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Repulsivo e sedutor: Carlos Imperial, o mais vistoso símbolo da era dos cafajestes

Houve um tempo no Brasil em que não era considerado abominável a um homem ser cafajeste, pelo contrário. Ter várias mulheres ao mesmo tempo, chamá-las por codinomes depreciativos e tratá-las abertamente como um objeto descartável, facilmente substituível, era tido como algo normal e até invejável. Essa era dos cafajestes teve alguns representantes notáveis, entre eles […]

Cynara Menezes
06 de maio de 2016, 20h23

eusouimperial

Houve um tempo no Brasil em que não era considerado abominável a um homem ser cafajeste, pelo contrário. Ter várias mulheres ao mesmo tempo, chamá-las por codinomes depreciativos e tratá-las abertamente como um objeto descartável, facilmente substituível, era tido como algo normal e até invejável. Essa era dos cafajestes teve alguns representantes notáveis, entre eles o ator Jece Valadão (que estrelou o filme Os Cafajestes, de Ruy Guerra, em 1962), o compositor e jornalista Ronaldo Bôscoli, e principalmente o capixaba criado no Rio Carlos Imperial (1935-1992).

Misto de ator de pornochanchadas, diretor de cinema, produtor musical, apresentador de TV, cantor e compositor, Imperial era uma figuraça. Impossível não gargalhar com o sedutor que vem à tona em Eu Sou Carlos Imperial, documentário de Ricardo Calil e Renato Terra em cartaz nos cinemas brasileiros. Tampouco é possível deixar de sentir repulsa pelo extremo machismo do personagem, que costumava dividir a cama com várias mulheres ao mesmo tempo, sempre sob a regra de “não repetir nenhuma mais que três vezes”. Algumas das “lebres”, como Imperial se referia às mulheres, eram menores de idade –uma de suas últimas namoradas tinha 14 anos. Se os diretores cutucassem mais um pouco, era capaz de chegar na pedofilia.

Extremamente mitômano, Imperial incrementou sua própria biografia e essa é a parte hilária da coisa. Ele se dizia descobridor de nomes como Roberto Carlos, Elis Regina e Wilson Simonal, e de fato estava lá, nos primeiros anos das carreiras destes artistas, mas nem tanto, parece, quanto pretendia fazer crer. Especialista em se autopromover, chegou a acusar a si mesmo de plágio para alavancar uma canção que não estava fazendo tanto sucesso. Picareta profissional, registrou como se fossem suas pérolas do domínio público como Meu Limão, Meu Limoeiro, que estourou na voz de Simonal em 1966. Exagerava inclusive sobre a perseguição que sofreu na época da ditadura militar.

Com tal trajetória de mentiroso, não poderia resistir a entrar para a política e, em 1982, se elegeu vereador pelo PDT de Leonel Brizola no Rio. Três anos depois, lançaria o PTN (Partido Tancredista Nacional), em homenagem a Tancredo Neves, para se lançar a prefeito. No programa eleitoral gratuito, aparecia cercado de beldades com o slogan “Vai dar zebra”. Não deu.

O documentário traz entrevistas com Erasmo e Roberto Carlos, Paulo Silvino, Eduardo Araújo, Tony Tornado, Gerson King Combo… O depoimento de Erasmo é o mais divertido; o de King Combo, o mais constrangedor. É curioso como o lado “cafetão” de Imperial era unissex: explorava tanto belas mulheres quanto belos homens, como Pedrinho Aguinaga. Estes, profissionalmente, claro. Ou quem sabe na fantasia?

Toda essa exuberância, em consonância com o corpanzil de tenor que tinha e o apetite pantagruélico por comida e meninas, contrasta com a melancolia de seus últimos dias. O semblante do velho cafajeste mal disfarça o vazio da vida íntima, explicitada na relação com o filho, Marco Antonio, que traz os olhos marejados praticamente o filme inteiro, ao contar da relação tempestuosa com o pai. Imperial o obrigava a arremedar seu estilo de vida e queria transformá-lo num pop star. Freud explica.

De certa forma, o cafajestismo sofreu um duro revés em 1976, quando, em um crime célebre, o playboy Doca Street assassinou a namorada, a socialite Ângela Diniz, com três tiros no rosto e um na nuca. Até ali, o machismo do homem brasileiro era confundido com “masculinidade”. A partir do assassinato da “pantera de Minas”, como era conhecida, virou sinônimo de brutalidade, ignorância e truculência. E homens como Carlos Imperial viraram simplesmente espécimes em extinção: anacrônicos e francamente cafonas.

(Doca Street e Ângela Diniz)

(Doca Street e Ângela Diniz)

Pode-se dizer que o Brasil vive um último suspiro da era dos cafajestes na política. Há um machismo truculento e cafona em políticos como Jair Bolsonaro ou o Coronel Telhada. E também ingredientes de misoginia em fundamentalistas religiosos como Marco Feliciano, o exótico tipo “cafa crente”. A bufoneria continua a mesma, mas o charme… quanta diferença.

Vão ver o filme, é o retrato de uma época. Que felizmente já passou.

 


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