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Feminismo

Como reconhecer um abusador? Alberto Fernández enganou até o papa

Ex-primeira-dama argentina denuncia que era espancada pelo marido dentro da residência oficial, enquanto ele posava de "feministo"

O ex-presidente Fernández, o papa e o bebê Francisco. No detalhe, a ex-primeira-dama golpeada pelo marido. Foto: reproduzão
Cynara Menezes
09 de agosto de 2024, 12h38

O ex-presidente da Argentina Alberto Fernández deu o nome de Francisco a seu filho caçula, agora com dois anos, em homenagem ao papa. Sorridente, afável, simpaticão, Fernández posava de homem evoluído ao demonstrar publicamente nutrir respeito e afeto pelo primogênito, Estanislao, que é drag queen e usa o nome Dyhzy. Mas, entre quatro paredes, dentro da residência oficial, Alberto Fernández espancava a esposa e mãe do caçula, Fabíola Yañez.

É chocante como uma versão real de O Médico e o Monstro, o clássico de Robert Louis Stevenson. De dia, à vista de todos, o esposo amoroso, o pai dedicado, o presidente preocupado com a saúde da população durante a Covid-19 e cios da igualdade de gênero, com 38% de mulheres em seu ministério. À noite, a sós com a esposa, o monstro: “Você vem batendo em mim há três noites seguidas”, lamenta a ex-mulher de Fernández em uma das mensagens de whatsapp que estão vindo à tona agora, dias após ela ter decidido denunciá-lo.

As fotos que ela mesma enviava ao marido não deixam margem a dúvidas: o olho roxo, o braço cheio de hematomas. Diante das queixas e das imagens, Alberto Fernández se fazia de vítima, como se o agressor não fosse ele: “Me sinto mal fisicamente, não consigo respirar. Por favor, pare”. Este é um comportamento comum entre homens agressores, fazer a vítima se sentir culpada pelos abusos que sofria. Pobre Fabíola! Me sinto solidária à sua dor.

Quando era presidente, em 2020, Fernández lançou uma campanha contra a violência de gênero, onde mostrou indignação com o machismo. “É vergonhoso que alguém sofra violência por ser mulher. Que alguém se creia tão macho que possa dominar sua fêmea. Não se pode tolerar isso mais. Esta campanha é um começo, um projeto ambicioso, mas temos que ser ambiciosos se não queremos mais ser omissos vendo como as mulheres sofrem em mãos dos violentos”, disse.

No Dia Internacional da Mulher do ano passado, ao lado de um coletivo de feministas, Fernández voltou a falar do tema. “Sejamos claros: em sua máxima expressão, o machismo mata”. No twitter, compartilhou uma foto com os pais da vítima e clamou por Justiça para os dois feminicidas que haviam estuprado e matado a adolescente Lucía Pérez em 2016, e cujo julgamento estava prestes a acontecer (ambos foram condenados, um deles a prisão perpétua). Enquanto posava de “feministo”, Fernández distribuía sopapos em sua própria mulher, a primeira-dama do país, na Quinta de Olivos.

Como mulher e progressista, me sinto pessoalmente ludibriada. Caí no conto do homem evoluído. Como pode esse sujeito cínico ter enganado a tanta gente no mundo, a toda a esquerda latino-americana e até mesmo o papa? Este episódio demonstra como é difícil para a sociedade reconhecer um abusador, se em público ele se comporta de uma forma e no privado de outra, como um psicopata. Ainda mais quando se trata de um homem com poder.

Como mulher e progressista, me sinto pessoalmente ludibriada. Caí no conto do homem evoluído. Como pode esse cínico ter enganado a tanta gente, a toda a esquerda latino-americana e até o papa? Enquanto posava de “feministo”, Fernández distribuía sopapos em sua própria mulher na Quinta de Olivos

É desesperador para uma mulher quando ela se dá conta de que é possível sofrer violência durante anos sem que ninguém creia nela, sem que ninguém a escute, sem que ninguém se dê conta, sem que ninguém perceba os sinais. E havia sinais.

Durante a presidência, Alberto disfarçou bem e soltou poucas pérolas machistas, como soltar que “as mulheres vão muito ao cabeleireiro”. Mas foi abertamente racista ao declarar que “os mexicanos vieram dos índios e os brasileiros da selva”, enquanto os argentinos “vieram de barco da Europa”. Teve que se desculpar.

Em janeiro deste ano, Fernández foi levar o filho Francisco para visitar seu homônimo no Vaticano. Não levou Fabíola. Disse que ela tinha feito uma cirurgia de apendicite. Muito esquisito. Como é que você leva seu filho para o papa benzer e não leva a mãe dele?

Todos os que acreditaram em Alberto Fernández têm obrigação de se pronunciar, de Lula ao papa. Não podemos ser coniventes com o abuso e a violência doméstica, não importa onde aconteça, à direita ou à esquerda. Não dá para passar pano para um presidente que espancava a mulher em privado. Não dá. A propósito: seu filho drag queen parou de segui-lo nas redes sociais.

Mas o que mais me entristece nessa história é a impressionante dificuldade de todos e todas nós em reconhecer um homem abusador. Ele pode estar em qualquer canto, nos espreitando, nos ameaçando, nos agredindo, e ao mesmo tempo se colocar no lugar da figura paternal, no lugar daquele que nos protege, inclusive institucionalmente. Que venha a punição exemplar para Alberto Fernández. Pobre Fabíola!

ATUALIZAÇÃO: A ex-presidenta Cristina Kirchner, que rompeu com Fernández durante o mandato dele, já se pronunciou sobre o caso, condenando o ex-aliado.

“As fotos da senhora Fabiola Yañez com hematomas no corpo e no rosto, juntamente com as conversas publicadas que revelam o diálogo entre ela e o ex-presidente, não apenas mostram a surra que recebeu, mas também revelam os aspectos mais sórdidos e sombrios do condição humana”, escreveu Cristina.

“Permitem-nos verificar, mais uma vez e de forma dramática, a situação da mulher em qualquer relação, seja ela num palácio ou num barraco. A misoginia, o machismo e a hipocrisia, pilares sobre os quais se baseia a violência verbal ou física contra as mulheres, não têm bandeira partidária e permeiam a sociedade em todos os níveis.”

 


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Loira Capitalista em 16/08/2024 - 12h45 comentou:

Hipocrisia esquerdista no grau máximo.

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