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Brasil pode se tornar a primeira ditadura militar eleita da América do Sul

É preciso que o país assuma: com Bolsonaro no poder, as Forças Armadas voltarão a mandar por aqui, e desta vez por decisão popular

Foto: Fernando Frazão/Agencia Brasil
Cynara Menezes
16 de outubro de 2018, 15h49

Após a restauração da democracia na América Latina, só houve caso semelhante na Bolívia, em 1997, quando o general Hugo Banzer, ditador entre 1971 e 1978, voltou ao poder pelas urnas. Em 1971, o então coronel Banzer havia encabeçado a quartelada que originou uma das ditaduras mais sangrentas da região, vitimando sobretudo indígenas, mas que foi apenas um dos quatro golpes que o país sofreu entre 1964 e 1982 –o penúltimo deles arrancou do poder o próprio Banzer.

Fora do governo, o general tirou a farda e continuou na política. Tentou cinco vezes voltar ao poder pelas urnas, até conseguir, na sexta tentativa. Foi um feito inédito: um ex-ditador sul-americano reassumia a presidência da República pelas mãos do povo. Estimulado pelo governo dos Estados Unidos, sua principal marca foi a destruição de plantações de coca, o que resultou em protestos dos camponeses liderados por um sindicalista aymara, um tal Evo Morales.

Só houve caso semelhante na Bolívia, em 1997, quando o general Hugo Banzer, ditador entre 1971 e 1978, voltou ao poder pelas urnas. Foi um feito inédito, mas Banzer se envergonhava dos “excessos” cometidos. Bolsonaro sente orgulho

Ao mesmo tempo, a maior promessa de campanha de Banzer, erradicar a pobreza, não foi cumprida, e os protestos sociais que explodiram em decorrência da insatisfação popular também com o projeto de privatizar a água do país, levaram à versão “democrata” de Banzer sucumbir e mostrar seus caninos, decretando Estado de sítio em 2000. A pobreza afetava 7 em cada 10 bolivianos.

Mas Hugo Banzer rejeitava a figura do ditador que foi, se envergonhava dela, não a enaltecia. Queria para si a imagem do estadista “democrata”, legitimado pelas urnas. Tanto é que, ao renunciar ao cargo, em 2001, após descobrir que era vítima de um câncer incurável, chegou a esboçar um pedido de perdão à nação pelos “excessos” cometidos em sua primeira passagem pelo cargo, como a matança de Cochabamba, em 1974, quando pelo menos 80 camponeses foram metralhados por fechar as estradas em protesto contra o aumento da cesta básica.

“A eles, meus adversários políticos, os de ontem e os de hoje, a quem se sentiu prejudicado, aos que talvez prejudiquei sem a intenção de fazê-lo, lhe ofereço novamente a minha mão estendida neste momento supremo para mim”, disse. Morreu sem pagar pelos seus crimes.

Bolsonaro é diferente. Ele encarna algo que parecia existir apenas entre lunáticos: a nostalgia da ditadura. A rigor, se o Brasil eleger, no dia 28, o ex-capitão como presidente, será o primeiro país da América do Sul a escolher o caminho da ditadura militar por conta própria. Ao contrário de 1964, ninguém está forçando ninguém; é o povo que está escolhendo (salvo alguma reviravolta de última hora) dar o poder aos militares novamente. Bolsonaro e os que o cercam não se envergonham, como seu similar boliviano, da tortura, da censura, da perseguição, da repressão ou dos assassinatos de opositores. Eles se orgulham disso.

Aquela meia dúzia de panacas com faixas de “intervenção militar” nos protestos contra Dilma se multiplicou em milhões, sob o beneplácito de setores da mídia comercial e dos pretensos “defensores da democracia” da direita liberal. Esta, aliás, se mostrou minúscula em tamanho e caráter. Exatamente como em 1964, lavam as mãos para depois se dizerem “vítimas” do regime.

Quem está votando em Bolsonaro está assinando embaixo de tudo que ele defende: que a ditadura foi boa, que as torturas e os assassinatos se justificaram, enfim, que o país era “melhor” com os militares mandando

Por que eu chamo uma possível administração Bolsonaro de “ditadura”? Ora, o candidato do PSL já deu sinais de que o seu não será um governo civil e sim militar: se eleito, o capitão pretende colocar generais em vários cargos importantes, como o ministério da Educação, dos Transportes e da Segurança Pública, sem contar o general Mourão, que deverá assumir alguma pasta além da vice-presidência. Os baixos escalões também devem ganhar seus milicos.

Quem, em sã consciência, acredita que os militares, capitaneados por um defensor declarado da tortura de seres humanos, se comportarão diferente desta vez? Que não perseguirão opositores, que não censurarão os meios de comunicação, que não impedirão protestos a bala, que não colocarão partidos de esquerda na clandestinidade? O próprio filho do candidato, o deputado Eduardo Bolsonaro, já tem um projeto de lei na Câmara neste sentido. E quem acredita que eles, uma vez aboletados no poder, largarão o osso após quatro anos? Eu duvido.

A esta altura, é preciso que o país assuma de vez: com Bolsonaro no poder, as Forças Armadas voltarão a mandar, a dar as ordens por aqui. E por decisão popular. Quem está votando em Bolsonaro está assinando embaixo de tudo que ele defende: que a ditadura foi boa, que as torturas e os assassinatos se justificaram, que o país era “melhor” com os militares mandando. Um governo Jair Bolsonaro seria a versão 2.0 da ditadura militar, ou “movimento”, como disse o presidente do STF, Dias Tóffoli. Ditadura abençoada pelas urnas, graças à manipulação da opinião pública via fake news. Para quê mobilizar tropas reais se existem as virtuais?

Se isso realmente se confirmar daqui a duas semanas, o Brasil perderá o status de nação “exótica” e entrará para o clube dos países francamente bizarros do planeta, ao lado da Coreia do Norte de Kim Jong-Un ou das Filipinas de Rodrigo Duterte. O que virá a partir daí é uma novela que já conhecemos.

 

 


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(20) comentários Escrever comentário

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Miranda em 16/10/2018 - 16h00 comentou:

Me desculpem, mas preciso dizer: se o bozo for nosso presidente eleito, passarei a ter vergonha de ser brasileiro.

Responder

Matheus Battistoni em 16/10/2018 - 19h03 comentou:

Análise perfeita. Será a página mais infeliz da nossa história. O Brasil será considerado a nação mais idiota do planeta. Mas resistiremos, mais uma vez.

Responder

Kenji Toshio em 16/10/2018 - 20h01 comentou:

E o tenente-coronel Hugo Chavez?

Responder

    Cynara Menezes em 16/10/2018 - 23h32 comentou:

    fez um governo CIVIL. não se cercou de militares. jamais defendeu tortura de seres humanos. não quis proibir nenhum partido político. não descende de nenhum governante que apoiou a operação condor. era um militar digno, não esse imbecil que vocês apoiam, covarde ao ponto de nem ir num debate

Fábio P. R. em 17/10/2018 - 00h02 comentou:

“Foi um feito inédito: um ex-ditador sul-americano reassumia a presidência da República pelas mãos do povo”

Ué, esse não foi o caso de Getúlio Vargas, um ex-ditador sulamericano eleito pelo povo, em 1950?

Responder

    Cynara Menezes em 17/10/2018 - 14h26 comentou:

    na verdade vargas foi eleito as duas vezes que ocupou o poder, uma pela assembleia nacional constituinte e a segunda pelo povo. deu um golpe no meio do primeiro mandato. além disso, era civil. o texto fala de ditaduras militares

Eduardo Gomes em 17/10/2018 - 00h07 comentou:

Vai cair nas mentiras dos EUA? Veja o Canal Juche TV.
A CN não é esse demônio que os imperialistas dizem ser.

Responder

Maria Virgínia em 17/10/2018 - 00h16 comentou:

“Foi um feito inédito: um ex-ditador sul-americano reassumia a presidência da República.” Será? Isso também não aconteceu aqui, antes, com Getúlio Vargas? Ou o Estado Novo não foi uma ditadura suficientemente sangrenta para o seu gosto?

Responder

    Cynara Menezes em 17/10/2018 - 14h23 comentou:

    claro que foi. a ditadura vargas perseguiu marighella

tania jamardo faillace em 17/10/2018 - 08h23 comentou:

Como venho escrevendo exaustivamente há muito tempo: trata-se do projeto da Nova Ordem Mundial em direção ao Governo Mundial totalitário, abrangendo todo o hemisfério ocidental e comandado peloPoder Econômico Capitalista, tendo à frente o setor financeiro, e seguido dos demais.
A América Latin está no programa como área a ser recolonizada politicamente, após já ter sido colonizada economicamente.
Por que não temos um Hugo Chavez?
Nossa população é muito heterogênea, diferentemente das populações andinas, majoritariamente indígenas autóctones. Esse, aliás, é uma das consequenmcias das migrações aleatórias, que hoje são incentivdas pelos poderes que desejam desmontar os estados nacionais, usando os migrantes para corroer as conquistas dos trabalhadores locais.
Nada tem acontecido ao acaso: faz parte do projeto da NOM.
E as oposições no Brasil são comodistas e incompetentes: nunca tentaram trabalhar na direção de uma educação política de sua bases – só fazem propaganda comercia de seus projetos, sem explicar porque, como e quando, e o que é a tirania capitalista dede que existe, sua estrutura e métodos de dominação TJF.

Responder

Sergio em 17/10/2018 - 09h25 comentou:

Simples! É só haver uma emenda constitucional que proíba militares de ocuparem cargos eletivos! Tá resolvido!

Responder

    Cynara Menezes em 17/10/2018 - 14h22 comentou:

    tá resolvido, gente! pede pro kim kataguiri aprovar

Crazy horse em 17/10/2018 - 11h23 comentou:

Ja estou planejando a fuga . Volto em 20 anos se ainda estiver vivo

Responder

Sergio em 17/10/2018 - 16h28 comentou:

Mas, ele (Kim Kataguiri) vota em Bolsonaro. Mas, fácil pedir à bancada do pt e pc do b. kkkkk

Responder

Andre em 17/10/2018 - 18h20 comentou:

Getulio Vargas decretou o Estado Novo no final do segundo mandato. Ele havia sido eleito 31-34 e depois 35-38. Deu o golpe em 1937.

Responder

    Cynara Menezes em 18/10/2018 - 18h20 comentou:

    me referi como segundo mandato à volta dele, eleito.

Ronau Gomes de Mello em 18/10/2018 - 06h34 comentou:

O erro citado por você (educar as massas politicamente ) foi o maior dos governos do PT. Estamos, agora, pagando por isso. E a conta é alta.

Responder

Antônio em 19/10/2018 - 14h02 comentou:

A autora deveria dar seu parecer também para:

Por que não diz o que será do Brasil se o PT continuar?
O que as instituições farão,com a.continuidade do PT no poder?

Quais serão os rumos do foro de SP?

Como ficará a política externa?
As nomeações para.as.estatais continuarão sendo políticas ?

Estamos cansados.deste discurso de esquerda, que não pensa no povo. A esquerda brasileira deveria fazer um cursinho com Mujica, para ver se aprende algo.
#ForaPT

Responder

    Cynara Menezes em 19/10/2018 - 16h09 comentou:

    escreva você, ué. abra um site, escreva. ninguém tá te impedindo. ainda somos um país livre, pelo menos enquanto seu candidato não ganhar eleição às custas de fake news

Marcos em 22/10/2018 - 06h54 comentou:

Gostei das colocações….talvez essa heterogeneidade vem impedindo uma efetiva transformação social…algo que não se consegue aprovar projetos sociais….muito antes da tal lava jato….tinha o mensalão que foi o erro dos trabalhadores… , Porém o coiso será um retrocesso legitimado pelos dizeres rápidos e profundos a massa!

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