Randolfe Rodrigues: “Pelo visto o PSOL amadureceu”

Publicado em 29 de março de 2017
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(A foto que foi o estopim da saída de Randolfe do PSOL)

Há quase três anos, em plena pré-campanha de 2014, o senador do Amapá Randolfe Rodrigues, escolhido candidato à presidência pelo PSOL, resolveu presentear seu colega de parlamento e também presidenciável do PSDB Aécio Neves com um livro: 1964 – O Verão do Golpe, de Robert Sanders. Aécio postou a foto dos dois posando com o livro em seu facebook e foi aquele auê. Achincalhado pelos próprios colegas de partido como “a esquerda que a direita gosta”, Randolfe desistiu da candidatura e acabou abandonando o PSOL meses depois.

Março de 2017. Um dos fundadores do partido, o deputado federal Chico Alencar foi à festa de 50 anos de jornalismo de Ricardo Noblat no restaurante Piantella, em Brasília, onde foi flagrado em animada roda de conversa com… Aécio Neves. Chico foi muito cobrado nas redes sociais pela proximidade demonstrada com o senador tucano, mas pelos petistas. Não se viu dos psolistas a reação furiosa que a foto de Randolfe com o mesmo Aécio desencadeou. Mudou Aécio, mudou Chico, mudou Randolfe ou mudou o PSOL?

“Pelo visto o PSOL amadureceu. Percebi que a polêmica em torno do Chico não chegou nem perto da minha. Ainda bem, gosto muito dele. Não gostaria que passasse pelo que passei”, afirma o senador amapaense, que foi para a Rede. Randolfe não acompanhou de perto a história do que a imprensa chamou de “beija-mão” de Chico Alencar em Aécio, mas não esconde que, para ele, o imbróglio teve um certo sabor não de vingança, mas de “o mundo dá muitas voltas”…

Por que Randolfe resolveu dar o livro a Aécio? “Sempre tive uma relação de carinho e respeito com Aécio. Dei o livro a ele porque tinha lido e gostado e porque o autor citava várias vezes o avô dele, Tancredo”, conta o senador. “Ele me pediu para tirar uma foto comigo para postar no facebook e seria indelicado de minha parte recusar.” A foto continua na página do senador tucano. Aécio também postou a dedicatória na íntegra: “Querido Aécio, este livro apresenta as habilidades de políticos que fazem e faziam da política a arte da paixão e da sensibilidade, entre eles seu avô. Isto em tempos de tormentas e autoritarismo. Que as benfazejas lembranças do passado nos inspirem, políticos do presente, para fazermos o melhor pelo Brasil.”

Mas o que foi apenas uma gentileza entre adversários se transformou num vendaval. Randolfe recebeu todo tipo de mensagem insultuosa e as maiores ofensas vieram de gente do próprio PSOL. Algumas das manifestações eram, conta, inquisidoras, como a do presidente do partido, Luiz Araújo, que na época trabalhava em seu gabinete; outras eram francamente agressivas. Um dos que criticaram Randolfe na época foi o jornalista Milton Temer, quadro histórico do PSOL no Rio, que classificou a foto e sobretudo a dedicatória como um “erro grave” do colega de partido.

“Inaceitável, meu caro Randolfe. Um senador do PSOL, cujo mandato tem sido excelente na defesa do mundo do trabalho, não pode exercer o ‘melhor pelo Brasil’ da mesma forma que um senador conhecido como porta-voz do grande capital multinacional, e de seus sócios-sabujos no Brasil. Trata-se de insuperável antagonismo de representação”, escreveu. Temer também criticou a presença de Chico Alencar no jantar do Piantella, mas foi mais suave: “um deslize”, “equívoco”.

Luciana Genro, que substituiu Randolfe na candidatura à Presidência, chegou a cometer a indelicadeza de dizer que ele estava “praticamente fora do partido”, muito antes de qualquer posicionamento do senador neste sentido. Sobre o jantar de Chico Alencar com Aécio, nada. O ex-deputado João Batista Araújo, o Babá, e sua corrente dentro do PSOL, a CST (Corrente Socialista dos Trabalhadores), pediram a expulsão imediata de Randolfe do partido após a bendita foto. Sobre Chico no Piantella com o tucano, nenhuma palavra.

“Até a corrente que eu integrava, a Ação Popular Socialista, me criticou. Não tenho nenhuma mágoa, mas a verdade é que não recebi a solidariedade de ninguém. A reação foi muito maior do que eu imaginava e foi uma das principais razões para eu desistir da candidatura à presidência”, diz Randolfe. “Acho que essa história do Chico mostra que o PSOL evoluiu e também que a história me absolveu. Aquela foto, assim como a presença dele no jantar, são provas de que se pode conviver com as diferenças e não vergar um milímetro nas convicções.” Após deixar o partido, o senador anunciaria apoio a Dilma no segundo turno, não a Aécio.

Hoje, Randolfe lamenta enxergar não só no PSOL, mas em toda a esquerda brasileira uma enorme intolerância com a divergência interna, entre grupos que desejam, afinal, a mesma coisa. “Isso infelizmente vem do stalinismo, essa tendência de vigiar, de atacar o outro. É como se existisse um ‘esquerdômetro’ apontando o tempo todo quem é mais de esquerda e quem é menos”, critica o senador, que, mesmo na Rede (“o partido da Marina”) continua se considerando “de esquerda” tanto quanto se sentia no PSOL. “Sigo a máxima de Lenin: as palavras convencem, o exemplo mostra. A pessoa tem de ser quem é pelo que faz.”

 

 

 

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A periferia abandona o PT (e isso é razão de preocupação para toda a esquerda)

Publicado em 3 de outubro de 2016
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(À esquerda, mapa da disputa paulistana em 2012; à direita, a de 2016, com Doria em azul e Marta em verde)

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, perdeu em todos os distritos eleitorais da capital, inclusive nos redutos tradicionais do seu partido, o PT. Haddad perdeu em Parelheiros e Grajaú (zona Sul) para Marta, perdeu no Itaim Paulista (zona Leste) para Celso Russomanno e perdeu para o eleito João Doria Jr. em Guaianases, Cidade Tiradentes e Capão Redondo (zona Sul). O prefeito teve seu melhor desempenho em Pinheiros, bairro de classe média alta da zona Oeste.

É óbvio que o massacre midiático e a investida judicial contra o partido teriam seus efeitos nas urnas, mas tem um fator que precisa ser alvo de atenção especial por parte da esquerda. A eleição paulistana comprova o que venho falando há algum tempo: o PT se distanciou da classe trabalhadora. O partido criado pelo metalúrgico Lula nasceu em berço sindical, mas não soube cultivar o vínculo com os representantes dos trabalhadores a não ser pelo peleguismo é emblemático que este ano tenha sido derrotado nas cidades do ABC, à exceção de Santo André, onde Carlos Grana disputará o segundo turno.

Como se não bastasse o distanciamento de trabalhadores e sindicatos, o PT deixou de investir na formação de militantes durante os anos em que esteve no governo federal, optando por fortalecer a nomenklatura. O resultado desta abdicação à conscientização política das massas foi que a nova classe média ou “nova classe trabalhadora”, como diz Marilena Chaui, acabou cooptada pela direita, com a providencial ajuda da velha mídia que a representa.

O abandono do PT pela classe que lhe dá nome é a notícia mais preocupante desta derrota e afeta a esquerda como um todo. É também um fenômeno internacional. Ocorre nos Estados Unidos com Donald Trump, que conquistou a classe trabalhadora branca com seu populismo. E no Reino Unido, onde os pobres votaram em sua maioria pela saída do país da União Europeia, na ilusão de que isso trará seus empregos de volta. Por que as promessas de uma vida melhor sob uma ótica de esquerda deixaram de atrair os trabalhadores?

Eu acho que nos elitizamos. Viramos os representantes de gente consciente e estes não são, nem de longe, a maioria do eleitorado. Os pobres, que encontravam nas promessas da esquerda, sobretudo do PT, um alento para suas vidas sofridas, agora parecem seduzidos pela ilusão de ascensão social rápida e de consumismo vendida pela direita. A derrota dos petistas no Nordeste indica que políticas de redistribuição de renda como o Bolsa Família tampouco se convertem automaticamente em votos como antes. Das sete cidades onde Lula esteve na região fazendo campanha, só Crato e Iguatu, no Ceará, elegeram prefeitos do PT além de Recife, onde João Paulo foi ao segundo turno.

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(Lula em São Bernardo na greve geral de 1979. Foto: Fernando Pereira/CPDocJB)

Como voltar a seduzir os trabalhadores para a ideia de um mundo com mais justiça social, principal razão de existir da esquerda? O que nos reaproximará das classes menos favorecidas? São as questões que temos de nos fazer daqui para a frente, toda a esquerda, não só o PT. O PSOL, por exemplo, está indo ao segundo turno no Rio e tem um desafio imediato: disputar com o bispo Marcelo Crivella a narrativa junto aos mais humildes, que todos estes anos o PT deixou à mercê das igrejas evangélicas. É imprescindível atingir estas pessoas sem menosprezar sua fé, mesmo que não seja a nossa. No longo prazo, o PSOL tem que ampliar sua base social para crescer.

Ao mesmo tempo que a política de alianças do PT se mostra ultrapassada, é fato que a esquerda como um todo deve se redesenhar olhando para a sociedade que temos, empunhar bandeiras mais próximas à realidade e não ao que sonhamos (e isso inclui o PSOL e outro partido que também cresceu, o PCdoB). Nada de abrir mão da defesa intransigente de reivindicações que nos colocam na modernidade, como a defesa dos direitos LGBTs, da descriminalização do aborto e da maconha. Mas precisamos ouvir os anseios dos menos favorecidos para que possamos lhes oferecer novas respostas de acordo com o que a esquerda acredita.

Também é preciso virar a página dos dogmas que ainda nos ligam a experiências fracassadas como a da União Soviética e que fazem alguns esquerdistas se sentirem donos do socialismo ao ponto do esnobismo. Sinto isso na pele: há algumas semanas, fui alvo do ataque de esquerdistas que defendem que não posso me denominar “socialista” simplesmente por rejeitar a luta armada. E os trabalhadores, como podem se sentir próximos de gente que acha que é preciso seguir certas regras, defender certas ideias e ler certas obras para ser de esquerda? Este elitismo causa repulsa, não atração.

Se não nos concentrarmos nas demandas da classe trabalhadora, corremos o risco de virar uma ideologia que se comunica apenas consigo mesma e com uma elite mais politizada. Uma ideologia nanica.

 

 

 

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As boas notícias para a esquerda nesta eleição

Publicado em 2 de outubro de 2016

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1. Apesar dos erros do PT, da perseguição midiática, da ressurreição do macarthismo, da criminalização dos movimentos sociais, não morremos. Queriam nos matar, mas a esquerda não morreu. Estamos vivos, bem vivos. O PT elegeu apenas um prefeito de capital no primeiro turno (Rio Branco), é verdade, mas isso não é nenhuma surpresa dado o massacre sobre o partido nos últimos anos. Só que a esquerda no Brasil não se resume ao PT. Se o PT está em baixa, dois outros partidos de esquerda se destacaram nesta eleição: o PSOL (Belém e Rio) e o PCdoB (Aracaju), com chances de ganhar em três capitais, além do PT em Recife.

2. Marcelo Freixo, do PSOL, foi para o segundo turno na eleição da segunda maior cidade do país, o Rio de Janeiro. Jandira Feghali, do PCdoB, já anunciou apoio a Freixo no segundo turno. Quem sabe não comece em terras cariocas nossa tão sonhada frente de esquerda, capaz de derrotar o bispo Marcelo Crivella na corrida à prefeitura?

3. Eduardo Suplicy, do PT, foi eleito o vereador mais votado da história de São Paulo, com 301.446 votos. Merecido para quem perdeu o lugar de senador para José Serra, em 2014, que nem exerce o cargo.

4. Em Aracaju, Edvaldo Nogueira, do PCdoB, enfrentará Valadares Filho, do PSB, no segundo turno.

5. Em Belém, Edmilson, do PSOL, enfrentará o tucano Zenaldo Coutinho.

6. Em Recife, João Paulo, do PT, enfrentará Geraldo Júlio, do PSB

7. A vereadora mais votada de Belo Horizonte, Áurea Carolina, militante do movimento negro, feminista, é do PSOL. O partido não tinha representantes na Câmara e agora terá dois. Em Belém a vereadora mais votada, Marinor Brito, também é do PSOL. Outra mulher Psolista foi campeã de votos para a Câmara Municipal de Porto Alegre, Fernanda Melchionna. As vitórias legislativas são muito importantes para a esquerda e é onde devemos concentrar nosso foco nos próximos anos. Sem apoio no legislativo, ninguém governa.

8. No Maranhão, governado por Flavio Dino, o PCdoB elegeu nada menos que 44 prefeitos até agora. Se tudo der errado, podemos pedir asilo político lá.

 

 

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