Socialista Morena
Cultura

Viva o dia dos mortos!

  Os mexicanos têm outra relação com o dia de Finados e com a própria morte em si: lá é dia de festa, de farra, não de choro e velas. Dia de celebrar a vida dos que se foram… É bonito. Tem um escritor que adoro, o espanhol nascido na Alemanha Max Aub (1903-1972), autor […]

Cynara Menezes
02 de novembro de 2012, 14h40

 

Os mexicanos têm outra relação com o dia de Finados e com a própria morte em si: lá é dia de festa, de farra, não de choro e velas. Dia de celebrar a vida dos que se foram… É bonito. Tem um escritor que adoro, o espanhol nascido na Alemanha Max Aub (1903-1972), autor de um livro muito divertido inspirado nas notícias dos jornais mexicanos: Crimes Exemplares.

Aub viveu exilado no México, perseguido pela ditadura franquista, durante 30 anos e se naturalizou mexicano. Até por ser um escritor “sem pátria”, é relativamente desconhecido. Mas genial. Compartilho com vocês alguns dos contos do livro, que são confissões de assassinato. Eu acho hilárias.

Crimes Exemplares, de Max Aub

– Prefiro morrer!, me disse. A única coisa que eu fiz foi satisfazê-la!

***

Começou a mexer o café com leite com a colherinha. O líquido chegava até a borda, movido pela violenta ação do utensílio de alumínio. (O copo era ordinário, o lugar barato, a colher usada, pastosa de passado.) Se ouvia o ruído do metal contra o vidro. Ris, ris, ris. E o café com leite dando voltas e mais voltas, com um redemoinho no centro. Maelstrom. Eu estava sentado em frente. O café estava cheio. O homem seguia mexendo e remexendo, imóvel, sorridente, me olhando. Foi me dando um negócio lá dentro. Eu olhei de tal maneira que se sentiu na obrigação de explicar:

– Ainda não se desmanchou o açúcar.

Para me provar, deu uns golpezinhos no fundo do copo. Voltou, em seguida, com energia redobrada, a mexer metodicamente a beberagem. Voltas e mais voltas, sem descanso, e o barulho da colher na borda de cristal. Ras, ras, ras. De novo, de novo, sem parar, eternamente. Me olhava sorrindo. Então saquei a pistola e disparei.

***

Eu a cortei de cima a baixo como uma rês porque olhava indiferente para o teto enquanto fazíamos amor.

***

Eu o matei em sonhos e não pude fazer nada até que o despachei de verdade. Sem remédio.

***

Vocês nunca sentiram vontade de matar um vendedor de loteria quando eles ficam chatos, pegajosos, suplicantes? Eu o fiz em nome de todos.

***

Estávamos na beira da calçada, esperando para atravessar a rua. Os automóveis passavam rapidamente, um atrás do outro, com os faróis acesos. Só precisei empurrar um pouquinho. Tínhamos doze anos de casados. Não valia nada.

***

Não posso tocar o veludo. Tenho alergia ao veludo. Agora mesmo me arrepio só de falar a palavra. Não sei porque tocamos nesse assunto. Aquele homem tão arrogante não acreditava em mais nada além da satisfação de seus gostos. Não sei de onde tirou um pedaço de veludo e começou a esfregar na minha cara, no meu pescoço, no meu nariz. Foi a última coisa que fez.

***

– Quero ver fazer greve agora!

***

Eu o matei porque estava com dor de cabeça. E ele ali falando sem parar, sem descanso, de coisas que não me importavam nada. Na verdade, ainda que me importassem. Até olhei para o relógio seis vezes, mas descaradamente ele nem ligou. Acho que é um atenuante que é preciso levar em consideração.

***

Era imbecil. Lhe dei e expliquei o endereço três vezes, com toda a clareza. Era simplíssimo: bastava cruzar a Reforma na altura do quinto quarteirão. E nas três vezes se enrolou ao repetir. Eu lhe fiz um mapa claríssimo. Ficou me olhando, com cara de interrogação:

– Pois não sei.

E encolheu os ombros. Dava vontade de matá-lo. Eu o fiz. Se sinto muito ou não, aí já é outra história.

***

Eu pedi o Excelsior e ele me trouxe O Popular. Eu pedi Delicados e ele me trouxe Chesterfield. Eu pedi uma cerveja clara e ele me trouxe escura. O sangue e a cerveja, misturados no chão, não são uma boa combinação.

***

Era tão feio o coitado que cada vez que eu o encontrava, parecia um insulto. Tudo tem seu limite.

***

Eu o matei porque não pensava como eu.

 


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(10) comentários Escrever comentário

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Chico em 02/11/2012 - 15h11 comentou:

Me lembraram uma crônica do Luis Fernando Veríssimo, o homem que sabia demais!
hshs, muito bom!

Responder

Americo Cordula em 02/11/2012 - 15h46 comentou:

Tem um quê de Rubem Fonseca no Matador, ou vice versa.

Responder

Mana em 02/11/2012 - 16h13 comentou:

Excelente. Aplausos.

Responder

Toledo em 03/11/2012 - 11h26 comentou:

Hum…Viva o dia dos mortos!!! Bem no feriado de Finados o cadáver de Celso Daniel volta a se agitar no armário levando o PT a adiar o seu manifesto contra o STF e a “mídia golpista”. Vem chumbo grosso por aí…Celso foi apenas o primeiro de uma fila de oito cadáveres. Abre o olho Valério, abre o olho!

Responder

Sérgio Cabala em 03/11/2012 - 12h12 comentou:

fantástico. Vou pesquisar mais sobre o autor.
E, parabéns pelo blog. O conheci esta semana.

Responder

Messias Macedo em 04/11/2012 - 00h21 comentou:

[Data venia]

ANTES MESMO DE COMEÇAR (sic), A DITADURA E A MALVADEZA JÁ RETORNARAM À BAHIA! ENTENDA

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Site De olho em ACM Neto sai do ar e criador da página diz ter recebido ‘e-mails estranhos’

O site “De olho em ACM Neto”, criado logo após a eleição do novo prefeito de Salvador, saiu do ar nesta sexta-feira (2). No domínio e na página do Facebook ligada ao projeto, era indicado que o objetivo da proposta era a fiscalização da gestão através de colaboração dos internautas. Em nova fanpage na rede social, desta vez com o nome “De olho no gestor ACM Neto”, o administrador do site, que prefere manter o anonimato, explica que pretende continuar apenas com a página do Facebook. “A página do facebook vai ficar no ar e gostaria de passar esta tarefa para outras pessoas que entenderam o objetivo e podem continuar com o projeto”, esclarece. Segundo ele, na quinta-feira (1º), recebeu contatos com o intuito de prejudicar a proposta. “Ontem, 01/11, foi um dia complicado, recebi emails estranhos, telefonemas estranhos e um movimento sistemático de algumas pessoas com o objetivo único de perturbar o projeto. Surgem perguntas: será que vale a pena me expor? Quando o grupo A ou B descobrirem quem eu sou e para quem foi meu voto e minha campanha? Como reagirão? Como fica a minha empresa? Minha família?”, justifica. “Reconheço e fico feliz por saber que este pode ser um projeto importante para a democracia e o exercício da cidadania, mas fico triste em saber que isso tem um preço. E eu não posso pagar sozinho”, completa.

CACHOEIRA – perdão, ato falho -, FONTE: http://www.bahianoticias.com.br/

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Que país é este, sô?! República Destes Bananas da [eterna] OPOSIÇÃO AO BRASIL, fascista, histriônica, terrorista, MENTEcapta, aloprada, alienada, MENTEcapta, néscia, golpista de meia-tigela, antinacionalista, corrupta,… (“elite estúpida que despreza as próprias ignorâncias”, lembrando o enunciado lapidar do eminente escritor uruguaio Eduardo Galeano)
Bahia, Feira de Santana
Messias Franca de Macedo

Responder

TOLEDO em 04/11/2012 - 13h45 comentou:

Pois é Messias… Que país é este? Fascista, vil, terrorista, mentecapto, aloprado, alienado, corrupto, onde quem denuncia os ladrões da república são perseguidos e ameaçados… Perguntem ao Francenildo!!!!!! O coitado teve a quebra do sigilo e a divulgação dos dados bancários, quando denunciou as falcatruas de PALOCCI, que multiplicou por 20 seu patrimônio em apenas quatro anos graças ás maravilhas da administração petista. Estes são os proletários que abominam os burgueses, mas que, semanas antes de assumir o cargo mais importante do governo Dilma Rousseff compra um apartamento de luxo em São Paulo por R$ 6,6 milhões. E VIVA O SOCIALISMO!!!!!! VIVA O PT !!!! Sem esquecer que um ano antes, Palocci adquiriu um escritório na cidade por R$ 882 mil. O pobre proletário interessado em implantar a justa distribuição de riquezas e a justiça social, quando se elegeu deputado federal, declarou à Justiça Eleitoral um mísero patrimônio estimado em R$ 375 mil. Uma casa, um terreno e três carros, entre outros bens menores. Mas graças a chegada da classe operária ao paraíso Palocci multiplicou por 20 seu patrimônio nos quatro anos em que esteve na Câmara –período imediatamente posterior à sua passagem pelo Ministério da Fazenda, no governo Lula.
Qual a magica operária socialista que consegue um patrimônio deste com salários total de R$ 974 mil brutos???????????????????????? E aí dos Francenildos, Celsos Danieis que abrirem o bico para denunciar a companheirada…..Pobre Brasil…

Responder

    Messias Macedo em 05/11/2012 - 21h07 comentou:

    Toledo, onde o senhor encontrou um 'Paloccista' por aqui, ao menos nestas mal traçadas linhas de legítima, creio, indignação?!…

    Que país é este, sô?! República Destes Bananas da [eterna] OPOSIÇÃO AO BRASIL, fascista, histriônica, terrorista, MENTEcapta, aloprada, alienada, MENTEcapta, néscia, golpista de meia-tigela, antinacionalista, corrupta,… (“elite estúpida que despreza as próprias ignorâncias”, lembrando o enunciado lapidar do eminente escritor uruguaio Eduardo Galeano)

    Bahia, Feira de Santana
    Messias Franca de Macedo

Zeca Neiva em 04/11/2012 - 13h51 comentou:

Bravo! Belo texto!

Responder

notfluorescent em 24/10/2013 - 22h58 comentou:

ótimos! Me lembraram o Cell Block Tango, do musical Chicago. Tão engraçadas quanto. A única diferença é que no Cell Block Tango, não são confissões: "I didn't do it, but if I'd done it, how could you tell me that I was wrong?"

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