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A delicada relação entre repórter e personagem

Fabiana Moraes conta em livro a história por trás da reportagem sobre o lavrador nordestino que virou Joicy, ganhadora do prêmio Esso

A repórter Fabiana Moraes e Joicy no hospital. Foto: Rodrigo Lobo/JC
Cynara Menezes
22 de julho de 2015, 15h12

“Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”. A frase de Janet Malcolm em O jornalista e o assassino martelava a cabeça da repórter Fabiana Moraes nos momentos mais difíceis de sua relação com Joicy, antes João, a transexual que descobrira e transformara na protagonista do texto vencedor do Prêmio Esso de Jornalismo em 2011, publicado no Jornal do Commercio de Pernambuco.

No final do ano anterior, à cata de personagens para uma reportagem especial sobre cirurgias de redesignação sexual, Fabiana chegou ao Hospital das Clínicas de Recife e encontrou, no corredor de espera, várias transexuais com aparência feminina sentadas ao lado de um lavrador já com os cabelos rareando e que imaginou se tratar de um acompanhante de alguma das meninas. Para sua surpresa, João também se apresentou como candidata à cirurgia, na verdade a próxima a ser operada na fila. O faro da repórter de imediato enxergou ali uma história e tanto, totalmente fora dos padrões a que estamos acostumados quando se fala em transgêneros. E não deu outra.

João acabou se submetendo à cirurgia e se transformou em Joicy -não que isso tenha significado modificar muito de sua aparência além de passar a ter uma vagina. A cabeleireira continua usando as camisetinhas e bermudas simples de sempre e não adotou uma peruca. A partir da publicação da reportagem, porém, a relação entre a repórter e sua personagem se complicou. Como Fabiana pressentia, mas ao contrário do que a paciente esperava, a história de Joicy não teve final feliz e, de certa maneira, a transexual passou a cobrar mais apoio de Fabiana, inclusive financeiramente. A repórter, por seu lado, se sentia culpada e responsável pelo destino de sua “pupila”.

O comportamento invasivo de Joicy culminou com a acusação à repórter de que estava “roubando” seu dinheiro, o que levou à completa ruptura entre as duas. No livro sobre o caso que publica agora, é principalmente este o alvo de exame pela jornalista: os limites entre repórter e personagem. “Foi muito difícil para mim entender e aprender a lidar com o fato de que meu trabalho se concluiu com a publicação da reportagem. Consegui manter um pouco a distância e o livro é um reflexo de ter conseguido isso”, diz Fabiana. O desafio de ser repórter e não ser desumana, contrariando a máxima de Janet Malcolm, que considera injusta, permeia toda a obra.

Ela escreve: “Como poderia, pensando na questão de dar ou não dinheiro a Joicy, deixá-la com apenas alguns trocados no bolso quando, após dois dias a acompanhando, eu voltava para casa e ela permanecia, recém-operada, sozinha e sem condições de trabalhar? Como não levá-la a um supermercado e fazer compras para ela depois de ver que o interior de sua geladeira possuía apenas algumas fatias de abacaxi, água e um pimentão? Como não sentir o coração doer de raiva quando, em uma manhã, após ela acordar de madrugada para ser atendida cinco ou seis horas depois em um hospital na capital, eu a vejo pedir um pouco de café ao médico (o mesmo que faria sua cirurgia) e ouvir como resposta um seco ‘café se toma em casa’?”

O Nascimento de Joicy também traz à tona a importante discussão sobre a real necessidade das cirurgias de redesignação sexual. Será que Joicy precisava mesmo extirpar o pênis? “Hoje eu penso se ela não quis fazer isso apenas pelo sonho de ser aceita pelo homem que amava, de casar com ele”, avalia a repórter. É uma cirurgia difícil e os resultados até agora não foram bons: o canal vaginal de Joicy fechou, ela se submeteu a uma nova cirurgia para reabri-lo, mas o orifício fechou novamente. Ou seja, o sonho de ter relações como mulher ainda não se concretizou -sem contar que ela, talvez por falta de informação suficiente por parte da equipe médica, acreditava que ganharia um clitóris, o que não ocorre com o procedimento. O “prazer” com a nova vagina é psicológico.

Atualmente, no Brasil, é possível fazer a cirurgia de mudança de sexo pelo SUS (Sistema Único de Saúde), mas a repórter tem reparos à forma como ela acontece. “Do ponto de vista técnico, o atendimento funciona. Do ponto de vista psicológico, no entanto, é falho”, critica. Após a cirurgia, Joicy recebeu alta para se cuidar sozinha no pós-operatório. Em nenhum momento lhe foi perguntado se precisaria ou lhe foi oferecido algum tipo de auxílio. Muito pobre e moradora do agreste pernambucano, a cabeleireira teve dificuldades para manter o molde que impediria o canal de fechar e por isso a cirurgia fracassou. “Muitas transexuais já se colocam contra a cirurgia, algumas por conta da não-patologização da condição de transgênero e outras por não querer perder zonas erógenas”, afirma Fabiana.

Atualmente, Fabiana Moraes se prepara para fazer um documentário curto sobre Joicy, que já ganhou financiamento em um edital. Ao receber a notícia, a repórter voltou a procurar a personagem depois de um longo período de estremecimento. “Percebi que ali iniciava todo um novo processo com a cabeleireira. Mas, desta vez, eu estava preparada. E acredito que ela também”.

joicy

LIVRO: O Nascimento de Joicy
AUTORA: Fabiana Moraes
EDITORA: Arquipélago
QUANTO: R$40 (248 págs.)

 

 


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