O nem tão sutil homoerotismo dos filmes de gladiador e das lutas de MMA

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(Stephen Boyd e Charlton Heston em cena de Ben-Hur)

A ultra-virilidade aparenta ser a antítese da homossexualidade, mas no final das contas se encontra com o homoerotismo. Me dei conta disto pela primeira vez ao rever o filme Ben-Hur, que havia assistido na infância. Nunca vi um filme tão escancaradamente gay na vida e é impressionante como arrastou milhões de pessoas para assisti-lo quando foi lançado, em 1959, sem que se dessem conta disto. Ainda mais um filme bíblico! A cena do encontro entre Ben-Hur com o general que o “adota”, nas galés, é muito sugestiva. O general diz: “Quem é aquele?” E respondem: “Ben-Hur”. “Vou levá-lo comigo para o palácio”. Hum…

Fiquei tão impressionada com o homoerotismo em Ben-Hur que corri atrás de descobrir o porquê. Bem, o roteiro é de ninguém menos que o escritor assumidamente homossexual Gore Vidal (1925-2012), responsável pela maior “pegadinha” da história do cinema. Escreveu um filme totalmente gay às escondidas de seu astro principal, o machão Charlton Heston, um reaça que se tornaria presidente da National Riffle Association. É hilário: Vidal combinou tudo com o diretor William Wyler e com o co-astro Stephen Boyd sem que Heston suspeitasse de nada. Veja o escritor contando tudo neste trecho do documentário O Celulóide Secreto (1995), de Rob Epstein e Jeffrey Friedman, que retrata a homossexualidade oculta ou assumida nos filmes hollywoodianos.

Mas eu acredito que não é somente pela presença de um homossexual entre os roteiristas que Ben-Hur possui este homoerotismo latente. Acho que o apelo homoerótico é intrínseco a este gênero de filme. Filmes de gladiador são homoeróticos por natureza. Recentemente assisti 300 e tive a mesma sensação. A ultra-virilidade de todos aqueles corpos musculosos de homens juntos, besuntados de óleo, só de “fralda” e capa, resulta numa percepção inversa e confere um inescapável tom homoerótico à trama. A cena em que Leonidas (Gerard Butler) encontra Xerxes (o brasileiro Rodrigo Santoro) é fatal. Santoro está uma verdadeira diva.

Fizeram até uma montagem com cenas do filme e a clássica canção disco It’s Raining Men, das Weather Girls, de 1982. Gayzéééérrimo. O diretor de 300, Zac Snyder, aliás, é considerado o rei do homoerotismo implícito, tanto masculino quanto feminino, na Hollywood atual.

E a cena do banho deletada em Spartacus (1960)?

Toda esta atmosfera homoerótica dos filmes de gladiador me recorda uma história real com o humorista Groucho Marx. O diretor Cecil B. de Mille perguntou a Groucho, após ele sair da sessão de estreia de Sansão & Dalila, em 1949, o que tinha achado do filme. Ele respondeu: “Bem, só há um problema, C.B. Nenhum filme em que os peitos do ator principal são maiores que os da estrela pode prender minha atenção”. Groucho se referia ao físico exuberante do galã Victor Mature, cujo peitoral avantajado ofuscava o delicado colo de Hedy Lamarr.

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(Victor Mature em Sansão & Dalila, num momento a la São Sebastião, outro mito homoerótico)

Groucho estava de gozação, mas sem dúvida seu olhar antecipou uma tendência. Sobretudo a partir da década de 1970, a percepção comum de que os homossexuais eram todos “afeminados” foi suplantada pela realidade de que gays também podem ser ultra-masculinos. E os corpos supertrabalhados na academia passaram a ser associados muito mais à homossexualidade do que à heterossexualidade. Costumo brincar que a marchinha de Carnaval “olha a cabeleira do Zezé, será que ele é” soa agora tão politicamente incorreta quanto datada. Hoje em dia seria muito mais “olha o peitoral do Zezé”.

Não é possível, atualmente, assegurar se alguém é ou não homossexual tomando como base o aspecto exterior. Não são aparência, maneiras e comportamento que definem a orientação sexual de uma pessoa. Nem todo homossexual é malhadíssimo, mas há muitos homossexuais que curtem esta estética musculosa e se dedicam a ela. E bem mais que os homens hetero, em geral nem tão ligados à beleza corporal de si mesmos. Acho que pode vir daí este homoerotismo implícito dos filmes de gladiador, que eu enxergo também nas lutas de MMA.

Fala sério: não é absolutamente homoerótico este cara a cara dos lutadores de UFC antes da competição? Eu acho um tesão.

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(Charlie Brenneman e Beneil Dariush)

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(Anderson Silva e Chris Weidman)

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(Ramsey Nijem e Dariush)

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(Conor McGregor e Dennis Siver. Hummm, couro!)

É possível que o próprio treinamento do MMA, com os lutadores agarrados no solo, contribua para esta visão homoerótica do esporte. Sintomático destes “extremos que se tocam” é o fato de o UFC ter cada vez mais fãs fervorosos entre os gays, mesmo sendo violento. O mais instigante é que os lutadores costumam ser tão, mais tão absurdamente seguros de sua masculinidade, que não se furtam a fazer coisas tidas como “femininas”, como, por exemplo, pintar as unhas.

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(As unhas dos pés do bielorrusso Andrei Arlovski…)

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(…e as das mãos do norte-americano Ian McCall)

O brasileiro Anderson Silva já falou que, embora seja um meio considerado homofóbico, existem “vários” homossexuais não-assumidos no UFC. Em entrevista à revista Trip em 2014, questionado sobre a sua própria sexualidade, o Spider respondeu da forma mais gay friendly possível: “Às vezes a galera acha que eu sou gay. Várias pessoas já me perguntaram se eu sou gay. Eu respondo: ‘Olha, que eu saiba, não. Mas eu ainda sou novo, pode ser que daqui a um tempo eu descubra que eu sou gay’.”

O que dizer de Guerra nas Estrelas e toda aquela coisa de espada erétil? Não haveria também um contexto homoerótico subliminar naquilo? Não é… fálico? Ok, sei quando piso em terreno sagrado. Melhor parar por aqui, mas já vou adiantando que tem gente que se pergunta sobre a orientação sexual de C-3PO e qual o real status da relação entre Han Solo e Chewbacca.

 

 

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Publicado em 8 de janeiro de 2016