Se é a polarização que nos salva do Arena 1 X Arena 2 da ditadura, santa polarização
Eleição 2024 consolida a disputa entre bolsonarismo X progressismo; a esquerda tem que ir para o embate, não investir num "paz e amor" falso e vazio
O prefeito reeleito do Rio, Eduardo Paes, fez seu discurso de vitória clamando pelo fim da polarização política. “Chegou a hora de a gente parar com essa polarização, com essa dualidade, sempre uma briga de um contra o outro como se fossemos inimigos. Nos não somos”, disse. Isso é uma ilusão, papo furado. A eleição 2024 consolidou a polarização entre progressismo e bolsonarismo no país.
Interessa ao conservadorismo que o eleitor pense que “político é tudo igual” e que o que nos diferencia deles sejam somente questões morais. Não, nosso projeto é oposto, nossa ideia de país é oposta, a forma como vemos o mundo e a política é oposta. Não precisamos vencer a polarização; precisamos vencer o outro lado da polarização
O próprio Paes foi exemplo disso ao derrotar, com o apoio do PT, o candidato de Jair Bolsonaro na capital fluminense, Alexandre Ramagem, um desconhecido que alcançou 30,81% dos votos. O prefeito do Rio se considera de centro, mas sem o apoio da esquerda não teria sido reeleito. A polarização de que Paes se queixa ajudou a reelegê-lo: muitos eleitores esquerdistas fizeram voto útil nele no primeiro turno apenas para que o bolsonarismo não ganhasse.
No segundo turno, teremos a repetição literal do embate PT X Bozo em quatro capitais: Porto Alegre, com Maria do Rosário enfrentando o bolsonarista Sebastião Melo; Natal, com Natália Bonavides enfrentando o bolsonarista Paulinho Freire; Fortaleza, com Evandro Leitão enfrentando o bolsonarista André Fernandes; e Cuiabá, com Lúdio enfrentando o bolsonarista Abilio Brunini. Em São Paulo, aliado ao PT, o psolista Guilherme Boulos enfrentará o bolsonarista Ricardo Nunes.
Com o centro (PSDB) morto, a única opção à “polarização” que se desenha no horizonte, com a velha mídia e as redes sociais favorecendo francamente a extrema direita, seriam dois candidatos conservadores se enfrentando no segundo turno, uma repetição do “Arena 1 X Arena 2” que acontecia na época da ditadura militar em muitas cidades Brasil afora, quando nem sequer havia candidatos de oposição e dois apoiadores do regime se enfrentavam.
A repetição do “Arena 1 X Arena 2” vai ocorrer este ano em João Pessoa, na Paraíba, com dois bolsonaristas no segundo turno: Cícero Lucena, do PP, e Marcelo Queiroga, do PL, o desastroso ex-ministro da Saúde dos tempos da pandemia; em Goiânia, idem (Fred Rodrigues, do PL, enfrentará Sandro Mabel, do União); e em Curitiba também (Eduardo Pimentel, do PSD, e Cristina Graeml, do PMB). É esse o “fim da polarização” que queremos? Prefiro a polarização.
Ao contrário do que dizem a mídia comercial e os derrotistas, a esquerda tem o que comemorar nessa eleição. A despeito de uma “imprensa profissional” hostil ao PT, a despeito de algoritmos que promovem a extrema direita, conseguimos ganhar de lavada no Rio e em Recife no primeiro turno. Elegemos jovens vereadores e vereadoras campeões de votos, como Luna Zarattini em São Paulo, Pedro Rousseff em Belo Horizonte e Tainá de Paula no Rio, os três do PT. O MST elegeu 39 vereadores no país. E conseguimos colocar Boulos no segundo turno, o que é um verdadeiro milagre, já que em São Paulo, com a cumplicidade da mídia comercial, quase tivemos outro Arena 1 X Arena 2.
Com o centro morto, a única opção à “polarização”, com as redes sociais favorecendo francamente a extrema direita, seriam dois candidatos conservadores se enfrentando no segundo turno, uma repetição do “Arena 1 X Arena 2” que acontecia na época da ditadura militar. É esse o “fim da polarização” que queremos? Prefiro a polarização
Quem errou na análise foi quem disse que o bolsonarismo estava morto. Aliás, essas apostas de que “fulano morreu” nós já conhecemos. Quantas vezes disseram que o PT estava morto? Quantas vezes disseram que Lula acabou? Que não era “player”? E aí está o PT voltando a crescer em número de prefeituras: em 2020, foram 179; em 2024, são 251 até agora. Mas Bolsonaro não está morto e 2024 confirma que o grande embate hoje no país (e de certa forma no mundo) é entre extrema direita e progressismo.
Se há uma crítica ao PT neste sentido é a falta de ousadia em algumas capitais. Nada justifica que em Salvador, num Estado onde o PT é maioria, o partido tenha optado por não lançar candidatura própria e apoiado o vice de Jerônimo, Geraldinho, do MDB, que terminou em terceiro, atrás do candidato do PSOL, Kleber Rosa. Outro exemplo é Curitiba, onde em vez de inovar com Carol Dartora, mulher negra, deputada federal da nova geração petista, apostou em uma aliança com Luciano Ducci, do PSB, e também terminou em terceiro. Onde ousou mais e renovou, o PT foi para o segundo turno.
A estratégia mais acertada para a esquerda neste momento não é ficar choramingando ou prometendo o “fim da polarização”, entrando numas do discurso “paz e amor” falso, vazio, e sim investir com tudo nas diferenças, não temer o embate. Interessa ao conservadorismo que o eleitor pense que “político é tudo igual” e que o que nos diferencia deles sejam somente questões morais. Não, nosso projeto é oposto, nossa ideia de país é oposta, a forma como vemos o mundo e a política é oposta à extrema direita. É isso que temos que mostrar.
Não precisamos vencer a polarização; precisamos vencer o outro lado da polarização. Se é a polarização que nos salva do Arena 1 X Arena 2, santa polarização.
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Daniel Paula em 03/11/2024 - 10h41 comentou:
As eleições de 2024 no Brasil reforçaram os dois lados da polarização política.
Explico:
Em São Paulo, Ricardo Nunes (MDB) venceu Guilherme Boulos (PSOL/PT) no segundo turno, simbolizando a clara disputa entre direita e esquerda. Em outras capitais, como Fortaleza e Porto Alegre, o embate progressista e conservador seguiu acirrado. Mas em cidades como João Pessoa e Curitiba, a falta de uma alternativa centrista levou a disputas exclusivamente entre candidatos conservadores, limitando a representatividade de eleitores de outras ideologias.
Por um lado, essa polarização dá ao eleitor a chance de escolher entre projetos de país opostos, o que fortalece o debate democrático e revela diferenças ideológicas fundamentais. A divisão permite a clareza nos projetos e nos valores que cada candidato representa, dando ao eleitor poder de decisão mais informado.
No entanto, por outro lado, a polarização excessiva traz riscos claros. Em lugares onde ela se transforma em um “Arena 1 x Arena 2,” como visto em João Pessoa e Curitiba, eleitores progressistas ou de centro perdem opções viáveis. Esse cenário pode levar a um empobrecimento do debate e à falta de soluções práticas para problemas urgentes, pois o foco se volta para a disputa de poder em vez da construção de consensos.
A polarização também torna a governabilidade mais difícil. Com forças opostas ocupando governos e legislaturas, cada avanço político se torna uma batalha, o que dificulta a colaboração em áreas críticas como saúde, educação e segurança.
Enfim, apesar da polarização fortalecer o debate democrático, pode também impedir uma gestão pública coesa e eficaz, essencial para responder às demandas complexas da população.
Os números mostram que o resultado das eleições de 2024 no Brasil consolidou o avanço da direita e centro-direita, com partidos como PL e PSD ganhando a maioria das prefeituras, enquanto a esquerda se manteve forte apenas em alguns redutos no Nordeste.
Esse cenário reflete um eleitorado inclinado a políticas mais conservadoras na educação, segurança e economia, fortalecendo a oposição conservadora e impactando o cenário para 2026.
Talvez seja hora de a esquerda rever suas estratégias. Afinal, parece que “dialogar com todos” soa bem, mas ainda ganha menos votos do que o necessário para vencer.