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Moscou vira Disney de comunista nos 100 anos da revolução russa

Brasileiros de esquerda invadem a ex-União Soviética para participar das comemorações do centenário dos dez dias que abalaram o mundo

A Catedral de São Basílio, na Praça Vermelha, em Moscou. Ilustra Cris Vector
Cynara Menezes
02 de novembro de 2017, 17h06

Com ilustra de Cris Vector

O funcionário público José Guerra tinha um sonho aos 10 anos de idade. Não, senhor, ele não sonhava entrar no Epcot usando orelhinhas do Mickey, gritar na montanha-russa ou conhecer o Castelo de Cinderela. O Magic Kingdom dele era outro. Em 1987, quando tinha essa idade, o baiano Zé leu, no segundo caderno do jornal A Tarde, uma matéria sobre os 70 anos da revolução russa e ficou apaixonado. Na faculdade, jurou que estaria em Moscou nos 100 anos da derrubada do czar e nascimento da União Soviética. E lá vai ele.

São vários cruzadores Aurora zarpando do Brasil com esquerdistas a bordo guiados pelo desejo de sentir e repensar um dos momentos mais importantes da história do mundo in loco, respirando o mesmo ar que os bolcheviques. A maioria das excursões já saiu, porque os turistas bolivarianos fazem questão de estar na Praça Vermelha em 7 de novembro, data exata da revolução de outubro pelo calendário gregoriano. A programação oficial, porém, é meio chocha, com celebrações em torno do centenário sendo desestimuladas pelo presidente Vladimir Putin.

Zé Guerra em sua casa em Brasília

Zé Guerra está num grupo de 14 pessoas de perfil variado e coração comunista em comum, inclusive seu pai, Sergio, petista histórico em Salvador. A viagem é meio “esquerda caviar”, ele reconhece, mas a passagem aérea foi, brasileiramente, parcelada em 10 vezes e o hotel onde vão ficar é um desses de rede, baratinho, perto do centro de Moscou. A maior parte do grupo fez aulas de russo para conseguir expressar o básico e pelo menos decifrar o alfabeto cirílico. “Aprendi a falar ‘eu não estou entendendo'”, Zé brinca. Além da utilíssima frase, nomes de comida, bebida, “onde fica o metrô”…

A maior parte do grupo fez aulas de russo para conseguir expressar o básico e pelo menos decifrar o alfabeto cirílico

A programação, inteiramente “temática”, inclui, claro, o mausoléu de Lenin, reaberto em abril à visitação após dois meses de trabalho de conservação do corpo embalsamado do revolucionário. 100 anos depois da revolução e 26 após o fim da União Soviética, Lenin ainda é uma das figuras mais admiradas do país, surpreendentemente ao lado do último czar, Nicolau II, com prestígio crescente entre os russos nos últimos anos graças à igreja Ortodoxa, que o canonizou e à sua família no início dos anos 2000.

No entanto, parece ter arrefecido nos russos a vontade de demolir símbolos do comunismo que havia quando o muro de Berlim caiu, e vários monumentos permanecem de pé, como a estátua de Lenin em frente ao estádio Luzhniki, sede da abertura da Copa de 2018.

A estátua de Lenin no estádio Luzhniki, Foto: Peter Collins/CC

Nos últimos anos, Putin tem, por onde quer que passe, baixado a bola dos saudosistas da revolução bolchevique. “Revoluções são ruins, já tivemos revoluções demais no século 20. O que precisamos agora é de evolução”, disse, em 2014. Ano passado, condenou a “violência” contra a religião nos anos que se seguiram a Outubro, e só em dezembro de 2016 permitiu a criação de um comitê para as comemorações.

Uma pesquisa divulgada em abril deste ano deste ano pelo Levada Center apontou, porém, que 48% dos russos vêem a revolução como um acontecimento positivo, contra 31% que acham que foi negativo e 21% que não souberam opinar. Em outro levantamento, 56% disseram achar “ruim” que a URSS tenha acabado; e 51% disseram que o fim do bloco poderia ter sido evitado.

“Com seus erros e acertos, a revolução russa foi um episódio de extrema importância no mundo. Não só porque representou uma experiência de sistema diferente, mas pelos avanços nos direitos dos trabalhadores, das mulheres. Foi uma quebra de paradigma e ignorar esse momento é uma bobagem”, diz Anjuli Tostes, pré-candidata a governadora do DF pelo PSOL. “A gente só consegue olhar para a frente se avalia o passado. Entender a história nunca é demais.”

Anjuli e a ushanka, típico gorro russo

Anjuli embarcou ontem para a capital russa, junto com uma turma de mais de 100 pessoas, entre militantes partidários e de movimentos sociais e esquerdistas em geral. O itinerário é Brasília-Londres-Moscou. O grupo começou a contribuir com 200 reais por mês há dois anos, fazendo uma caixinha coletiva para pagar a viagem. O valor cobriu tudo, inclusive a parte terrestre. Anjuli confessa que não se organizou muito, foi no embalo e só aprendeu até agora a falar tovarich (camarada).

A programação desta barca brasiliense inclui participar dos eventos do partido comunista russo em Moscou e São Petersburgo e depois uma parte do grupo vai para países da ex-“cortina de ferro”. O monumental Museu Hermitage, em São Petersburgo, visitado pelo casal de petistas Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo em outubro, relembra o passado, quando era o Palácio de Inverno, com a exposição A História foi Feita Aqui. Uma boa parte da exposição é dedicada à vida privada do czar e sua família, com roupas, objetos pessoais, fotografias, brinquedos e desenhos das crianças da família Romanov.

Aliás, a presidenta Dilma Rousseff também esteve em São Petersburgo e Moscou neste centenário, no início de outubro, a convite do CLACSO (Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais), a pretexto dos 50 anos da entidade. Mas não falou nada sobre os 100 anos da revolução.

70 outdoors com a imagem de Lenin foram espalhados em Novosibirski, mas alguns foram vandalizados, provavelmente pelo MBL russo

No Museu de História Política, também em São Petersburgo, as exposições trazem uma visão mais pró-bolchevique, como a mostra Petrogrado e as Mulheres, sobre os avanços da revolução russa no cotidiano feminino, parte deles mais tarde revogados por Stalin, como o direito ao aborto. Em Novosibirski, 70 outdoors com a imagem de Lenin feita para o livro 10 Dias que Abalaram o Mundo, de John Reed, foram espalhados pela cidade em comemoração ao centenário, mas alguns foram vandalizados, certamente pelo MBL russo.

Outdoor de Lenin em Novosibirski. Foto: Dmitry Petrov

O ex-presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) Cézar Britto, que foi a Moscou na companhia do ex-deputado federal Aldo Arantes e sua mulher, a ministra do TST Delaíde Miranda, e outros familiares e amigos, está escrevendo um diário de viagem. Ele enviou alguns trechos para o site, onde expõe as dúvidas na cabeça da trupe.

“Nós não sabíamos o que encontraríamos no território consagrado ao poder dos trabalhadores e que dividira, por longos anos, o mundo entre dois grandes blocos (capitalista e comunista). E perguntas e mais perguntas desembarcaram em nossas inquietas bagagens”, ele conta. “Ainda permanecia a influência marxista, leninista, trotskista ou stalinista na terra comandada por Vladimirovitch Putin, desde 07 de maio de 2000? Conservaria a nova Rússia o fervor revolucionário de 1917? A criança sonhadora de Propriá que sabia do poder amnésico do tempo, constataria, já adulta, que o esquecimento também poderia acometer toda uma nação? A revolução bolchevique ainda vivia?”

Conservaria a nova Rússia o fervor revolucionário de 1917?

A turma de Britto pousou em Leningrado, hoje São Petersburgo, no dia 28 de outubro de 2017, exatamente cem anos após a data da revolução de acordo com nosso calendário. O advogado cita John Reed para imaginar como foi que a data passou à história: “Lenin insistiu na imediata tomada do poder; o comitê finalmente concordou, por dez votos a dois, descobrindo, então, que não havia papel para o registro das resoluções. Lenin pediu emprestado um caderno de exercícios da criança da casa e escreveu a lápis numa folha. O dia clareava. Alguém perguntou: ‘Bem, mas e a data?’ Com pressa de retornar ao refúgio, Lenin respondeu, por sobre o ombro: ’28 de outubro’.”

A editora Ivana Jinkings, da Boitempo, foi para a Rússia com os dois filhos para curtir a nostalgia comunista. “É demais ver Lenin nas paredes, parques, vitrines de lojas de suvenir (ao lado de todas aquelas tranqueiras pra turista), livrarias… Mesmo que o país seja outro, as marcas da União Soviética estão para todo lado”, ela diz. Ivana também está fazendo uma espécie de diário de viagem no facebook.

“Hoje é dia de sair de Moscou para Leningrado (São Petersburgo jamais!) e minha vida melhorou muito com o aumento substantivo de vocabulário. Já tinha ouvido comentários de que poucos aqui falam inglês, mas não imaginava que fosse tanto. Mesmo nos museus, é difícil encontrar quem saiba, ou queira entender, a tal ‘língua do império’. Moscou é linda (um tanto mais “chique” do eu esperava).”

Além de visitar os pontos turísticos, as exposições e os lugares históricos relacionados ao período soviético, 100% dos que estão indo à Rússia para o centenário repetiram, sem dissidência, que irão se acabar em vodca, como todo revolucionário que se preze. Vache zdoróvie!

 


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(11) comentários Escrever comentário

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William Matheus em 03/11/2017 - 10h49 comentou:

Muito bom o texto. Um tanto quanto nostálgico !

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Georges em 03/11/2017 - 16h02 comentou:

Acabei de chegar de Londres. Se eu soubesse dessa aventura teria emendado!

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gN em 05/11/2017 - 11h26 comentou:

Olha me desculpe, mas é isso q sobrou p os comunistas? Ficar viajando como turistas capitalistas p ter sonhos nostálgicos da era soviética?

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Eduardo em 06/11/2017 - 09h53 comentou:

Uma vez uma russa me disse “não sei por que vocês latinoamericanos tem tanto fetiche com a Revolução que, além deixar 20 milhões de vítimas mortais, matou a inteligência na Rússia”.
Apesar disso, continuo visitando periodicamente a Rússia, que é um país maravilhoso, com povo lindo e hospitaleiro.

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    Cynara Menezes em 06/11/2017 - 16h10 comentou:

    estes números viraram uma piada. toda hora aparece um. acabei de rejeitar um comentário que falava em 100 milhões. já vimos até gente falar em bilhões de mortos. ridículo

Sergio em 06/11/2017 - 17h40 comentou:

Sra. Socialista Morena, esses números não são piadas. De fato, quem cita bilhões faz parte dos sem noção, e concordo: Ridículo! Porém, isso não diminui em nada as atrocidades os “filhos” da revolução russa cometeram ao longo de 100 anos de história. Não faz o menor sentido celebrar uma revolução que produz um número muito maior de cadáveres que os nazistas produziram!

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    Cynara Menezes em 06/11/2017 - 21h31 comentou:

    só tome cuidado em não vir para o site espalhar seus números chutados. a maior parte dos que morreram vítimas do stalinismo eram COMUNISTAS. existem ditadores de todas as ideologias. os erros dos homens não fazem a revolução russa ser menos importante.

    http://www.socialistamorena.com.br/comunismo-e-capitalismo-for-dummies/

José Carlos Cinquini em 06/11/2017 - 21h00 comentou:

Realizei meu sonho de andar pela Praça Vermelha e visitar o Mausoléu do camarada Lênin em julho, até janeiro estarei pagando a passagem e valeu cada centavo!

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Felipe salles em 07/11/2017 - 09h04 comentou:

E Holodomor, onde Stalin destruiu um país, fica esquecido?? Privou uma população de se alimentar apenas para mostrar seu poder e engrandecer a URSS.
Não entendo esse fetiche por genocidas.

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    Cynara Menezes em 07/11/2017 - 10h14 comentou:

    este site é anti-stalinista. acho que é meio óbvio, mas não custa explicar

Marcelo em 08/11/2017 - 11h21 comentou:

Adorei o texto. E, para os que papagueiam as platitudes sobre milhões ou “bilhões” de mortos do stalinismo, que é posterior à Revolução: nunca é demais olhar o processo histórico – porque é disso que se trata – e procurar saber o que era a Rússia imperial, com o trabalho duríssimo no campo e a miséria total dos que migraram às cidades. Revoluções não surgem do nada.

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