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Cultura, Feminismo

Da liberdade de ser e se vestir como quiser. Por Vange Leonel

Passei dez anos em São Paulo e, apesar dos vários amigos em comum, nunca tive a sorte de encontrar a dupla dinâmica Vange Leonel & Cilmara Bedaque. Já estava morando em Brasília, em 2010, quando começamos a nossa amizade pelo Twitter. Nos conhecemos pessoalmente depois, compartilhamos as adoradas cervejas e as paixões políticas e intelectuais. […]

Cynara Menezes
01 de agosto de 2014, 20h13
vange

(Vange na Marcha das Vadias, em 2011)

Passei dez anos em São Paulo e, apesar dos vários amigos em comum, nunca tive a sorte de encontrar a dupla dinâmica Vange Leonel & Cilmara Bedaque. Já estava morando em Brasília, em 2010, quando começamos a nossa amizade pelo Twitter. Nos conhecemos pessoalmente depois, compartilhamos as adoradas cervejas e as paixões políticas e intelectuais. Nossa longa amizade estava apenas começando quando foi interrompida pela morte repentina de Vange, aos 51 anos, no último dia 14 de julho.

Ela tinha me falado, menos de um mês antes, da descoberta de um câncer no ovário que se espalhara pelo peritônio. Nunca imaginei que uma doença pudesse ser tão brutalmente fatal. É nestes momentos que a gente se dá conta da fragilidade da vida e de como é preciso estar atento aos queridos, sempre. Nossa amizade estava apenas começando e Vange se foi… Deixando saudades e perplexidade.

Vange era quieta mas bem-humorada, dona de um humor cáustico e peculiar. Ultimamente adorava pintar bigodes nela mesma, só de onda. Um espírito livre, na melhor das encarnações. Meu tipo de gente: cultíssima, afiada, transgressora. Para lembrar dela, publico um dos artigos que escreveu para a revista Sui Generis na segunda metade da década de 1990, e que foram reunidos no livro grrrls – Garotas iradas

No texto, a cantora, escritora, ativista LGBT e imortal líder do bloco soviético fala das delícias de, sendo gay, lésbica ou heterossexual, se vestir do jeito que se está a fim. Usando vestido, calça, paletó, cabelos longos, curtos ou bigodes.

***

Com que roupa?

Por Vange Leonel

“Você é lady ou sapatão?” Era assim que começava uma abordagem clássica nos bares lésbicos mais populares de São Paulo, no final dos anos 1970. Grande parte das garotas homossexuais procurava se encaixar num desses estereótipos: escolhendo vestir-se e portar-se como uma lady, cabelos compridos, roupas femininas e maquiagem, ou então preferindo o outro lado, usando roupas masculinas, camisa social, calça de tergal e cabelos curtos.

Confesso que a primeira vez que me perguntaram se eu era lady ou sapatão eu não soube responder. Foi na mesma noite que conheci uma garota, muito bonita e de cabelos compridos, e que dividiu comigo sua grande angústia: ela adorava seus longos cabelos, mas as amigas fanchonas insistiam para que ela passasse uma tesoura  se ela era sapatona deveria usá-los curtos, diziam.

quiteria

(a Maria Quitéria bigoduda do perfil de Vange no facebook)

Vestir-se como homem e adotar maneirismos masculinos já é coisa bastante antiga. Joana D’Arc teve de cortar os cabelos e vestir-se como soldado para poder comandar suas tropas na batalha de Orleans contra os ingleses. Há mesmo rumores de que, por volta do ano 855 d.C, foi corado um papa que na verdade era uma mulher  a papisa Joana  que também se vestia como homem para driblar os impedimentos da Igreja quanto às mulheres que almejavam o sacredócio.

Mais recentemente, na metade do século passado, a escritora Aurore Dupin encontrou a liberdade ao deixar o marido para viver sozinha em Paris. Vestia-se com roupas masculinas, fumava charutos, acreditava na igualdade entre os séculos e resolveu adotar para si o nome de George Sand, com o qual assinava seus romances.

georgesand

Se vestir-se como homem já não é mais algo transgressor, a mulher que, além disso, cultiva gestos e maneirismos masculinos ainda é bastante estigmatizada. As revistas de moda, de tempos em tempos, trazem mulheres vestidas de terno e gravata, mas são mulheres lindíssimas e hiperfemininas. O estilo sapatão ainda provoca tremores e controvérsia.

Na América dos anos de 1950, as primeiras militantes lésbicas acusavam as sapatonas de pôr mais lenha na fogueira do preconceito, pois faziam com que a sociedade tivesse uma ideia muito estereotipada e distorcida do que era a homossexualidade feminina. Não parece muito diferente do que acontece hoje em dia. Lamentavelmente, existe uma certa resistência, mesmo no meio homossexual, às lésbicas mais masculinizadas, como se existisse uma cartilha a ser seguida. Será que aquele tão valorizado “express yourself” já não vale mais nada?

Foi grande a controvérsia causada quando, no começo da década de 1990, as drag kings vieram à tona e se tornaram mais visíveis, principalmente nos Estados Unidos e na Inglaterra. A fotógrafa lésbica californiana Della Grace, expoente máximo dessa turma, chegou a editar um livro de ensaios fotográficos, Love bites, no qual mostrava muitas drag kings, casais de garotas masculinizadas praticando atos de penetração com dildos e cenas de sadomasoquismo. O livro foi boicotado mesmo nas livrarias dedicadas á comunidade homossexual e Della Grace pôs a boca no mundo, reclamando que o movimento gay queria continuar deixando essas garotas na invisibilidade. Della Grace agora se chama Del Lagrace e assumiu uma identidade andrógina, nem macho, nem fêmea (veja o website delx aqui).

dellagrace

(Del la Grace Volcano, Mo B Dick, Half and Half, 1998)

A liberdade de ser o que se é não pode ser conquistada pela metade. Se lésbicas e gays lutam por maior visibilidade, não devem patrulhar a livre expressão de seus pares. Se Del e sua turma gostam de aplicar esparadrapinhos com hormônios masculinos no queixo para deixar a barba crescer, o que os outros têm com isso?

O travestismo é algo tradicional e fundamental em várias culturas, com forte importância ritual. Na Grécia antiga, era comum raspar a cabeça e aplicar barba postiça nas mulheres recém-casadas até que elas ficassem grávidas. Pajés de tribos norte-americanas vestiam-se de mulher, garotas de tribos africanas faziam sua iniciação na puberdade usando roupas de homens e em algumas ilhas da Indonésia era comum travestir crianças doentes para que ficassem curadas.

Ora, se tantos atos de cura e rituais de passagem estão relacionados ao travestismo, por que querem que as pessoas sigam um padrão de vestimenta e comportamento tão careta, tão quadrado e tão uniforme?

A fantasia é direito inexpugnável de cada um. Mesmo não sendo lady, nem sapatão, nem drag king, nem lesbian chic, é direito de uma mulher ser o tipo que ela quiser, vestir a roupa que preferir e até mesmo ser tudo isso junto ou de um jeito diferente a cada dia da semana.

Ruim é ter que se comportar segundo uma cartilha politicamente correta, mesmo sendo ela ditada por um ativismo gay pretensamente consensual, mas na verdade careta e estreito. A liberdade e a visibilidade são para as borboletas, para os lacinhos cor-de-rosa e também para os sapatões.

grrrls


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(6) comentários Escrever comentário

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Ricardo G. Ramos em 01/08/2014 - 22h37 comentou:

"Liberdade ainda que à tardinha!"

Responder

Vicente Jouclas em 04/08/2014 - 19h24 comentou:

Eu adoraria sair de pijamas, noite e dia!

Responder

    morenasol em 05/08/2014 - 00h46 comentou:

    faz o que tu queres pois é tudo da lei ; )

Lenir Vicente em 09/08/2014 - 20h05 comentou:

Bem lembrado: Toca Raul!!!!!!

Responder

Danilo Henrique em 14/08/2014 - 18h50 comentou:

Um bom texto dona Morena.

A vontade que mais se sobressai no ser humano é a vontade de impedir a vontade alheia!

Que cada um faça da sua vontade a máxima lei, sem que a ação dessa vontade anule o outro

Responder

Daniela em 20/06/2018 - 20h19 comentou:

Queria às vezes não ser homem e nem mulher, simplesmente nenhum dos dois. Um ser neutro, talvez, ficar na minha.

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