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Alguém na Casa Branca gosta do Lula (e da Janja também)

Nunca antes na história desse país tivemos um presidente dos EUA que não só não apoia um golpe no Brasil como garante que não vai haver um

Lula e Janja sendo recebidos por Joe Biden. Foto: Ricardo Stuckert/PR
Cynara Menezes
13 de fevereiro de 2023, 17h39

A viagem de Lula aos Estados Unidos não foi para fechar acordos, mas para selar um acordo: o presidente Joe Biden quis mostrar com toda clareza ao mundo que não apoiará movimentos extremistas no Brasil. Trata-se de algo inédito. Nunca antes na História desse país um presidente norte-americano não só não apoia um golpe aqui como garante que não vai haver um. O presidente é Lula e acabou, as viúvas da ditadura que sosseguem o facho –essa foi a mensagem de Biden.

A palavra “democracia” está presente em quatro dos cinco tweets publicados pelo perfil oficial do presidente dos EUA antes, durante e depois da visita de Lula. No primeiro deles, prévio ao encontro, na tarde do dia 10 de fevereiro, pouco antes de receber o brasileiro, ele diz: “A democracia não pode ser uma questão partidária. Tem que ser uma questão americana. Todas as gerações de norte-americanos tiveram um momento em que foram chamados para proteger nossa democracia. Para defendê-la. Para se levantar por ela. Este é o nosso momento”.

Ao recepcionar Lula e Janja na porta da Casa Branca, tuitou: “Bem-vindo aos Estados Unidos da América, Sr. Presidente. Esperamos fortalecer nosso esforço conjunto para combater a mudança climática, promover os direitos humanos e o desenvolvimento econômico e fortalecer a democracia em nossa região e em todo o mundo”.

“Foi muito bom sentar com meu amigo e parceiro em democracia, presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, postou Biden mais uma vez após conversar com o homólogo brasileiro no Salão Oval.

Na quarta vez, o presidente norte-americano escreveu, ilustrando uma foto em que caminhava lado a lado com Lula pelos corredores da Casa Branca: “Construindo uma parceria Estados Unidos-Brasil mais forte para as próximas gerações”.

No dia seguinte, sábado, Biden voltou à carga pela quinta vez, postou um vídeo com um resumo do encontro e tuitou: “O presidente Lula da Silva e eu somos devotos de uma ideia fundamental: com democracia, tudo é possível. Sem ela, nada é”.

Lula conseguiu o milagre de, pela primeira vez, fazer os EUA defenderem a democracia no país dos outros, e não apenas no seu. Não houve uma única oportunidade em que um presidente brasileiro foi deposto sem o apoio do governo norte-americano. Nos últimos 100 anos, o mais próximo que um presidente dos EUA chegou de respeitar a esquerda foi com Franklin Delano Roosevelt, que chegou a contratar Herbert Marcuse para trabalhar no governo. Alguém pode imaginar uma cena dessas, um filósofo pós-marxista alemão como funcionário da agência que antecedeu a CIA?

Pois isto aconteceu: Marcuse havia migrado para os EUA em 1934, vindo da Suíça, onde já se encontrava exilado. Foi um período brilhante e talvez o único ideologicamente livre da História norte-americana, similar ao que ocorreu durante o governo de Lázaro Cárdenas no vizinho México, com o país recebendo as melhores cabeças do mundo artístico e científico europeu, todos fugindo do nazismo. Além do filósofo, se refugiram lá outros conterrâneos ilustres, como o cineasta Fritz Lang, o dramaturgo Bertolt Brecht, o compositor Kurt Weil e sua mulher Lotte Lenya, o escritor Thomas Mann, a atriz Marlene Dietrich…

A palavra “democracia” está presente em quatro dos cinco tweets publicados pelo perfil oficial do presidente dos EUA antes, durante e depois da visita. O presidente é Lula e acabou, as viúvas da ditadura que sosseguem o facho –essa foi a mensagem de Biden

Em 1943, durante a Segunda Guerra, Marcuse foi contratado pelo Departamento de Estado para trabalhar no OWI (Escritório de Informação de Guerra, em tradução livre) e em seguida transferido para o setor de Pesquisas e Análises do OSS (Escritório de Serviços Estratégicos), a agência de inteligência norte-americana durante a guerra, que em 1947 se transformaria na independente CIA.

Quando o OSS foi desmontado, o filósofo alemão permaneceu como funcionário do Departamento, de onde saiu apenas em 1951, já sob o Macarthismo. Os relatórios de inteligência sobre o nazismo assinados por Marcuse, Franz L. Neumann e Otto Kirchheimer foram reunidos em 2013 no livro Relatório Secreto Sobre a Alemanha Nazista: a Contribuição da Escola de Frankfurt no Esforço de Guerra.

Se trabalhar para o governo dos EUA renderia ao filósofo alemão o epíteto de “traidor” e “agente pago do imperialismo” entre seus detratores, por outro lado possibilitou a Marcuse formar toda uma geração de intelectuais norte-americanos “radicais”, a exemplo da pantera negra Angela Davis –e ser influente dentro das universidades até hoje, a ponto de a revista The Economist tê-lo apontado, em setembro de 2021, como inspiração para a “esquerda iliberal” no mundo, ao lado do brasileiro Paulo Freire.

Só que depois de Roosevelt vieram Harry S. Truman, o anticomunismo feroz do pós-guerra nos EUA e a caça às bruxas liderada pelo senador Joseph McCarthy. Truman apoiaria a deposição de Getúlio Vargas em 1945 e sua substituição pelo marechal Eurico Gaspar Dutra. A mando de Getúlio, Dutra havia liderado a repressão à Intentona Comunista de 1936, como comandante da 1ª Região Militar, no Rio de Janeiro, e seria mais tarde nomeado por ele ministro da Guerra, cargo que ocupou até ser expulso do governo por se aliar aos defensores não-comunistas do fim da ditadura Vargas…

Em 1947, a visita oficial de Truman ao Brasil para demonstrar apoio a Dutra resultou na famosa história, que até hoje não se sabe se aconteceu ou é piada. “How do you do, Dutra?”, perguntou o norte-americano ao brasileiro, que teria respondido: “How tru you tru, Truman?”

Truman (centro) e Dutra (à direita) em 1947. Foto: Arquivo Nacional

Quando o golpista Carlos Lacerda (o mesmo que anos mais tarde capitanearia a deposição de Jango) defendeu que Juscelino Kubitschek não poderia assumir a presidência após ser eleito, em 1955, o governo de Dwight (Ike) D. Eisenhower simplesmente deixou rolar. “Intervenção militar!”, bradava Lacerda, tal qual um bolsominion de hoje na frente do quartel. A justificativa era inclusive a mesma, de que JK era “comunista”. E a intervenção veio, mas bem ao contrário do que o “Corvo” esperava.

Um militar legalista, o general Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra de Café Filho e depois de seu substituto Carlos Luz, mobilizou as tropas no Rio para um contragolpe. Carlos Luz acabou deposto, a presidência foi assumida interinamente por Nereu Ramos, e, em 31 de janeiro de 1956, Juscelino tomou posse. Os problemas de JK com Eisenhower começaram de fato quando o país decidiu romper com o FMI (Fundo Monetário Internacional), em 1959. O gelo entre os dois só foi quebrado com a visita do norte-americano a Brasília, no ano seguinte. Ike inaugurou a embaixada dos EUA na nova capital.

Eisenhower e JK na visita do norte-americano ao Brasil em 1960. Foto: Arquivo Nacional

O golpe de 1964, que levou os ídolos de Jair Bolsonaro ao poder, não teria acontecido sem a participação direta dos Estados Unidos e do embaixador Lincoln Gordon. O governo norte-americano financiou movimentos internos pró-deposição de João Goulart e chegou a montar a “operação Brother Sam” para, de forma hostil, demonstrar apoio militar com embarcações na costa brasileira. O presidente já era Lyndon Johnson, que sucedeu John Kennedy após seu assassinato. Mas as movimentações do golpe começaram bem antes, com o democrata Kennedy no poder –o embaixador Gordon foi indicado por ele.

Em seus primeiros governos, Lula se deu muito bem com os presidentes norte-americanos, inclusive com George W.Bush. Mas o mesmo Barack Obama que visitou Cuba e o chamou de “o cara” daria o suporte para o golpe contra Dilma Rousseff em 2016, por ação ou omissão

Habilidoso, em seus primeiros governos Lula se deu muito bem com os presidentes norte-americanos, inclusive com George W.Bush. Mas o mesmo Barack Obama que visitou Cuba e o chamou de “o cara” daria o suporte para o golpe contra Dilma Rousseff em 2016, por ação ou omissão. Não podemos esquecer que foi durante o governo Obama, de quem Joe Biden foi vice, que foi revelado pelo Wikileaks o escândalo da espionagem sobre a chefe de Estado brasileira, em 2013.

A presidenta do país e 29 auxiliares de seu governo, entre ministros, diplomatas, assessores e militares, tiveram seus telefones grampeados pela NSA (Agência Nacional de Segurança). Obama reconheceu a responsabilidade, mas não se desculpou. Em 2016, após o golpe, o presidente norte-americano, se não deu apoio explícito a Michel Temer, tampouco o condenou. O porta-voz, Josh Earnest, se limitou a dizer que o governo dos EUA  “reiterava sua confiança na capacidade da democracia brasileira de superar momentos de crise”.

Joe Biden, é, portanto, o primeiro presidente dos EUA a não só se colocar contra a possibilidade um golpe como de afiançar que o presidente eleito pela maioria dos brasileiros permanece no cargo. Lula sabe disso, e fez questão de adoçar o colega gringo com palavras que também não são comuns nas relações entre os dois países. “O Biden é o presidente dos EUA que mais tem ligação com os trabalhadores. Eu venho do movimento sindical. E isso deu uma liga”, disse o presidente no twitter.

Lula certamente se referia ao empenho do atual presidente norte-americano em desfazer medidas antilaborais da era Donald Trump, quando as principais entidades de defesa do trabalhador e dos sindicatos no governo norte-americano adquiriram um forte perfil pró-patronato. Quando tomou posse, Biden apresentou seu novo gabinete, onde reluziam um busto do líder camponês de origem mexicana César Estrada Chávez, fundador do maior sindicato de trabalhadores rurais dos EUA, o NFWA, e, não por coincidência, um retrato de Franklin D. Roosevelt. Ele proclamou o 31 de março como “César Chávez Day”.

Os Estados Unidos vivem um renascimento dos sindicatos, com representações de trabalhadores surgindo em grandes corporações como McDonald’s, Starbucks e Amazon, e Biden dá suporte a este movimento. Fortalecer os sindicatos foi promessa de campanha dele à presidência, e, em junho do ano passado, apoiou publicamente a criação de um sindicato pelos trabalhadores da Apple em Maryland. “Estou orgulhoso deles. Trabalhadores têm o direito de determinar sob que condições eles irão trabalhar ou não trabalhar”, disse.

Ou seja, Lula não exagera ao dizer que o fato de ter começado na vida pública como sindicalista deu “uma liga” entre os dois. Mas, a julgar pelas imagens, não foi só com o presidente do Brasil que Biden sentiu essa conexão. A mulher de Lula, Janja, cumprimentou-o em inglês na chegada e conquistou a imediata simpatia do norte-americano, que entrou na Casa Branca de mãos dadas com ela e deu todas as mostras de ter ficado encantado com a primeira-dama brasileira.

É claro que todo este calor humano não significa que os EUA subitamente viraram a nação mais democrática do planeta e que deixarão de apoiar golpes na América Latina como sempre fizeram. Há fortes interesses internos envolvidos para que Joe Biden não queira agitação militar no Brasil ou a volta de Jair Bolsonaro ao poder. Em 2024, haverá eleição, e não interessa ao presidente dos EUA ter no vizinho mais ao Sul um aliado de seu principal rival na corrida à Casa Branca, Donald Trump, o “Bolsonaro norte-americano”.

Interesses à parte, trata-se de um momento ímpar e de uma conjuntura extremamente favorável: alguém na Casa Branca gosta muito do Lula (e da Janja). Na nota conjunta sobre o encontro bilateral, consta que o brasileiro convidou e o norte-americano aceitou retribuir a visita ao Brasil, em data ainda não definida. Será de fato o começo de uma nova na relação entre os dois países? Antes de tudo, é preciso que a História não se repita. Truman sucedeu Roosevelt; Trump não pode suceder Biden.

 

 


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