Sempre Estaremos Aqui
Processo histórico, Oscar inédito e o gibi Chumbo, com pesquisa irretocável, alertam os golpistas de plantão: a História nunca será apagada
Nunca antes na história desse País se viu o STF tornar réus um ex-presidente e seus aliados numa tentativa de golpe, incluindo militares. Aqueles que atentaram contra a democracia acharam que nossas instituições não se manteriam de pé, mas foram eles que tombaram. Suas tentativas de escapar consistem em reais escapadas, como a do Bananinha, correndo atrás do apoio fascista dos EUA, repetindo movimentos da ditadura militar, ou numa falaciosa anistia para os condenados pelo 08/01. Mas não foi só na Justiça que o recado foi dado: perseguida duramente no ostracismo dos desgovernos Temer e Bolsonaro, a cultura nacional também lavou nossa alma.
Talvez nem o mais ousado vidente cravasse essa: foi em clima de Copa do Mundo, no segundo dia de Carnaval. Não deixa de ser ironia que logo na profana temporada onde reina a fantasia, a mentira fantasiosa tenha tomado mais um tombo na avenida. Atravessando o golfo –sempre do México, apesar do absurdo imperialista, vem a imagem da estatueta nunca conquistada antes na história desse País. E logo na premiação cinematográfica mais representativa do modelo que atropela soberania, meio-ambiente, diversidade e democracia.
A folia, cumprindo seu papel subversivo, nos embriagou de poesia histórica. Sim, é poético um filme chamado Ainda Estou Aqui ganhar o primeiro Oscar do Brasil, nação que depois de anos resistindo a perseguições que “desapareciam” com vários fotogramas da sociedade, viu a ideologia conservadora incentivar políticas que defendiam uma cartilha opressora contra a cultura e a verdadeira liberdade de expressão. Por isso, ainda estar aqui já é uma vitória. Ainda estar aqui fazendo História, então, é uma vitória muito maior.

General Olímpio Mourão, golpista. Ilustração de Chumbo
É preciosa essa negação tão poderosa às narrativas que buscam interpretar a memória de um povo sem respeitá-la. A denúncia do crime cometido pela ditadura contra Rubens Paiva foi vista, entendida e reconhecida mundo afora. A trajetória de Eunice e seus filhos emocionou o planeta ao mostrar o quanto uma família pode ser destroçada por perseguições, por torturas e assassinatos, por sabe-se lá o que mais: só quem viveu sabe.
Matthias Lehmann viveu isso de alguma forma: sobrinho do escritor Roberto Drummond, o francês vinha passar férias em Minas. Fez uma HQ adaptando aspectos da sua tradicional família mineira: as conquistas e perdas, as permanências e contradições, num painel iniciado em 1937 e que chega até 2003.
Chumbo é um mergulho de fôlego num oceano de pesquisa histórica, arquitetônica, mobiliária, trazendo design e publicidade, jornalismo, caricatura, rádio e televisão, para uma narrativa política e pessoal ao mesmo tempo. As lembranças do autor são atravessadas por gente que ainda pode estar por aí. Eles conviveram, no período abordado pelo gibi, com personagens históricos em situações ora cruéis, ora surreais, ou por vezes apenas polaróides singulares da nossa existência.

Flerte com fascistas na década de 30. Ilustração de Chumbo
Severino e Ramires, primogênitos da família Wallace, pintam um retrato do Brasil desde a ascenção do pai, um minerador ganancioso que se envolveu com fascistas e reprimiu violentamente movimentos trabalhistas. Seguimos embarcados numa trajetória plural que desemboca em melancolia acre-doce, a nos lembrar que ainda estamos aqui e temos de conviver com nossas cicatrizes, sempre. E a trajetória de personagens tão “familiares” nos remete a um gerúndio próximo: estamos com o tio do golpe (ou do zap), com a tia conservadora e católica (ou evangélica), com o tio escritor e militante que sem querer vai parar na guerrilha (ou trabalha no Midia Ninja). Nossa história e nosso presente não são distantes.
Mas de leveza nenhum Chumbo é composto. Pessoas são feridas e morrem em esquinas e porões, na química onde metal pesado se mistura com sangue. A fala do general na ilustração no alto da página poderia ser de Braga Netto. O golpe de Jair começou na inacreditável homenagem a um notório torturador em pleno Congresso Nacional. A repressão matou à beça, com tortura e crueldade, só que todos eles ainda estão aqui, na memória que teima em permanecer: Rubens Paiva, Vladimir Herzog e tantos outros. Lehmann também ilustra a reação e seus atos extremos, fugindo do maniqueísmo simplista: numa ditadura, é impossível para alguns se curvar. Cria páginas fascinantes para nos envolver em toda essa atmosfera.

Pesquisa iconográfica detalhada. Ilustração de Chumbo
O rigor da pesquisa se traduz na arte de Matthias desde a primeira página, onde encontramos uma embalagem de charutos e seu cortador, graficamente reproduzidos com detalhes hipnotizantes. Sem parar, ela nos leva numa espiral onde aparecem bondes de brinquedo e de verdade, passeando pela arquitetura, pela moda, por garrafas térmicas e cordéis inventados mas reproduzidos fielmente. E também por aulas de tortura na sede do DOPS em BH: lá se reúnem recrutas da ditadura e financiadores do golpe. Porfírio, antigo capanga do patriarca Wallace, é o anfitrião desse encontro macabro. Mas adivinhe quem é o chefão do jogo do bicho em BH no pós-golpe? Quebra a banca quem acertar o milhar.
O traço de Matthias é vigoroso, mesmo quando incorpora graça a seus personagens: a proposta é não cair em estereótipos, e olhar para cada um deles sem julgamentos. A composição da página é cativante, trazendo quadros horizontais que carregam passagens de tempo e várias pranchas duplas quebrando o ritmo sem perdê-lo. Ele subverte até o requadro, usado em molduras de impacto e em composições de ângulos inusitados. Lehmann lembra Bernie Krigstein, pela ousadia na composição e grafismos hachurados na tela, e remete a Jason Lutes, pelo compromisso com a pesquisa e a reconstituição da época.

Aula de tortura no DOPS. Ilustração de Chumbo
Aliás, como reconstituir nosso presente em algum futuro? Caso as piores hipóteses se confirmem, provavelmente qualquer lembrança estará apagada no cataclisma climático que se abate sobre a Terra, e os neo-fascistas e seus amigos bilionários, refestelados nas novas colônias interplanetárias, simplesmente se esquereçam de nós. Ou não, como sugere Rogério de Campos em Um Santo em Marte, misto de ironia e vidência que deveria ser enviado a Elon Musk.
Talvez seja como nos diz Chumbo, com suas diversas citações, de torturadores “gorilas” a Frei Tito e Nara Leão. Talvez um samba de Clara Nunes exista em algum lugar. Quem sabe, um dróide desenterra o primeiro Oscar do Brasil. Ou alguém consiga comprar um livro numa banca, como desejou o tio escritor Roberto Drummond, e o sobrinho Mathias Lehmann ainda deseja para seu gibi. Afinal, não custa lembrar: a História nunca será apagada, e sempre estaremos aqui. E sim, vamos sorrir. Sorriam.

Chumbo
AUTOR: Mathias Lehmann
EDITORA NEMO, 368 págs.
Livro físico: R$ 132,90.
E-book: R$ 93,90.
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felipe puxirum em 04/04/2025 - 10h44 comentou:
polícia para traidores
polícia para a própria
polícia e outorgadores
de tão colonizada obra
lula é um dos traidores
e bolsonaro é um bosta
Daniel Paula em 05/04/2025 - 00h03 comentou:
Sim, claro, a História nunca será apagada — especialmente quando se reescreve com tinta ideológica e lápis de cor emocional.
Narrativas ideológicas não substituem fatos: não houve golpe em 8/1, pois não houve ruptura institucional nem tomada do poder.
Vamos então folhear esse gibi com lupa crítica:
1. Apelo à emoção:
“Metal pesado se mistura com sangue”. A frase é ótima pra letra de heavy metal, mas péssima pra análise política. Tenta manipular sentimento em vez de provar algo.
Exemplo esdrúxulo: Seria como dizer que o aumento da gasolina “sangra os pulmões da democracia no asfalto da desigualdade”. Bonito, mas cadê a lógica?
2. Falsa analogia:
Comparar o 8/1 à ditadura é como comparar um protesto na arquibancada com um golpe militar armado. Nenhuma instituição caiu, não houve AI-5, nem censura oficial. É como dizer que o cara que xinga o juiz no jogo tá “golpeando” a FIFA.
3. Generalização apressada:
Colocar conservadores, militares e até o “tio do zap” no mesmo balaio de golpistas ignora o art. 5º, XLV da Constituição: “nenhuma pena passará da pessoa do condenado”. Se um flamenguista comete um crime, então todos os flamenguistas são criminosos?
4. Ad hominem:
Chamar um deputado eleito de “Bananinha” não é argumento, é playground. Isso não rebate ideias, só infantiliza o debate. Tipo: “Einstein era feio e descabelado, logo sua teoria da relatividade não vale nada”.
5. Falso dilema:
Ou você aplaude a narrativa ou é “neofascista”. Esquece-se do art. 1º, V da CF: o pluralismo político é fundamento da República.
6. Petição de princípio:
A narrativa já parte da “tentativa de golpe” como verdade absoluta, sem julgamento transitado em julgado (art. 5º, LVII da CF): “Ele é culpado porque é culpado”. Redação de criança de quinta série.
No fim das contas, o gibi “Chumbo” talvez tenha mais sucesso de vendas com na categoria de ficção histórica.
Porque, de fato, ainda estamos aqui — e seguimos precisando de argumentos, não de roteiros com narração dramática.
Agora pode sorrir.
Sorriam.