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A pandemia, o sequestro do cadáver de Evita e a obsessão da direita portenha pela morte

Aliado de Macri, prefeito de Buenos Aires é um dos comandantes da sabotagem ao combate à Covid-19 no país

Detalhe da capa do livro Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez
Martín Fernández Lorenzo
11 de maio de 2021, 20h25

Ao contrário dos governantes sérios de todo o planeta e ignorando o decreto que o presidente Alberto Fernández anunciou três semanas atrás para suspender as aulas por 15 dias, o prefeito de Buenos Aires, Horacio Rodriguez Larreta, de direita, decidiu manter as aulas presenciais, mesmo com a capital argentina batendo recorde de casos e mortes. Há 21 dias que as aulas continuam presenciais e, desde que as escolas reabriram na cidade de Buenos Aires, em 17 de fevereiro, não só a curva de contágio aumentou de forma descontrolada, como crianças menores de 9 anos são as mais infectadas.

Nesse período, os casos de contágio entre zero e 19 anos quintuplicaram. Com uma média de aproximadamente 2.500 casos por dia hoje na grande Buenos Aires, a “revolução da educação” do macrismo está expondo professores, crianças e suas famílias à morte. Nove trabalhadores da educação já morreram só na cidade e três crianças perderam a vida, enquanto o Hospital Pediátrico Garrahan não para de abrir salas para internar as crianças que estão se infectando massivamente, mas a administração da cidade continua insistindo.

“Temos evidências de que as escolas não transmitem a doença”, diz a oposição. O mais curioso da “evidência” é que não existem dados que comprovem esta afirmação. Pelo contrário, na província de Buenos Aires, cujo governador, Axel Kicillof, é aliado do presidente Fernández, e onde as aulas foram sim suspensas, os casos em crianças de 5 a 12 anos caíram 15%, enquanto na cidade de Buenos Aires houve um aumento do 16%. Em abril do ano passado, o próprio Larreta admitiu que as escolas eram locais perigosos de contágio.

A circulação de pessoas é o que traz mais perigo, já que Buenos Aires tem 15 mil habitantes por km², além da loucura de ter que se deslocar e dar aulas com as janelas abertas, quando começam a ter temperaturas muito baixas em virtude do inverno rigoroso do país. Mas Buenos Aires sempre foi a sede da oligarquia argentina, e suas principais referências são hoje Larreta e Mauricio Macri. Poderia destacar a necrófila obsessão da oligarquia portenha por fantasiar e brincar com a morte, um costume que vem de décadas e tem uma causa: o ódio profundo de classe.

Num cemitério de Milão, entre 1957 e 1971, esteve sepultada María Maggi de Magistris. Mas esse nome era falso: por trás dele estava nada mais, nada menos que María Eva Duarte de Perón, que passou à história como “Evita”. Seu corpo se manteve sequestrado por 16 anos. O ódio contra ela era tal que, mesmo morta, representava uma ameaça, então decidiram tirá-la do país. Antes de ser enviada em segredo a Milão, o corpo foi várias vezes transferido pela capital por temor de que fosse encontrados pelos peronistas. O primeiro esconderijo foi na casa do major Eduardo Antonio Arandía.

A necrófila obsessão da oligarquia de Buenos Aires por fantasiar e brincar com a morte é um costume que vem de décadas e tem uma causa: o ódio profundo de classe. Sabotam o combate à pandemia, aumentando o número de mortos, apenas para confrontar um governo popular que rejeitam

Uma noite, Arandía ouviu um barulho e achou que eram intrusos procurando pelo corpo. Olhou uma sombra na escuridão e atirou várias vezes… na sua esposa grávida, matando-a instantaneamente. O tenente-coronel Carlos Eugenio Moori Koenig, chefe do Serviço de Inteligência do Exército, que nutria uma fúria gigantesca e uma obsessão doentia por Evita, passou então a guardar o cadáver da mulher de Perón em seu escritório. O corpo estava embalsamado e testemunhas afirmam que Koenig mantinha o cadáver na posição vertical, tocando-o, assediando-o e exibindo Evita para seus amigos como um troféu de guerra.

Até os companheiros acharam aquilo uma abominação e denunciaram Koenig, que foi expulso do Exército. É então que o corpo é levado a Milão. O filme Puerta de Hierro, que narra o exílio de Perón na Espanha, traz uma cena comovente. Quando, no dia 3 de setembro de 1971, e após 16 anos, Perón recebe o corpo de Eva, após abrir o caixão o médico lhe relata: “O tórax, esfaqueado em quatro lugares. Os joelhos fraturados. Um dedo decepado. O pescoço, praticamente seccionado. Um grande corte na bochecha e outro no braço, na altura do úmero. Várias facadas na pele. Quatro na testa. O nariz completamente afundado com uma fratura do septo nasal”…

O ator Victor Laplace, magistralmente encarnado como Perón, chora desconsoladamente por ver o que fizeram como o corpo de sua amada. Após sua morte, Perón sofreria o mesmo destino de profanação e mutilação, pois cortariam suas duas mãos.

Andando um dia pela maravilhosa avenida 9 de Julho, a mais larga do mundo, e olhando o gigantesco mural de Evita que o kirchnerismo colocou no coração do centro portenho, um amigo me disse: “Você imagina o tanto que os incomoda ter que ver essas imagens de Eva todos os putos dias?” Foi e é assim. Durante o governo Macri, o mural teve suas luzes apagadas. É claro.

É interessante e assustador quando nos damos conta que uma grande parte da sociedade argentina romantiza genocidas. O documentário Pacto de Silêncio mostra que cidadãos de Bariloche não só sabiam que conviviam com nazistas, como passaram a considerá-los velhinhos inofensivos e “bons vizinhos”

Hoje os “troféus” da guerra são os corpos dos professores e das crianças. A secretária da Educação portenha, Soledad Acuña, que no ano passado falou que as pessoas se tornam professores “depois de fracassar em outras carreiras”, porque “não têm outra oportunidade na vida”, é quem levanta a bandeira da volta às aulas em nome da “defesa da educação”. Acuña, com sua negação e perseguição de professores e famílias na pandemia (existem “listas negras” com os professores que fizeram greve e com as famílias que não mandam seus filhos à escola), faria sentir orgulho ao diretor de sua escola primária e secundária em Bariloche, o nazista Erich Priebke.

É interessante e assustador quando nos damos conta que uma grande parte da sociedade argentina romantiza genocidas. Tem um documentário espetacular, Pacto de Silêncio, sobre quantos dos cidadãos de Bariloche não só sabiam que conviviam com nazistas, como passaram a considerá-los velhinhos inofensivos e “bons vizinhos”.

Os alemães não acharam o mesmo e extraditaram Priebke em 1995. Morreu na Itália aos 100 anos, em prisão domiciliar. Esses “pactos de silêncio” narrados ou documentados pelos cidadãos de Bariloche não são coincidência e sim comportamentos que se repetem na direita argentina por várias décadas. É o mesmo pacto de silêncio dos militares da ditadura de 1976-83, que não falam até hoje o que fizeram com os desaparecidos e onde estão essas centenas de bebês que roubaram aos verdadeiros pais, jovens torturados e mortos por lutar contra o regime.

Quando Evita foi internada no hospital com o câncer no útero que lhe tirou a vida aos 33 anos, várias pichações apareceram em Buenos Aires com a inscrição: “Viva o Câncer”. Hoje parece que o slogan da oposição é “Viva o Vírus”

A necropolítica continua e hoje sua arma é a pandemia. Em um mês, deixaram de jogar sacos pretos simulando mortos na porta da Casa Rosada e passaram a jogar corpos de professores e crianças em necrotérios. A ficção superada pela realidade. O mais distorcido é que, enquanto o discurso fala em “proteger a educação”, o orçamento educacional da cidade de Buenos Aires é o mais baixo em uma década. Durante os governos de Macri-Larreta na cidade, os números despencaram: o orçamento para a educação em 2011 era de 27%; hoje é de 17%.

Na sexta-feira, 7 de maio, morreu por Covid-19 a vice-diretora da escola 24, Silvina Flores, de 53 anos. A causa da morte, segundo o governo portenho: “Acidente de Trabalho”.

Quando Evita foi internada no hospital com o câncer no útero que lhe tirou a vida aos 33 anos, várias pichações apareceram em Buenos Aires com a inscrição: “Viva o Câncer”. Hoje parece que o slogan da oposição é “Viva o Vírus”. Os anos passam, e os que lançaram bombas de aviões militares na Plaza de Mayo em 1955, matando 156 argentinos; os que entre 1976 e 83 mataram 30 mil pessoas e mandaram 649 soldados às Malvinas para a morte; e os que mataram, em 2001, 39 compatriotas, agora levantam a bandeira da pandemia, querendo aumentar o número de mortos, apenas para confrontar um governo popular que rejeitam.

Negacionistas contra infectologistas; política versus ciência.

Vidas versus mortes. Já não é sobre direita nem esquerda, quando claramente se está atacando a saúde pública falsamente em nome da educação. É sim, uma guerra. E como diriam os grandes veículos de comunicação para desinformar e manipular o povo durante a guerra das Malvinas: “Estamos ganhando!”. O discurso da mídia atual é o mesmo.

 

 


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