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“A culpa é do PT” até na hora de levar tiro

Está na hora de a direita verdadeiramente democrática erguer a voz contra os fascistas e não de incitar mais violência culpabilizando a vítima

Lula em ato pela reforma agrária em Quedas do Iguaçu, no Paraná. Foto: Ricardo Stuckert
Cynara Menezes
28 de março de 2018, 12h49

Se alguém é assassinado neste país hoje ela será uma vítima ou a culpada de sua própria morte, a depender da raça, gênero, classe social, origem, orientação sexual e posição ideológica. Se for branco ou homem ou rico ou heterossexual ou de direita ou tudo isso junto será vítima. Se for negra ou pobre ou LGBT ou de esquerda ou tudo isso junto, “está colhendo o que plantou”.

Foi assim com Marielle e é assim com os ataques a bala contra a caravana do ex-presidente Lula. Felizmente, ninguém se feriu. Mas é preocupante que um governador de Estado do PSDB, adversário do petista, culpe a vítima pela violência sofrida, incitando a que haja mais violência ideológica. “Eles estão colhendo o que plantaram”, disse Geraldo Alckmin, ecoado pelo aliado João Doria. “O PT sempre utilizou da violência, agora sofreu da própria violência.”

Nesta quarta-feira, Alckmin voltou atrás e foi ao twitter condenar a ação, mas sem deixar de dar sua estocada em Lula, a vítima, por “provocar”, “convocando ao conflito”.

Lula tem o direito de viajar pelo país? Claro. Como todo cidadão, petistas têm o direito de ir e vir assegurado pela Constituição. Além disso, partir em caravana foi a maneira que o ex-presidente encontrou para se defender de uma condenação que ele e milhões de brasileiros consideram injusta, resultado da perseguição político-jurídico-midiática que Lula vem sofrendo. Se ele está fazendo campanha eleitoral antecipada? Ora, e quem não está?

Doria passou mais tempo viajando pelo país do que sentado na cadeira de prefeito. Basta conferir as redes sociais do próprio Alckmin para ver o governador paulista fazendo uso descarado da máquina para se promover à presidência da República. Imaginem o auê que seria se a situação fosse inversa: se petistas atirassem pedras e dessem tiros na direção dos tucanos em seus périplos pré-eleitorais. Contra petistas/esquerdistas? A culpa é da vítima.

Lula, como todo cidadão, ele tem o direito de ir e vir assegurado pela Constituição. Além disso, a caravana foi a maneira que encontrou para se defender de uma condenação que considera injusta. Se está fazendo campanha antecipada? Ora, e quem não está?

À parte a legitimidade de Lula se deslocar por todas as regiões do país se assim o desejar, a reação de seus adversários e a tibieza da mídia comercial com o atentado deixam patente a estratégia da direita de culpar o PT e a esquerda em geral pelos males da nação. Primeiro, se criou um clima de ódio ao PT, atribuindo ao partido toda a corrupção da política; depois, tiraram os petistas do poder utilizando este ódio; então realizam seu projeto de governo excludente e autoritário; culpam mais uma vez o PT por levar a nação à ruína; e agora estão jogando nas costas do partido o ódio que eles mesmos incitaram. Culpam o PT até por levar tiro.

Diziam que o PT queria transformar o Brasil na Venezuela, mas nosso país caminha a passos céleres para se tornar uma Honduras. O país da América Central jamais se reencontrou com a democracia após o “golpe constitucional” de 2009 aplaudido pela direita brasileira. Pelo contrário, foi “premiada” com o título de “país mais perigoso do mundo para ser defensor do meio ambiente”, passou a criminalizar os movimentos sociais e a bater recordes de assassinatos de jornalistas e de defensores dos direitos humanos.

A execução de Marielle não foi a única desde que Michel Temer assumiu o poder. O site Opera Mundi elencou 20 execuções de líderes de movimentos sociais ocorridos desde o afastamento de Dilma, em abril de 2016, de um total de 25 assassinados nos últimos quatro anos. Temer também está batendo recordes nos assassinatos na disputa pela terra, outro fator em comum com Honduras: 65 pessoas foram assassinadas em conflitos no campo em 2017, segundo a Comissão Pastoral da Terra. Só falta agora uma eleição fraudulenta para completar o processo de “hondurização” do Brasil.

Uma das razões do “incômodo” dos ruralistas sulistas com a presença de Lula é justamente o fato de ele tocar no tema da reforma agrária durante a caravana, até porque o governo golpista não assentou nem uma única família no ano passado, algo que não acontecia em nosso país há 20 anos.

O Brasil está indo por um caminho tenebroso. Está na hora de a direita que não compactua com atentados a opositores, a direita verdadeiramente democrática, erguer a voz contra os agressores fascistas e não de incitar mais violência culpabilizando a vítima.

 

 

 


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Sergio Souza em 28/03/2018 - 14h05 comentou:

“Está na hora de a direita verdadeiramente democrática”. Problema do Brasil está nessa divisão: Nós e eles! Não existe “direita verdadeiramente democrática” e nem “esquerda verdadeiramente democrática”. Quem é verdadeiramente democrática independe dessa papagaiaga de ser direita e ser esquerda! Quem é Brasil? É Brasil e pronto! Vamos pensar no Brasil! Imbecis? Existem dos dois lados! Gente boa? Também existe dos dois lados! O problema é que as boas vozes, as vozes pela democracia, têm sido sufocadas por esse radicalismos de esquerda e direita! Não apenas o PT está colhendo “o que plantou”! Todos nós estamos colhemos, independentemente do lado que esteja!

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    João Junior em 29/03/2018 - 17h35 comentou:

    Na verdade, ter um posicionamento político não é dividir. Ser de direita ou de esquerda não é um problema. O que é grave é que os políticos de direita, corruptos históricos, como Aécio, Serra, FHC, Temer, Padilha, Cunha, Moreira Franco, Jucá e outros originaram a demonização do PT porque haveria suspeitas de corrupção no governo petista. Desviaram o foco da opinião pública para o PT, com a ajuda da imprensa cúmplice. Tão cúmplice que os ajuda a governar, mentindo sobre temas importantes, como a reforma trabalhista e a reforma da previdência. Na primeira, o povo acreditou, mas o tempo passou e a situação só tem piorado. O povo já entendeu que foi enganado e se posicionou contra a reforma da previdência, que foi barrada pela pressão popular. Passado o impeachment de Dilma, as investigações apontam que os mesmos corruptos históricos estão envolvidos em novos casos de corrupção, ao mesmo tempo em que continuam sem dar explicações sobre os casos mais antigos. E Dilma, inocentada. Quantos você viu admitir que estavam errados quanto à postura dela? Reconhecer um erro é grandeza. É o que falta para estarmos todos juntos ao lado da política para reconstruir o Brasil. Sem a política, sobra a barbárie que vitimou Marielle e que quase matou Lula. Discorde de Lula na urna. E discorde de Aécio também na urna, se você for um cara democrático.

Tiago em 31/03/2018 - 16h26 comentou:

Os políticos do PSDB são ilários, o PT nunca pregou a violência, mas sim uma justiça social e igualdade social. Quem teve ações violentas foi o PSDB, tanto nos governos de SP na cracolândia, que foi mais para agradar os eleitores de direita sem estudo do que para resolver a questão do consumo de drogas e no Paraná. O PSDB para ser cuerente defeveria se fundir com o DEN, já que este partido não defende a social democracia.

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