Socialista Morena
Politik

Meu caro amigo Francisco, sem a cachaça ninguém segura esse rojão

Estamos no sal, santo papa! Você precisa entender melhor a alma brasileira, precisa ouvir mais seu xará, o Chico

Presidenta Dilma entrega camiseta da seleção ao papa em Roma em 2014. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
Cynara Menezes
27 de maio de 2021, 19h30

Meu caro amigo, me perdoe, por favor…

Sou fã do papa Francisco. Ele é uma das grandes figuras públicas de um mundo em frangalhos, iluminando o caminho com posturas surpreendentemente progressistas, em defesa do meio ambiente e dos mais pobres, como se espera de um líder religioso. Mas, como humano que é, o papa também está sujeito ao erro. E a “piada” que fez com o Brasil, neste momento que estamos vivendo, foi no mínimo infeliz.

Diante de um grupo de padres brasileiros no Vaticano, Bergoglio gracejou: “O Brasil não tem salvação. Muita cachaça e pouca oração”. Como se a raiz de nossos problemas estivesse em um suposto excesso de cachaça, de farra, combinado à falta de fé, religiosidade. Me perdoe, Francisco, mas o que vivemos aqui é justamente o contrário. Carecemos de alegria e nos sobra fanatismo religioso, inclusive onde a religião não deveria nunca se imiscuir: na política.

A fala brincalhona do papa poderia ter sido dita por um Malafaia da vida, ou até mesmo por Bolsonaro. Não foram poucas as vezes, aliás, que a extrema direita lançou contra Lula o epíteto de “cachaceiro” (teve até correspondente do New York Times que fez isso). A cachaça, nosso aguardente mundialmente aclamado, sempre foi alvo de um mal disfarçado preconceito de classe. Pobres tomam cachaça, ricos bebem uísque. Daí a referência a Lula, o “analfabeto”, como “cachaceiro”. Obviamente que, nas redes sociais, a piada de Francisco foi usada pelos bolsonaristas para atingir o petista.

Sei que o bem-humorado Bergoglio não fez a piada com má intenção. Mas eu esperava do papa argentino que, em vez de repetir clichês a respeito do Brasil e dos brasileiros, se pronunciasse sobre a desgraça que caiu sobre o nosso país, e ela não se chama “cachaça” e sim Jair Bolsonaro. Temos mais de 450 mil mortos pela Covid-19 e esperava conforto e indignação de um líder espiritual como o papa. Não zombaria.

O bem-humorado Bergoglio não fez a piada com má intenção. Mas eu esperava do papa argentino que, em vez de repetir clichês a respeito do Brasil e dos brasileiros, se pronunciasse sobre a desgraça que caiu sobre o nosso país, e ela não se chama “cachaça” e sim Jair Bolsonaro

Estamos no sal, santo papa! Vivemos tempos tão obscuros que a cachaça, na verdade, tem sido um refúgio –assim como, para milhões de brasileiros, católicos e evangélicos, as orações. Não é reza que está faltando, tem até reza sobrando, e partindo de gente que só parece cristão nas palavras, não nas ações. “Deus já deve estar de saco cheio”, como diriam Almir Guineto e Zeca Pagodinho.

É preciso entender melhor a alma brasileira, Francisco. Bebemos, sim, quando estamos felizes e também para espantar a tristeza. Não é a cachaça que nos rouba a salvação, mas os maus políticos, a ignorância, os falsos curandeiros e os falsos profetas –que, essa pandemia mostrou, vicejam em nosso país como baratas.

Francisco, você precisa ouvir mais seu xará, o Chico.

…O que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que, também, sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão…

 


Apoie o site

Se você não tem uma conta no PayPal, não há necessidade de se inscrever para assinar, você pode usar apenas qualquer cartão de crédito ou débito

Ou você pode ser um patrocinador com uma única contribuição:

Para quem prefere fazer depósito em conta:

Cynara Moreira Menezes
Caixa Econômica Federal
Agência: 3310
Conta Corrente: 23023-7
(7) comentários Escrever comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião da Socialista Morena. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Fabiano Oliveira em 27/05/2021 - 19h48 comentou:

Seu texto me lembrou versos de um samba antigo: Seu vigário da capela bebe o seu vinho na taça/ estrangeiro bebe uísque com muito charme e muita graça/ Para o povo brasileiro, por favor uma cachaça!

Responder

Vera Lúcia em 28/05/2021 - 08h12 comentou:

Bom dia Cynara.
Sou um pouco avessa a redes sociais. Gostaria de conversar com você sobre a possibilidade de dar um depoimento em relação à situação que vivemos.
Como posso me comunicar contigo?

Responder

Evanize Pavanelli Valsi em 29/05/2021 - 13h38 comentou:

Concordo com você. O Papa poderia ter evitado comentário tão inconveniente. Vivemos tempos muito obscuros e não podemos aceitar essas pechas.

Responder

Bernardo Santos Melo em 29/05/2021 - 19h44 comentou:

Relevemos Francisco , entendi a CACHAÇA de Bergóglio como referindo-se à ALIENAÇÃO de um povo GENÔGIZADO , iludido por um despresidente que adotou a imunidade de rebanho para MATAR em massa e VENDER CLOROQUINA & CIA .
Por outro lado , hoje o POVO OROU em ALTO e BOM TOM : FORA GENÔ !
FRANCISCO hoje deve estar FELIZ , afinal aos quatro cantos de nosso país assistimos o POVO ACORDANDO ATIVO FRENTE aos IMPROPÉRIOS NEONAZIFASCiSTAS do PSICOPATA MILICIANO que VEM EMBRIAGANDO o PAÍS .

Responder

Nelson M. Mendes em 29/05/2021 - 19h47 comentou:

Creio que o papa fez uma galhofa pueril, na linha “perco o amigo, mas não perco a piada”. Nem ele acredita no que disse. Ele SABE que o problema brasileiro não é excesso de cachaça e carência de oração. Num outro contexto, a piada-rimada poderia provocar pelo menos um sorriso. Mas, neste momento…

Responder

Eugênio BH em 31/05/2021 - 20h08 comentou:

Cynara,

esse francisxo deve de tê é fumado um

só de birra e só de sarro,

que também sem um cigarro

ninguém segura esse rojão!

Merda de país!

Responder

Deixe uma resposta

 


Mais publicações

Vídeos

O dia em que os fotógrafos se recusaram a fazer imagens do ditador


Em 1984, inconformados com o desrespeito de Figueiredo com seu trabalho, repórteres fotográficos baixaram as câmeras à sua passagem

Politik

Ruralista, Maggi diz que fusão de Agricultura com Meio Ambiente prejudica o agronegócio


Atual titular da pasta e seu colega do MMA lamentaram decisão de Bolsonaro salientando que será ruim para os negócios do Brasil