201 pacientes negros sem sífilis participaram da experiência, como grupo de controle.

Entre 1932 e 1972, 399 homens negros contaminados com sífilis foram mantidos sem tratamento, utilizados como cobaias humanas pelo Serviço Público de Saúde dos EUA para supostamente pesquisar a cura para a doença

Recrutados com a promessa de que teriam atendimento médico gratuito, nenhum deles foi informado de que portava a doença nem tratado com penicilina, embora o antibiótico houvesse mostrado eficácia sobre a sífilis desde 1947. Os pacientes recebiam apenas placebo, como aspirinas, embora estivessem ficando cegos, com problemas mentais ou morrendo em virtude da doença.

“Nós fomos tratados todo o tempo como se não fôssemos humanos, como porcos idiotas, como porquinhos-da-índia (“guinea pigs”, “cobaias” em inglês). Ninguém sabe o que passamos a não ser alguns de nós que ainda sobrevivemos”, disse Herman Shaw, um dos participantesShaw tinha 95 anos quando ouviu o pedido de “perdão” do presidente dos EUA.

Médico “trata” paciente de Tuskegee. Foto: National Archive

Após o “experimento”, chamado oficialmente “Estudo sobre a sífilis não tratada em homens negros de Tuskegee” (foi feito em parceria com a Universidade de Tuskegee, Alabama), 28 dos 399 homens haviam morrido de sífilis e 100 deles de complicações relacionadas à doença; 40 esposas tinham sido infectadas e 19 crianças nasceram com sífilis congênita. Durante os 40 anos em que durou o “estudo”, os negros, todos agricultores pobres do Alabama, ouviam dos médicos que estavam sendo tratados de “sangue ruim”, e eram levados a crer que tinham doenças comuns, como problemas no estômago ou reumatismo.

Após o “experimento”, 28 dos 399 homens haviam morrido de sífilis e 100 deles de complicações relacionadas à doença; 40 esposas tinham sido infectadas e 19 crianças nasceram com sífilis congênita

“Sangue ruim” era a expressão utilizada nos panfletos espalhados pelo Estado do Alabama em 1932, dirigidos às “pessoas de cor”. “Teste de sangue grátis; tratamento grátis fornecido por médicos do governo. Você pode estar se sentindo bem e ainda assim ter ‘sangue ruim’. Venha e traga toda a sua família.” Centenas de negros compareceram à convocação, atraídos pela promessa de tratamento e até refeições gratuitas. Nunca deram autorização por escrito para serem cobaias do experimento “científico”.

Foto: reprodução

“Eu fui lá e eles me disseram que eu tinha ‘sangue ruim’. E foi o que continuaram a me dizer desde então”, contou outro sobrevivente, Charles Pollard, em 1972. “Eles vinham de tempos em tempos e diziam: ‘Charlie, você tem sangue ruim’. Eles nunca mencionaram sífilis, nem uma única vez.”

Já nos anos 1960, Bill Jenkins, um epidemiologista negro que atuava como estatístico no Serviço Público de Saúde, tentou denunciar o estudo às autoridades como “antiético”. Procurou seu supervisor, que disse a ele para “não se preocupar”. Inconformado, Jenkins escreveu um artigo e enviou a cientistas e jornalistas, mas nem assim conseguiu ser ouvido.

Fui lá e me disseram que eu tinha 'sangue ruim'. E foi o que continuaram a me dizer. Eles vinham de tempos em tempos e diziam: 'Charlie, você tem sangue ruim'. Eles nunca mencionaram sífilis, nem uma única vez

Em 1966, Peter Buxton, um epidemiologista branco, transmitiu ao diretor do Departamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis dos Estados Unidos suas preocupações éticas sobre o estudo de Tuskegee, mas seus superiores também rejeitaram a denúncia, dizendo que o estudo ainda não estava completo. Dois anos depois, em 1968, tentou levar o caso novamente às autoridades e novamente foi ignorado.

A diferença é que Buxton tinha amigos na imprensa, a quem vazou a informação. Finalmente, seis anos depois, em 1972, a jornalista Jean Heller, da Associated Press, publicou o furo no Washington Star, informando ao país que durante 40 anos vítimas da sífilis nos EUA, “induzidas a servir como cobaias”, permaneceram sem tratamento; no dia seguinte, o texto seria replicado com chamada na primeira página pelo New York Times.

Anos depois, em uma entrevista, a repórter definiria o estudo de Tuskegee como “uma das mais grosseiras violações de direitos humanos” de que teve notícia. “Usaram, abusaram e mataram pessoas. O que há pior do que isso? E a parte horrível é que começou na mesma época das atrocidades nazistas na Alemanha, e fomos nós que julgamos os alemães. Isto parece correto? O estudo de Tuskegee não foi tão difundido quanto atrocidade, mas não é menos horrível do que os nazistas fizeram”, disse Heller. “Desde Hipócrates, a primeira regra da Medicina é: não causar dano aos pacientes. Bem, isso foi jogado pela janela. Eles queriam causar dano. Queriam que estas pessoas morressem.”

Faz sentido comparar o malfadado estudo com as experiências nazistas, já que um dos princípios promulgados no julgamento de Nuremberg, em 1948, quando Tuskegee estava em pleno andamento, diz que “é absolutamente essencial o consentimento voluntário” de seres humanos ao serem submetidos a experimentos científicos. Para os cientistas, o mais absurdo é que já havia sido feito um estudo idêntico na Suécia anos antes, que teve o mesmo resultado: nenhum. Por que eles fizeram de novo?, é o que todo mundo se pergunta.

O estudo de Tuskegee não foi tão difundido, mas não é menos horrível do que os nazistas fizeram. Desde Hipócrates, a primeira regra da Medicina é: não causar dano. Isso foi jogado pela janela. Eles queriam que estas pessoas morressem

No dia seguinte à publicação da reportagem pelo New York Times, o sobrevivente Charles Pollard procurou o advogado especialista em direitos civis Fred Gray para processar o governo dos EUA pelos danos causados à comunidade negra de Tuskegee. Gray pedia uma indenização de 1,8 bilhão de dólares; conseguiu 10 milhões. Os participantes vivos com sífilis receberiam 37.500 dólares cada um; os descendentes dos mortos receberiam 5 mil dólares, e as mulheres e crianças infectadas teriam direito a tratamento durante toda a vida. Pouco dinheiro para “reparar” uma monstruosidade.

Até hoje os descendentes das cobaias humanas de Tuskagee lutam contra o estigma de estarem conectados ao experimento. Os parentes das vítimas querem vê-las reconhecidas por suas biografias, não só como objetos de uma pesquisa digna de Joseph Mengele. “Ele era um homem sábio, gentil. Amava sua família. Tinha senso de humor e era um bom dançarino”, disse Lille Tyson Head, uma das filhas de Freddie Lee Tyson, um dos negros utilizados no estudo, à AP, em 2017.

Um estudo publicado em 2016 também traz evidências de que o “efeito Tuskegee” é uma das explicações para a desconfiança que os negros dos EUA têm com médicos e o serviço de saúde em geral. Como disse o então vice-presidente Al Gore na cerimônia em que Clinton pediu desculpas, muitos pensam duas vezes ao doar sangue, vacinar seus filhos ou assinar uma autorização para doar órgãos. Os negros têm os piores indicadores de saúde entre todos os grupos étnicos, raciais e demográficos dos EUA. Homens afro-americanos têm expectativa de vida mais curta que os brancos e morrem mais de câncer e doenças cardíacas. 

A escravidão nos EUA acabou em 1861. O estudo de Tuskegee prova que, mais de 100 anos depois, homens negros ainda eram tratados como “coisas” pelo governo do país e por cientistas, supostamente a parte mais “consciente” da sociedade. Nenhum pedido de perdão ou dinheiro jamais será capaz de apagar este fato.

UPDATE: os leitores lembraram que existe um filme sobre o estudo de Tuskegee, Cobaias (Miss Evers Boys), de 1997 –mesmo ano do pedido de perdão de Bill Clinton–, dirigido por Joseph Sargent. Assistam.

 


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Pedro em 21/11/2019 - 19h36 comentou:

O nazismo é criatura do capitalismo.

Médico compara experimentos dos EUA na Guatemala aos do nazismo
01 de setembro de 2011 • 17h51 • atualizado às 18h44
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Detalhes dos experimentos de médicos americanos com pacientes da Guatemala nos anos 1940 fizeram um dos membros da comissão que acompanha as investigações comparar a pesquisa às técnicas empregadas por cientistas da Alemanha nazista.
Uma comissão de inquérito instaurada pelo governo americano revelou nessa segunda-feira que 1.300 guatemaltecos foram infectados por sífilis, gonorreia e outras DSTs em um experimento que visava provar a eficácia da penicilina. Pelo menos 83 pessoas morreram sem assistência.
O presidente do Colégio dos Médicos da Guatemala, Carlos Mejía, diz que o número de infectados pode ter chegado a 2.500, segundo indícios de documentos históricos.
Mejia diz que os documentos mostram a injeção de doses concentradas das bactérias causadora da sífilis no olhos, no sistema nervoso central e nos genitais dos pacientes. Segundo ele, essas são aberrações próprias do regime nazista da Alemanha (1933-1945).
“Isso ocorreu em um contexto em que eles mesmos (EUA) estavam julgando os médicos alemães que haviam feito experimentos com tifo e malária em prisioneiros de guerra”, diz.
“Os alemães usaram os poloneses, os russos e os judeus. Os americanos fizeram praticamente o mesmo na Guatemala.”
Mejía faz parte da comissão guatemalteca, composta ainda por ministros do governo do presidente Álvaro Colom e representantes da Justiça.
Segundo Mejía, “há evidências suficientes para dizer que houve colaboração entre autoridades americanas e guatemaltecas” durante os experimentos.
Pelo menos nove médicos locais estiveram envolvidos nas pesquisas. Apenas um deles, como mais de 90 anos, continua vivo, mas está desaparecido.
Desculpas
O vice-presidente guatemalteco, Rafael Espada, disse à BBC que o atual governo deve fazer um pedido de desculpas oficial ao povo do país.
O escândalo dos experimentos científicos só veio à tona em 2010, com a publicação de um estudo da historiadora Susan M. Reverby, causando comoção no país centro-americano.
O presidente americano, Barack Obama, pediu desculpas ao colega guatemalteco, classificando as pesquisas de “injustiça histórica, claramente contrária á ética e aos valores (americanos)”.
Os experimentos com prostitutas, prisioneiros, órfãos e doentes mentais tinham como objetivo descobrir se havia um comportamento comum nas infecções de DSTs, a fim de prevenir a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis nos soldados americanos estacionados em várias partes do mundo.
Segundo as autoridades dos dois países, a pesquisa foi feita sem consentimento dos pacientes.
”Experimentos do demônio”
Um das possíveis vítimas é Marta Orellana, 74 anos, que diz ter participado de constantes “experimentos do demônio” quando tinha apenas 9 anos de idade. Ela vivia em um orfanato na Cidade da Guatemala e cita médicos locais e “estrangeiros”.
O filho de Orellana, Luis Vázquez, disse que só se deu conta da gravidade dos relatos da mãe quando o escândalo estourou, no ano passado.
“Apenas quando escutamos o pedido de desculpas de Obama relacionamos o caso à minha mãe. Tudo fazia sentido: as injeções na genitália, os exames médicos contínuos, a doença”, diz.
Efeito continuado
Sessenta anos após a pesquisa, muitos guatemaltecos ainda padecem dos experimentos. O Hospital Roosevelt, da capital, examinou recentemente cinco idosos com evidências de que foram vítimas da pesquisa.
“Começamos também a documentar casos em que filhos de afetados foram infectados. Embora não apresentem sintomas de sífilis, a doença continua ativa (em seu organismo)”, diz Mejía.
O governo da Guatemala diz que há outros casos de possível contaminação ainda não confirmados.
Duas ações coletivas de vítimas dos experimentos contra o governo dos Estados Unidos já foram impetradas na Justiça do país. Os autores, filhos de possíveis vítimas já mortas, pedem indenização.

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