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Religiões afro-brasileiras começam a exibir direito de resposta na Record News

Emissora do bispo Macedo terá que exibir quatro programas de 20 minutos como reparação aos insultos à umbanda e ao candomblé

Mametu Oyacorajasi no primeiro programa. Foto: reprodução
Da Redação
09 de julho de 2019, 15h54

A Record News, canal do grupo Record, do bispo da Igreja Universal Edir Macedo, começa hoje a exibir os quatro programas, de 20 minutos cada um, como direito de resposta às religiões afro-brasileiras, constantemente insultadas em seus programas. Condenada pela Justiça em abril de 2018, a Record News e a TV Record fecharam um acordo em janeiro no Tribunal Regional Federal da 3ª Região, em que se comprometiam a arcar com todos os custos e a veicular os programas, encerrando a ação civil pública aberta em 2004.

O menosprezo às religiões afro-brasileiras, constrangendo seus adeptos e imputando-lhes expressões ofensivas, configura verdadeiro desrespeito à liberdade de crença, bem como à dignidade da pessoa humana

Além disso, a emissora, condenada por “intolerância religiosa”, terá que pagar uma indenização de 600 mil reais, metade para o Instituto Nacional de Tradição e Cultura Afro-Brasileira (Itecab) e metade para o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e da Desigualdade (Ceert). Pelo acordo, três dos programas serão educativos sobre as religiões afro-brasileiras e um terá conteúdo documental sobre a própria Ação Civil Pública que levou à condenação.

Entre os programas com conteúdo ofensivo, destacam-se Mistérios, o quadro Sessão de Descarrego e ainda a obra Orixás, Caboclos e Guias, Deuses ou Demônios, de Edir Macedo. No livro, o bispo da Universal atribuía à umbanda e ao candomblé todos os males do mundo e as associava ao culto ao demônio.

“O menosprezo às religiões afro-brasileiras, constrangendo seus adeptos e imputando-lhes expressões ofensivas, configura verdadeiro desrespeito à liberdade de crença, bem como à dignidade da pessoa humana, não havendo como prosperar a afirmação da Rede Record, em seu apelo, de que inexiste justa causa para a concessão de resposta a inespecíficas e indemonstradas ofensas ocorridas há mais de uma década”, diz a decisão da juíza Consuelo Yoshida, do TRF-3.

Ela confirmou a decisão anterior, da juíza federal Marisa Cláudia Gonçalves Cucio, cujos trechos cita no acórdão: “Assisti às fitas e não há como negar o ataque às religiões de origem africana e às pessoas que as praticam ou que delas são adeptas. As religiões trazidas com os escravos são parte da cultura brasileira e são presença constante em nossa literatura. Não foram poucos os livros editados, e muitos foram adaptados para o cinema e para a televisão. Portanto, entendo que é possível a identificação dos ataques à religião com o intuito de menosprezar quem as pratica (referidos como bruxos, feiticeiros, pais de encosto)”, diz Gonçalves Cucio.

Nos programas há depoimentos de pessoas que antes eram adeptas das religiões afro-brasileiras e que se converteram; essas pessoas realizam 'sessões de descarrego' ou 'consultoria espiritual' e afirmam que nos terreiros os seguidores praticam o mal, a feitiçaria, e a bruxaria

“Aliás, um fato interessante deve ser registrado. Nos programas gravados há depoimentos de pessoas que antes eram adeptas das religiões afro-brasileiras e que se converteram; nos templos da nova religião, essas pessoas realizam ‘sessões de descarrego’ ou ‘consultoria espiritual’. Assim, é de se concluir que não negam as tradições e os ritos das religiões de matriz africana, porém afirmam que nos terreiros os seguidores praticam o mal, a feitiçaria, e a bruxaria.”

“Os programas tentam transmitir a ideia de simples relatos de pessoas que se converteram. Contudo, não se trata apenas de testemunhos a respeito do sucesso da conversão. Relatos não poderiam ser impedidos, todavia, as pessoas não são identificadas, sequer seus rostos são desvendados, mas são denominados como ‘ex-bruxa’, ‘ex-mãe de encosto’, e acusadas de terem servido aos ‘espíritos do mal’ que só se dedicam a prejudicar as pessoas”, continua a juíza.

“Esse tipo de mensagem desrespeitosa, com cunho de preconceito, mesmo que transmitida em horário de pouca audiência, tem impacto poderoso sobre a população, principalmente a de baixa escolaridade, porque é acessada por centenas de milhares de pessoas que podem recebê-la como uma verdade.”

Assista ao primeiro programa.

Veja o cronograma das exibições, que se repetirão até setembro, sempre às 2h30 da manhã, mesmo horário em que as ofensas foram veiculadas.

 

 


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Omar em 09/07/2019 - 16h13 comentou:

Ou seja, na prática, não se fez justiça. Por mais louvável e tardia que tenha sido a
sentença, qual é o trabalhador que vai estar acordado ás 2:30 da manhã para assistir
estes documentários? Tinha que ser em horário nobre! Essa praga evangélica já foi longe demais, estamos nos encaminhando para um narcoestado teocrático da pior espécie.
Nunca entendi como a igreja católica com todo o seu poder e influência, nunca fez nada
para impedir o crescimento destes monstros. Agora é tarde demais.

Responder

Joana Darc Marcolino em 09/07/2019 - 17h25 comentou:

Só gostaria de saber ,qual trabalhador ou outra categoria que vai estar acordado até às 2:30 da manhã esperando por essa exibição?
Porque não colocam no horário nobre ?aí seria justo.Pra mim continua a mesma coisa! Ridículo!Bem coisa deles pra enganar otário…

Responder

Yalorixa Roselaine de iansa em 09/07/2019 - 22h03 comentou:

Respeito as religioes de Matriz Africana.
Que a verdade chegue ao conhecimento de quem nao conhece os olorum e os Orixas.
Axe

Responder

Paulo Roberto Martins em 10/07/2019 - 11h00 comentou:

Concordo com o comentário do Omar.Horário totalmente impróprio,prática aliás que serve ao conhecido deboche da Casa Grande quando se trata de dizer-se “democrática” em suas relações com a Senzala.Justiça demorada e de meia boca!

Responder

Rafael em 10/07/2019 - 18h32 comentou:

Boa parte dos programas evangélicos da Record passa de madrugada.

Responder

Ana Lopes em 11/07/2019 - 08h46 comentou:

E agora que o Bolsonaro decidiu que vai colocar no STF um indivíduo terrivelmente evangélico e tem muita gente religiosa no governo que odeia os LGBT s e as religiões de matriz Afro tudo o que melhorou nesses temas vai regredir. A laicidade do Estado está correndo perigo.

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Ricardo em 12/07/2019 - 02h51 comentou:

Só pode ser brincadeira esse horário. Duas e meia da manhã? Sério isso? Não vai ser exibido em um horário entre 19 e 21 horas, intervalo que garantiria um bom número de espectadores? Não é possível, a não existe mesmo justiça no Brasil.

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