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Zema quer ressuscitar a política do café com (Eduardo) leite

Falas xenófobas do governador mineiro remetem ao período da República Velha, quando as oligarquias do Sudeste se alternavam na presidência do país

Leite e café, ops, Zema. Foto: Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Cynara Menezes
08 de agosto de 2023, 17h52

“Novo” no partido e antiquado nas ideias, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, ao que tudo indica pretende ressuscitar a “política do café com leite”, que marcou a República Velha, entre os anos de 1898 e 1930. Naquela época, como agora, se tratou de uma união de oligarquias: a cafeeira, que reunia políticos de São Paulo, com a leiteira, de Minas. O resultado da aliança seria que os dois Estados se alternassem no poder federal, como de fato ocorreu.

Ansioso para se cacifar a novo Bolsonaro, Zema mentiu algumas vezes ao Estadão. A maior mentira foi dizer que Sul e Sudeste “nunca tiveram protagonismo político”, dando mostras que, além das aulas de Matemática e Literatura, também faltou às de História

Desta vez, porém, o café vem de Minas, já que o Estado se tornou o maior produtor do país, enquanto o “leite” terá que vir do Rio Grande do Sul –o governador de SP, Tarcísio de Freitas, é rival das pretensões de Zema de se tornar o novo Bolsonaro e assim chegar à presidência da República. O governador gaúcho, Eduardo Leite, pelo contrário, apressou-se em defender a proposta do colega mineiro de criar “uma frente” em defesa dos interesses do Sul e do Sudeste.

“A gente nunca achou até hoje que os Estados do Norte e do Nordeste haviam se unido contra os demais Estados do país”, disse Leite em referência ao Consórcio Nordeste, criado em 2019 justamente como contraposição às políticas discriminatórias de Jair Bolsonaro em relação aos nordestinos. “Pelo contrário, a união desses Estados em torno da pauta que é de interesse comum deles serviu de inspiração para que a gente possa, finalmente, fazer o mesmo. Não tem nada a ver com frente de Estados contra Estados ou região contra região. Trata-se de nós nos unirmos em torno do que é pauta comum e importante para os estados do Sul e do Sudeste.”

Criticado por xenofobia contra os nordestinos (chegou a chamar os Estados da região de “vaquinhas improdutivas”), Zema, como bom bolsonarista, logo arregou, dizendo que suas falas foram distorcidas e que foi ela, a suposta distorção, quem causou divisão no país. “A distorção dos fatos provoca divisão, mas a força do Brasil tá no trabalho em união”, disse. Ah, bom.

Ansioso para se cacifar a novo Bolsonaro e herdar o espólio de extrema direita do ex-presidente inelegível a quem deu “nota 8” como governante, Zema seguiu o “mito” e mentiu algumas vezes na entrevista ao Estadão. Disse, por exemplo, que o governo federal não promove ações sociais nos Estados do Sul e do Sudeste, sendo que, há apenas um mês, o presidente Lula esteve em Viamão, no Rio Grande do Sul, para entregar chaves do programa Minha Casa, Minha Vida –ao lado de ninguém menos que Eduardo Leite.

“O Sul e o Sudeste não têm pobreza? Aqui todo mundo vive bem, ninguém tem desemprego, não tem comunidade… Tem, sim. Nós também precisamos de ações sociais”, disse o governador mineiro, como se o Sul e o Sudeste estivessem abandonados, o que é uma mentira deslavada. São Paulo é o Estado com mais famílias contempladas pelo Bolsa Família, principal programa social do governo Lula. Rio de Janeiro é o terceiro, e Minas, o Estado que Zema governa, é o quinto. Todos eles no Sudeste.

Além do preconceito explícito, o governador de Minas também faltou com a verdade ao chamar os Estados nordestinos de “vaquinhas improdutivas”: é o Nordeste que vai puxar o crescimento do país em 2023, segundo estudo da Tendências Consultoria divulgado na semana passada. A economia nordestina terá um crescimento de 2,4%, o Centro-Oeste de 2,3%, o Sul, de 2,2%, e o Norte, de 2,1%. Já o Sudeste, onde se localiza Minas Gerais, é a única região que terá crescimento abaixo da média nacional, com previsão de 1,7%. Quem é a “vaquinha improdutiva” mesmo?

Além do preconceito explícito, Zema também mentiu ao chamar os Estados nordestinos de “vaquinhas improdutivas”: é o Nordeste que vai puxar o crescimento do país em 2023, com 2,4%. Já o Sudeste será a única região com crescimento abaixo da média. Quem é a “vaquinha improdutiva” mesmo?

Mas a maior mentira de Zema na entrevista foi dizer que o Sul e o Sudeste nunca foram protagonistas políticos. “Já decidimos que, além do protagonismo econômico que temos, nós queremos –que é o que nunca tivemos– protagonismo político”, disse, dando mostras que, além das aulas de Matemática e de Literatura, também faltou às aulas de História. Logo ele, o recriador da política do café com (Eduardo) leite.

O Estado de Zema, Minas Gerais, é campeão em número de presidentes da República: o país teve 10 governantes mineiros, 7 de São Paulo, 6 do Rio Grande do Sul e 5 do Rio de Janeiro. Quer protagonismo maior para o Sudeste do que ter tido a maioria absoluta dos presidentes? Se formos computar apenas os presidentes desde a redemocratização, foram 2 mineiros (Dilma e Itamar), um carioca radicado em SP (FHC), um carioca radicado em Alagoas (Collor, que não terminou o mandato) e um único nordestino, Lula. Do que o Sul e o Sudeste podem reclamar?

Ao tentar fazer o Sul e o Sudeste de coitadinhos, o governador de Minas parece até branco reclamando de “racismo reverso”, rico afirmando ser “alvo de preconceito” e homem que se diz “vítima do feminismo”. Aí, quando chega a eleição, coloca chapéu de cangaceiro para puxar o saco de nordestino, né, Zema? Se oriente, rapaz.

 


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(2) comentários Escrever comentário

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Loira Capitalista em 11/08/2023 - 16h50 comentou:

Devemos ter um novo pacto federativo imediatamente !
Maranhão x Santa Catarina que possuem tamanho populacional semelhante

Maranhão:
Tributos Pagos 6,6 Bilhões
Transferências Recebidas 21,4 Bilhões …………. + 14,8 Bilhões

Santa Catarina:
Tributos Pagos 71,6 Bilhões
Transferências Recebidas 11,6 Bilhões ………. – 60 Bilhões

Dados de 2021, fonte Receita Federal e CGU (Controladoria Geral da União)

Nos EUA, há uma pequena ajudazinha dos ricos estados para os pobres estados, mas muito limitada… Cada um se vira.

Se os estados “Ricos” brasileiros forem continuarem com este gigantesco nível de transferencia aos pobres, devem estes então controlar o que está sendo feito com o seu recurso e cobrar metas de evolução. Do jeito que está, quanto mais dinheiro se ponha, mais pobreza (corrupção) se gera.

Responder

Andréa Glória em 22/08/2023 - 14h58 comentou:

Cycy, o nosso orgulho é o único Presidente do Brasil eleito por 03 vezes, ser um nordestino. Os do café com leite podem tentar o que quiserem, que nunca conseguirão o protagonismo do nosso Lulinha, do arroz com feijão, e não só do pingadão. Beijos, amore!

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