Bonequinhas de luxo

Publicado em 15 de outubro de 2012

A invasão do Pinheirinho, em São Paulo, no começo do ano, fez nascer um movimento superbacana que mostra como é possível juntar gente em uma ação “política” fazendo o que se gosta: no caso, bonequinhas e bonequinhos de pano para alegrar corações. As próprias Bonequeiras Sem Fronteiras contam aqui a sua história.

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Por Marília Toledo

A semente

Domingo, 22 de janeiro de 2012. Os quase 9 mil moradores da comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos, SP, são surpreendidos por centenas de homens da Polícia Militar, que nas primeiras horas da manhã iniciam a violenta operação de reintegração de posse da área, invadida  desde 2004. As famílias abandonam as casas com a roupa do corpo, deixando para trás todos os pertences. Diante da situação emergencial, muitas famílias buscam amparo na casa de parentes ou amigos. Outros são levados para ginásios da cidade que se transformam em alojamentos improvisados. As imagens da operação correm o mundo. Cacos e mais cacos das histórias de todas essas vidas por debaixo dos escombros.

Na intenção de minimizar o sofrimento ao menos das crianças desabrigadas, um grupo de bonequeiras mobilizado por Andréa Cordeiro, bonequeira de Curitiba, e inspirado no projeto Dolly Donations, inicia uma campanha a fim de unir artesãs para produzir bonecas para essas crianças. Pode parecer bobagem pensar em brinquedos quando comida e remédio são mais urgentes, no entanto quem foi criança sabe que fica mais fácil enfrentar o escuro segurando uma boneca que conforta. A ação vai crescendo e o número de voluntárias se multiplicando através da página criada na rede social Facebook. Em pouco tempo já são 160 artesãs de todo o país e também do exterior, mobilizadas através da própria Dolly Donations, produzindo as bonecas para as crianças do Pinheirinho.

A primeira entrega acontece em 26 de fevereiro de 2012. Ainda não havia bonecas suficientes para todos os meninos e meninas desabrigados, mas se fazia urgente oferecer algum tipo de alento, diante sobretudo da situação precária em que se encontravam e da pressão e do caos que se estabeleciam dentro dos alojamentos, que estavam sendo pouco a pouco esvaziados. Cerca de 250 bonecas foram distribuídas no principal alojamento.

A ação continua. Mutirões são realizados em diversas cidades do Brasil para a confecção de bonecas. Uma festa de Páscoa é organizada de modo que as crianças estejam reunidas em um mesmo lugar para a entrega. As bonecas continuam chegando, vindas de toda parte. A segunda parte da entrega é realizada nessa festa, totalizando mais de 450 bonecas entregues para as crianças desabrigadas.

Nesse ínterim, as Bonequeiras começam a receber outros “pedidos”:  também em festividades de Páscoa, 60 bonecas foram entregues no Lar Amor ao Próximo, em São Paulo, onde um dos voluntários da ação pelos desabrigados também presta auxílio e outras 40 no GACC – Grupo de Assistência às Crianças com Câncer, em São José dos Campos, a pedido de uma das voluntárias do grupo das Bonequeiras.

O grupo se torna então, oficialmente, as “Bonequeiras Sem Fronteiras” e inicia formalmente o planejamento de novas ações.

A flor

E porque bonecas são carinho e há sempre uma criança dentro de nós, a segunda ação planejada pelo grupo destinou-se às idosas residentes no Asilo São Vicente de Paulo, instituição de Curitiba dirigida ao atendimento de longa permanência e cuidado a mulheres com graus diferenciados de limitações e necessitam cuidados específicos. Atualmente o  asilo conta com 160 moradoras, sua capacidade máxima. Para aquecer as vovós no inverno gelado do sul, as Bonequeiras tiveram  a idéia de confeccionar luvinhas para serem entregues junto com as bonecas.

Foram 160 bonecas e luvinhas feitas com muito amor. A entrega aconteceu no dia 26 de julho, dia da avó. A festa começou no refeitório, com música ao vivo. Um grupo de voluntárias esteve no asilo pela manhã para fazer as unhas das moradoras. Como as luvas eram sem dedos, elas queriam tirar fotos mostrando o esmalte!

Mas como as Bonequeiras são aplicadas, sobraram bonequinhas. Uma das artesãs solicitou então que os mimos restantes fossem entregues no Lar Meimei, instituição que presta auxílio a crianças em situação de risco localizada em Caxias do Sul, RS. O Lar Meimei funciona como uma casa de apoio para crianças vítimas de abuso e negligência em um bairro bastante pobre da periferia de Caxias do Sul. Em sua própria casa, com a ajuda de seu esposo, a responsável pelo Lar (que encontra-se em fase de estruturação oficial em forma de ONG), recebe diariamente essas crianças. A elas é oferecido café, almoço e jantar. As crianças também são acompanhadas à escola e da mesma forma ao médico, dentista, etc, quando se faz necessário.

Após realizarem uma longa viagem que começou em São Paulo e contou com a disposição de várias caronas,  80 bonecas caroneiras foram entregues durante uma festa realizada no dia 1 de setembro.

O fruto

As Bonequeiras Sem Fronteiras contam atualmente com 512 membros. Não somos somente artesãs profissionais: grande parte das pessoas que fazem parte do grupo nunca haviam costurado uma boneca, mas se motivaram a participar dessa rede de amor. Participar das bonequeiras não significa somente fazer bonecas, mas ajudar nas caronas, nas entregas, nas idéias, na mobilização, planejamento e viabilização das entregas.

Não contamos com apoio político, comercial, tampouco estamos ligadas a qualquer organização ou recebemos patrocínio. Todo nosso trabalho é feito voluntariamente e nós mesmas arcamos com o material e envio das bonecas. Até agora já presenteamos crianças de todas as idades com cerca de 800 bonecas e bonecos de pano e muito amor de verdade.

Nossa próxima ação acontecerá em outubro. Estamos em fase de produção de 450 bonecas que serão entregues para crianças de comunidades quilombolas do Vale do Ribeira.

No Facebook: Bonequeiras Sem Fronteiras

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