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Trabalho

Para uma parte dos sulistas, nordestino só serve se for para trabalhar como escravo

O escândalo das vinícolas e seus capitães-do-mato é emblemático de uma gente tosca que bebe Sangue de Boi e arrota Romanée-Conti

Trabalhadores resgatados na colheita da uva em Bento Gonçalves-RS. Foto: divulgação
Cynara Menezes
28 de fevereiro de 2023, 22h03

O capitão-do-mato não é uma questão de raça, mas de classe. É racismo pintá-lo apenas como o negro que capturava seus irmãos negros fugidos, quando historicamente ele foi muitas vezes branco ou mestiço. Tido como o mais temido capitão-do-mato do século 18, o paulista Bartolomeu Bueno do Prado, neto do Anhanguera, era branco. Hoje em dia, pode-se aplicar o termo “capitão-do-mato” a todo cidadão ou cidadã que, sendo trabalhador, explora seus semelhantes em nome do patrão, não importa se negro, loiro de olhos azuis ou oriental.

Pedro Augusto de Oliveira Santana, o homem que aliciou 200 pessoas de sua própria terra, Valente, na Bahia, para trabalhar nas vinícolas Aurora, Salton e Garibaldi, no Rio Grande do Sul, em condições análogas à escravidão, pode ser considerado no máximo pardo. Outro ser abjeto dessa história, o vereador de Caxias do Sul Sandro Fantinel, é branco de olhos claros. Como legítimos capitães-do-mato, ambos atuaram em defesa da escravidão de seres humanos, da exploração do próximo, como se fossem eles mesmos os senhores da Casa Grande.

O atravessador Pedro, tal e qual um feitor de fazenda colonial, mantinha os trabalhadores literalmente sob chicote, vigiados por seguranças armados na pousada/senzala e sujeitos a choques elétricos e spray de pimenta nos olhos se reclamassem das condições insalubres, presos ao cativeiro, sem poder escapar, em virtude das dívidas que eram obrigados a contrair. Em plena tribuna da Câmara, o vereador Fantinel, ardoroso bolsonarista, espumou de ódio contra os nordestinos em geral ao defender com fidelidade canina os donos das vinícolas.

“Não contratem mais aquela gente lá de cima. Conversem comigo e vamos contratar os argentino (sic). Todos os agricultores que têm argentinos trabalhando hoje só batem palma. São limpos, trabalhadores, corretos, cumprem o horário, mantêm a casa limpa e no dia de ir embora ainda agradecem o patrão”, disse. “Agora, com os baiano (sic) que a única cultura que eles têm é viver na praia tocando tambor era normal que se fosse ter este tipo de problema.”

A associação dos capitães-do-mato, perdão, o Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves, atribuiu, pasmem, ao Bolsa Família a importação de baianos para trabalhar em condições análogas à escravidão em terras gaúchas. “Há uma larga parcela da população com plenas condições produtivas e que, mesmo assim, encontra-se inativa, sobrevivendo através de um sistema assistencialista que nada tem de salutar para a sociedade”, disse a entidade, ecoando o discurso de Bolsonaro antes de chegar ao poder e tentar enganar os beneficiários do programa para se reeleger.

O que causa ainda mais indignação nessa história toda é constatar que, para parte dos sulistas identificados com o bolsonarismo (e não é pouca gente: quase 76% da população de Bento Gonçalves), os nordestinos são todos preguiçosos. Só servem se for para trabalhar como escravos

O que causa ainda mais indignação nessa história toda é constatar que, para parte dos sulistas identificados com o bolsonarismo (e não é pouca gente: quase 76% da população de Bento Gonçalves votou no ex-presidente derrotado), os nordestinos são todos preguiçosos, não gostam de trabalhar, como bem exemplificou o vereador de Caxias. Muitos deles até defendem a separação do Sul do restante do Brasil e não fazem questão alguma de esconder isso. O Sul “carrega o Brasil nas costas”, dizem, enquanto o Nordeste “só pula Carnaval”. Para essa gente, o nordestino só serve se for para trabalhar como escravo.

Mas sabem o que é engraçado? Os escravistas do vinho e seus capatazes se sentem superiores ao resto do país, e no entanto o produto deles é muito inferior ao argentino, ao chileno e ao uruguaio. Um espelho dessa gente tosca que se acha elite e nem é, que se enxerga branca sendo parda, que se enxerga europeia e estadunidense sendo latino-americana, que bebe Sangue de Boi e arrota Romanée-Conti.

 


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(6) comentários Escrever comentário

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ORLANDO GUSELA em 28/02/2023 - 22h24 comentou:

Um cara desse, falando um monte de abobrinha, do jeito mais asqueroso. Vou parar por aqui, me dá vontade de vomitar.

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Bernardo Melo em 01/03/2023 - 21h26 comentou:

De tanto pensar e não antever uma forma de me livrar dos Bozonazis , adotei o silêncio para tentar conviver com minha companheira Bozal . Afinal dez anos de relacionamento exige um certo respeito e muita prudência para não ocorrer baixarias nem arrependimentos .
Hoje a nazi resolveu saltar fora e foi quando me dei conta que a paz voltou , o ar ficou leve e principalmente meu humor voltou à serena condição de paz e percepção dos momentos simples da vida cotidiana sem stress .
Aos nordestinos humilhados por vinícolas Nazis , recomendo um solene adeus aos patrões / agentes .
Nunca mais voltar é fundamental , basta de aturar essa branquitude azeda .
Fiquem com seus vinhedos !
Voltem para o calor do amor baiano , gente escrota não merece nem bom dia .

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TWA em 03/03/2023 - 10h26 comentou:

Um professor de MBA em uma aula há alguns anos, nos disse que a Grendene (fabricante gaúcha de calçados) fechou as fábricas no RS e foi para o NE nos anos 90 em busca de benefícios fiscais e mão de obra mais barata. Ele havia conversado com a administração da Grendene, que lhe disse que se arrependeram, pois com o Bolsa Família, nos anos 2000, o pessoal caiu fora das fábricas.
Só meus dois centavos de contribuição.

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CLEMI MILANI em 08/03/2023 - 14h19 comentou:

Fico indignada quando leio esse tipo de artigo, de uma pessoa que se coloca na função de jornalista, e ofende um povo. Será que se considera melhor que todos. A função do jornalismo é relatar os fatos e não ficar dando pitaco maldoso. Esse é o verdadeiro gabinete do ódio, fazendo intriga e desprezando pessoas. DEIXO CLARO QUE TAMBÉM CONDENEI OS FATOS OCORRIDOS, MAS NÃO PRECISA OFENDER OS GAÚCHOS.

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    Cynara Menezes em 08/03/2023 - 16h16 comentou:

    Está escrito: “parte dos sulistas”. Cuidado para não vestir a carapuça, ou precisa ver por que vestiu

TJEZ em 11/03/2023 - 13h59 comentou:

É um crime de Baiano contra Baianos, aja visto que o aliciador ou “gato” (Pedro Santana) fazia isso com seus próprios conterrâneos, ele, e sua empresa são de fato os maiores criminosos nisso tudo. Vejam que não houve problemas com os trabalhadores que vieram de outros estados ou até mesmo os Argentinos para trabalhar.
De qualquer modo, as Vinícolas deveriam ter feito maior diligência nas empresas que contratam, isso já foi admitido por elas, além de já terem pago R$ 7 milhões em multas.

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