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A cooperativa de gibis do Brizola e o abrasileiramento do Zé Carioca

Numa sobreloja da rua da Praia, em Porto Alegre, entre goles de chimarrão e cafezinho comprado das vendedoras ambulantes que passavam por ali, um grupo de quadrinistas, todos na casa dos 20 anos, participavam de uma aventura digna de super-heróis: produzir gibis com protagonistas genuinamente nacionais, em contraponto aos personagens estrangeiros que dominavam as HQs […]

Cynara Menezes
16 de abril de 2016, 11h37
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(O folheto de lançamento da CETPA)

Numa sobreloja da rua da Praia, em Porto Alegre, entre goles de chimarrão e cafezinho comprado das vendedoras ambulantes que passavam por ali, um grupo de quadrinistas, todos na casa dos 20 anos, participavam de uma aventura digna de super-heróis: produzir gibis com protagonistas genuinamente nacionais, em contraponto aos personagens estrangeiros que dominavam as HQs vendidas nas bancas de revistas do país, e também distribuí-las aos jornais Brasil afora, seguindo o modelo dos syndicates norte-americanos.

Alguns dos mais brilhantes desenhistas de HQ do país estiveram envolvidos no projeto: os paulistas Julio Shimamoto e Luiz Saidenberg, os gaúchos Renato Canini, João Mottini e Flavio Luiz Teixeira, o argentino Aníbal Bendati  e os cariocas Flavio Colin e Getulio Delphim. Shima, Saidenberg, Canini, Flávio, Mottini, Delphim e Bendati ficavam no estúdio na capital gaúcha, enquanto Colin trabalhava no Rio. À frente do grupo, o desenhista carioca José Geraldo Barreto, o Zé Geraldo, presidente da ABD (Associação Brasileira de Desenhistas).

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(Brizola, o secretário de Comunicação Hamilton Chaves e Zé Geraldo)

A CETPA (Cooperativa Editora de Trabalhos de Porto Alegre) foi fundada em fevereiro de 1962 com a presença do então governador e padrinho da empreitada, Leonel Brizola. A ideia tinha sido apresentada primeiro ao presidente João Goulart por Zé Geraldo, que estivera envolvido na criação de uma associação similar no Rio de Janeiro. Em São Paulo, também existia a Adesp (Associação de Desenhistas do Estado de São Paulo), criada com o apoio do antecessor de Jango, Jânio Quadros, e presidida por ninguém menos que Mauricio de Sousa, ainda iniciante.

Em agosto de 1961, Jânio chegara a anunciar uma proposta que nacionalizaria progressivamente os quadrinhos, reservando 30% do mercado das HQs, fotonovelas, romances, charges e vinhetas aos autores brasileiros. O objetivo era ter tudo nacionalizado num prazo de dois anos. Apenas três dias após o anúncio, porém, Jânio daria os passos trôpegos que o fariam sair do Palácio do Planalto para entrar na História. E o projeto foi engavetado pelo Senado. Com Jango no poder, em 1963, uma lei que reservava 60% das publicações para os quadrinhos nacionais tampouco saiu do papel.

Naquela época, o mercado de quadrinhos estava tomado por personagens estrangeiros: Tarzan, Fantasma, Flash, Batman, Mulher Maravilha, o Zorro, Mandrake… Os quadrinistas brasileiros ganhavam pouquíssimo e não tinham os direitos autorais respeitados. Para as editoras, era muito mais barato importar quadrinhos do que produzi-los aqui, mesmo incluindo os custos de tradução, adaptação e impressão. Por outro lado, o discurso nacionalista estava em alta no país. “Nós não queríamos acabar com as HQs estrangeiras, queríamos pôr as nossas”, lembra Delphim.

Quando os quadrinistas começaram a se reunir em associações para exigir reserva de mercado, os donos das editoras se juntaram em represália; mas alguns políticos abraçaram a ideia. A paranóia contra os quadrinhos estrangeiros era grande e, no mesmo ano de criação da CETPA, por pouco não passa uma lei estadual, em São Paulo, proibindo a comercialização de revistinhas, sob a desculpa de que seriam “má influência” para a juventude.

Como em todo o resto, o moralista Jânio Quadros teve uma postura ambígua também em relação aos quadrinhos. Antes de passar a defender os desenhistas nacionais, em seu mandato como vereador ele fez ataques virulentos a personagens como Popeye e Brucutu por “estimular a violência” e levar à “irreparável delinquência de reformatórios e penitenciárias”. Mas, na campanha à presidência, Jânio utilizaria uma HQ de si mesmo como propaganda.

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(Jânio Quadros em quadrinhos)

Após a renúncia de Jânio, os quadrinistas, liderados por Zé Geraldo, foram em busca do apoio de Jango, mas quem acabou sendo seduzido pela ideia foi Brizola, cunhado do presidente. O governador gaúcho acabara de sair vitorioso em sua campanha da Legalidade, que garantiu a permanência de Goulart no poder. E a primeira encomenda da CETPA foi justamente uma história em quadrinhos sobre o movimento, a História da Legalidade, esboçada por Saidenberg e desenhada por Shimamoto.

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(Shima na CETPA)

“Nós contávamos a resistência de Brizola e do general Machado Lopes, comandante do Terceiro Exército, contra a conspiração dos militares denominados ‘Forças Ocultas’, liderados pelo general Orlando Geisel, irmão do futuro presidente Ernesto Geisel”, conta Shima, hoje com 77 anos, em entrevista ao blog. “Mas Brizola vetou, dizendo que a publicação do álbum seria ‘demagogia barata’. Não fomos pagos pela tarefa, mas Zé Geraldo nos propôs outros álbuns de cunho educativo. Éramos solteiros, e decidimos, eu e Luiz, mudar de mala e cuia para o Sul.”

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(Brizola na juventude e como ascensorista no gibi “História da Legalidade”, de Shimamoto, que o governador gaúcho vetou)

“Éramos jovens, entusiasmados e ingênuos. Presa fácil para aproveitadores e egoístas, como Zé Geraldo e Mauricio de Sousa”, reclama Saidenberg, 76, que não esconde seu desapontamento com o movimento pró-nacionalização, tanto em São Paulo quanto no Rio Grande do Sul. “Na Adesp, Mauricio, vendo que dali não sairia mais nenhum dinheiro, desapareceu, para tratar de suas promoções pessoais, o que, aliás, já fazia antes. E foi muito bem-sucedido”, diz. Após o golpe militar de 1964, Mauricio criou um syndicate próprio, passou a distribuir sua Turma da Monica e se tornou um cético da reserva de mercado para quadrinistas nacionais.

Na experiência gaúcha, os desenhistas eram pagos pela cooperativa. Flávio Teixeira e Saidenberg tinham um pequeno salário fixo, mas os outros recebiam por produção. Indiretamente, quem pagava era o governo Brizola. A hospedagem e a alimentação ficavam por conta dos quadrinistas. “Shimamoto e eu ficamos na simpática pensão do Seu Julio, na rua da Catedral e do Palácio Piratini”, conta Saidenberg. Delphim diz que chegou a ficar hospedado no próprio palácio, pouco antes de embarcar para Santa Maria para estudar in loco os Abas-Largas, a polícia montada dos pampas gaúchos, protagonistas do gibi que iria desenhar para a CETPA.

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(A capa do gibi dos Abas-Largas)

“Para se ter uma ideia da força econômica da cooperativa, as máquinas de impressão eram importadas da Alemanha e, após o encerramento das atividades, foram vendidas para a Folha de S. Paulo, onde foram utilizadas até 1974”, conta o ilustrador Eloar Guazzelli, autor de uma tese de mestrado na ECA-USP sobre o desenhista Renato Canini. “No Rio Grande, os desenhistas se queixavam até de um esbanjamento de verba por parte do Zé Geraldo, que promoveu ações antes de jogos de futebol e até uma folclórica ida de um piquete de cavalarianos que protagonizavam a série dos Abas-Largas à Assembleia Legislativa. Uma tarde, naqueles tensos anos 1960, quando o piquete apareceu no plenário, levou os deputados da direita ao pânico, pensando tratar-se de um golpe brizolista.”

Saidenberg conta que Zé Geraldo bolou duas outras promoções para a CETPA que não deram muito certo. “Fomos ao jogo Gre-Nal, no Estádio Beira Rio, e, antes do jogo, fez um cavalariano, a caráter, correr pelo campo em louca disparada. Mas o serviço de alto-falantes falhou, e, sem saber do que se tratava, o povo vaiou o aba larga ruidosamente”, conta o quadrinista. “Outra promoção infeliz foi pôr nas ruas um saxofonista-sanduíche, vestido de arlequim e tocando músicas como Petit Fleur, de Sidney Bechet . Mas o público nas ruas o xingava de palhaço, e o músico esquentado, retrucava com palavrões.”

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(A tira dos Abas-Largas de Delphim na Última Hora)

Na cooperativa, embora o ambiente entre os desenhistas fosse bom, a relação com o líder Zé Geraldo, 15 anos mais velho que a moçada, logo azedou. Primeiro foi Shima a brigar com ele e em seguida Saidenberg. Ambos voltaram para São Paulo. “Ele era prepotente, demagogo, mentiroso, egoísta e narcisista”, queixa-se Sardenberg. Getúlio Delphim, ainda na ativa aos 78 anos, tem outra visão do líder da CETPA. “Era um cara fantástico, muito bacana.” Não consegui localizar Zé Geraldo, que, se estiver vivo, está com 92 anos. Em um blog que ele mantinha até 2008, respondeu às acusações de Saidenberg, chamando-o de “difamador” que “cuspiu no prato que comeu”.

Shima relata uma certa promiscuidade entre a cooperativa e o palácio, com membros do governo ocupando cargos na CETPA, de forma decorativa, sem nenhuma função. “Para piorar, pouco antes de me desligar, um projeto oneroso estava sendo implantado: um departamento para a produção de revistas de fotonovelas”, conta Shimamoto. “Ao fim do nosso expediente, víamos, com certa frequência, a chegada de garotas bem arrumadas, possivelmente candidatas para atuarem nas fotonovelas. Nunca soube se o projeto foi concluído. As línguas indiscretas insinuavam que o projeto não passava de simples fachada, e que as gurias faziam ‘programas’ com os diretores…”

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(Shima, Canini e Flávio com suas criações)

A própria ideia central da cooperativa, de criar personagens brasileiros, ficou prejudicada por um certo bairrismo. A maioria dos quadrinhos que saiu da CETPA eram estreladas por personagens gaúchos, não nacionais: Delphim criou a série de tiras com os já citados Aba-Largas, depois continuada por Mottini; Colin criou o Sepé Tiaraju, um guerreiro indígena das Missões; Bandatti criou o Lupinha, um detetive atrapalhado; e Flávio Teixeira, o Piazito (“menininho”, em gauchês). Foi Renato Canini quem criou, em parceria com Zé Geraldo, o herói tipicamente “brasileiro” da CETPA, embora sua caracterização seja meio confusa: um “candango” da construção de Brasília com aspecto de cangaceiro, o Zé Candango.

(A tira de Zé Candango no Jornal do Brasil)

(A tira de Zé Candango no Jornal do Brasil)

O maior sucesso de público da CETPA foi mesmo a História do Rio Grande do Sul, desenhada por Shimamoto, com capa do pintor Thierry, que fazia a maioria das capas. Saidenberg desenhou a História do Cooperativismo. As tiras de Lupinha, Zé Candango e Aba-Larga chegaram a ser distribuídas para a Última Hora gaúcha e para o Jornal do Brasil. Mas a cooperativa fecharia suas portas, já em franca decadência, junto com o golpe de 1964.

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(A capa da História do Cooperativismo de Saidenberg…)

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(…e um pouco do traço do autor no miolo)

Após participarem dos movimentos pró-nacionalização, os quadrinistas passaram a ser rotulados como “comunistas” e muitas portas se fecharam para eles no mercado editorial durante o final dos 1960 e início dos 1970. Perguntei a Shima se essa pecha se devia à relação que estabeleceram com Leonel Brizola. “Brizola não era comunista, mas socialista, devido à sua infância carente. Ficara órfão aos 12 anos, e vira seu pai ser assassinado. Sua formação política vinha do trabalhismo de Vargas, anticomunista ferrenho. Naquele período, a direita conservadora generalizava, mentirosamente, a esquerda como ‘comunas’.”

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(Página da História do Rio Grande do Sul por Shimamoto…)

(...e a capa por Thierry)

(…e a capa por Thierry)

Embora rejeitados pelas editoras, alguns jornais decidiram abrir espaço às HQs nacionais, como a Última Hora, de Samuel Wainer. Em 1963, o grupo Folhas abriu um concurso para o projeto de um tablóide infantil dominical, a Folhinha, ganho por Mauricio de Sousa, que criaria lá a maioria dos seus personagens. Mauricio contratou Shima para desenhar uma espécie de Zorro brasileiro, e o quadrinista, familiarizado com os temas do Rio Grande do Sul, fez O Gaúcho. Enquanto isso, Saidenberg migrava para a publicidade, contratado pela gigante McCann Erickson. A publicidade, aliás, daria guarida a vários desenhistas neste período, como Delphim, que até hoje faz storyboards para anúncios de TV e ainda sonha publicar HQs de heróis brasileiros, como Tiradentes. “Todo mundo conhece os heróis estrangeiros e não conhece os nossos”, critica.

Um “fruto” do movimento pela nacionalização dos quadrinhos viria a partir de 1970 pelas mãos de um egresso da CETPA, Renato Canini. Após alguns anos fora do mercado, Canini ingressou na editora Abril e passou a desenhar o gibi do Zé Carioca. Criado em 1942 como parte da “política de boa vizinhança” dos EUA, o papagaio que apareceu no filme Alô, Amigos era, na verdade, um pastiche do “cucaracha”, um genérico do latino-americano que Canini, ao lado do roteirista Ivan Saidenberg (irmão de Luiz), transformou em um carioca da gema, morador do morro, apreciador do samba, do futebol e da feijoada. E que tinha até “primos” de outras regiões: Zé Paulista, Zé Jandaia, Zé Queijinho… Com um detalhe: Canini nunca esteve no Rio e retratava a cidade que via nos cartões postais.

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(O Zé Carioca de Canini e seus “primos”)

O próprio desenhista desdenhava do personagem, achava-o preconceituoso com o brasileiro, ao retratá-lo como o típico malandro, trapaceiro e preguiçoso. “Parece uma contradição, mas pessoalmente eu não gosto muito do Zé Carioca”, disse Canini em entrevista à Folha de S.Paulo, em 1973. “Não chega a ser um mau caráter, mas está longe de ser um retrato brasileiro. Infelizmente, esse retrato nada lisonjeiro para o Brasil me rende um ordenado de 8 mil cruzeiros por mês.”

Apesar das críticas de seu criador, o Zé Carioca de Canini é hoje considerado um clássico. No depoimento que deu a Guazzelli para sua tese, o quadrinista, falecido em 2013, contou que a excessiva personalidade que dava ao Zé Carioca causou “desconforto” na matriz norte-americana e ele acabou afastado do gibi em 1976. Segundo o desenhista Wagner Passos, o estopim teria sido a historinha O Fiscal, que criticava a corrupção na ditadura e que só seria publicada pela Abril em 1983. A ousadia de Canini era tal que chegava a “assinar” seus trabalhos de forma clandestina, com um pequeno caramujo no canto do quadro ou dando o nome “Canini” a lojas e produtos que apareciam na trama.

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(O Zé Carioca especial com capa inédita de Canini)

Guazzelli perguntou a Canini por que fazia questão de mostrar que era o “dono” de um personagem que era, a rigor, propriedade dos Estúdios Disney. “Pura bagunça”, ele respondeu. “Ou era para dizer que o Walt Disney não desenhava todas as histórias. Não sei se a turma do Mauricio já assina”, provocou. O genial trabalho de Canini com o Zé Carioca, que povoou a infância de muitos que cresceram na década de 1970, só foi reconhecido pela editora Abril em 2005, com o lançamento de um Mestres Disney dedicado ao papagaio e à brasileiríssima turma da Vila Xurupita.

 

 


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