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Muito além da sonegação: os “valores em comum” entre Neymar e Bolsonaro

Counter-Strike, masculinidade tóxica, violência, homofobia... O presidente e o "menino Ney" são mais parecidos do que a gente imaginava

Neymar homenageia o CS:GO com "rifle" ao marcar o 100º gol pelo PSG, em maio. Foto: reprodução
Cynara Menezes
25 de outubro de 2022, 17h55

Na “superlive” da qual participou com Jair Bolsonaro, o cantor sertanejo Gusttavo Lima, políticos e outras subcelebridades do Brasil reacionário no último sábado, o jogador Neymar, do PSG e da seleção brasileira, justificou sua declaração de voto ao presidente dizendo que os dois possuem “valores” em comum.

“O que me motivou de expor, de lutar, são os valores que o presidente carrega que são bem parecidos comigo, com minha família, com tudo que a gente preza”, disse Neymar. “Então, é a família que a gente preza, o nosso povo, são as nossas crianças. Então, eu acho que isso me fez me posicionar. Eu vi que precisava desta força, precisava me posicionar porque eu sei que ajudaria muita gente.”

Fiquei intrigada. Que valores teria “o menino Ney”, como ainda é chamado apesar de ter 30 anos, em comum com Bolsonaro? Neymar nasceu em 1992, 7 anos após o final da ditadura; seria um fã tardio do coronel Brilhante Ustra, acusado de torturar Dilma Rousseff e “homenageado” pelo então deputado Bolsonaro na votação do impeachment? Quem sabe?

Negacionista o jogador não é. Ao ser vacinado contra a Covid-19, ao contrário do presidente, que não só não se imunizou como colocou sua carteira de vacinação em sigilo de 100 anos, Neymar publicou: “Depois de tanta espera, chegou a minha vez. Que felicidade… Espero que tudo volte ao normal o mais rápido possível e que não só o meu país BRASIL mas o mundo inteiro possa estar vacinado”.

 

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Seria o jogador da seleção brasileira um defensor de armas de fogo, como o presidente e seus apoiadores? Neymar nunca apareceu falando em armas, até porque pegaria mal para sua imagem junto às crianças e consequentemente com os patrocinadores.

Mas virtualmente é outra história. O craque do futebol é um grande fã do videogame Counter-Strike: Global Offensive e possui uma coleção de skins (entre armas, agentes, luvas e facas) avaliada em quase meio milhão de reais. Volta e meia, ao fazer gols, ele presta homenagem ao game fazendo um “sinal de arminha” utilizando a bandeira do escanteio como “rifle”.

Em 2017, durante um jogo das eliminatórias contra o Paraguai pela seleção, se especulou que ele seria punido pela FIFA por fazer o gesto, mas nada aconteceu. Não lembra Bolsonaro usando um tripé para declarar que queria “fuzilar a petralhada”?

O “rifle” de Neymar no jogo contra o Paraguai em 2017. Foto: reprodução

O violento CS:GO, game onde “terroristas” combatem “contra-terroristas”, parece ser um elo entre os bolsonaristas. O jogador profissional Gabriel Toledo, o FalleN, parça de Neymar, também é eleitor de Bolsonaro e já falou pessoalmente com o presidente ao telefone.

Não por coincidência, no final do mês de outubro o Brasil sediará pela primeira vez o campeonato mundial de Counter-Strike, o Intel Extreme Masters Rio 2022, que é também o primeiro “major” do game na América do Sul. O próprio presidente já postou nas redes sociais um vídeo seu jogando um game que simula tiros.

Bolsonaro se aproximou dos gamers ao reduzir os impostos sobre as importações dos jogos quatro vezes desde que assumiu, a última delas em junho deste ano. Tanto o presidente quanto os jogadores criticam o pagamento de impostos. “Quem me conhece sabe que eu considero impostos algo absurdo e abusivo. Pra mim, imposto é roubo”, disse Gustavo Sanches, o Davy Jones, dono de um dos maiores canais de games do youtube no país, o “Gameplayrj”.

(Leia mais sobre as ligações do bolsonarismo com o mundo dos gamers nesta ótima reportagem de Henrique Araújo no jornal O Povo.)

Bolsonaro já declarou, em entrevista de 1999, que sonega “tudo o que é possível”. Mais tarde, já candidato a presidente, disse ter sido “força de expressão”, como faz com tudo que pega mal. Defendeu “fuzilar FHC”? Força de expressão. “Pintou um clima” para se referir a meninas venezuelanas? Força de expressão, claro.

E Neymar… Bem, Neymar é acusado de sonegação de impostos tanto aqui quanto na Espanha. No Brasil, possuía uma dívida com a Receita Federal avaliada em 188 milhões de reais, que, após uma negociação durante o governo golpista de Michel Temer, em 2017, acabou sendo 95% perdoada pelo fisco brasileiro. O jogador ainda questiona os 8 milhões de reais restantes, e recorreu ao presidente em 2019 para tratar do assunto.

O pai dele chegou a ser recebido pelo ministro da Fazenda de Bolsonaro, Paulo Guedes, e o então secretário especial da Receita, Marcos Cintra. Neymar pai publicou no instagram a foto do encontro com o comentário: “A Neymar Sport e Marketing se orgulha de estar entre os 10 mil maiores contribuintes do nosso país”.

 

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E é o pai de Neymar que está assumindo toda a responsabilidade pelos problemas na transferência do jogador do Santos para o Barcelona, em 2013. A empresa DIS, que possuía 40% dos direitos sobre o jogador, argumenta que não recebeu o valor legítimo a que tinha direito, alegando que a quantia real foi ocultada.

Segundo o advogado da DIS, Paulo Nasser, “o custo real da transação foi de 82 milhões de euros, e apenas 17 milhões apareceram como a transferência oficial”. No tribunal, na semana passada, o jogador declarou: “Só assinei o que meu pai me disse”.

Outro ponto em comum entre o presidente e o craque é a masculinidade tóxica. Assim como Bolsonaro já foi processado por assediar moralmente a deputada Maria do Rosário e a jornalista Patricia Campos Mello (e perdeu), Neymar teve seu contrato rompido pela Nike no ano passado após o jogador “não cooperar” em uma investigação sobre assédio sexual, segundo a fabricante de artigos esportivos.

Uma funcionária da Nike acusa o brasileiro de tentar forçá-la a fazer sexo oral nele em seu quarto de hotel durante uma viagem de trabalho a Nova York, em 2016. Ela teria ajudado a levar Neymar, totalmente embriagado, para seus aposentos, e o atleta, então, abaixou a cueca e tentou impedi-la de sair do quarto, como noticiou o Wall Street Journal. A denúncia da funcionária foi feita ao chefe de recursos humanos e ao conselho geral da empresa em 2018 e a investigação começou em 2019. O jogador e seu pai negam as acusações.

“Estamos criando um monstro”, disse o treinador René Simões em 2010. A adesão ao político de extrema direita 12 anos depois soa como a confirmação da profecia. Bolsonaro e Neymar têm mesmo tudo a ver um com o outro

Um caso rumoroso envolvendo o craque bolsonarista foi a acusação de estupro feita pela modelo Najila Trindade, em 2019, após um encontro em Paris, na França. Os dois haviam se conhecido através de mensagens trocadas no instagram. Nada foi provado contra o jogador e a acusação foi arquivada.

Mas Neymar continuou a paquerar desconhecidas na rede social: em julho, uma moça estrangeira revelou ter recebido um convite do jogador para ir encontrá-lo em Paris, exatamente como havia acontecido com Najila.

A homofobia de Jair Bolsonaro também encontra em Neymar um aliado. Em 2020, ele foi flagrado num áudio enviado a seu grupo de amigos chamando o namorado da mãe, Tiago Ramos, de “viadinho”. A “sugestão” feita pelos amigos do craque foi dar “um castigo” ao rapaz, enfiando uma vassoura no seu ânus.

Neymar acabou denunciado ao Ministério Público por homofobia. Em março do ano passado, o autor da denúncia, Agripino Magalhães, suplente de deputado estadual pelo PSB e ativista LGBT, acusou o jogador de tentar suborná-lo para que ele retirasse a queixa. Segundo Agripino, um representante de Neymar teria oferecido 350 mil reais a ele para desistir do processo.

Dois meses mais tarde, o jogador faria um post em apoio a uma campanha do PSG contra a homofobia.

Detalhe do post de Neymar com camisa do PSG

O descontrole nas reações e a indisciplina também unem Bolsonaro e seu craque de estimação. Se o presidente é capaz de mandar uma repórter calar a boca numa entrevista e dizer para outra que “queria dar o furo”, Neymar já xingou um torcedor e teve que ser contido para não ir para cima dele durante os festejos do ouro olímpico, em 2016.

No ano seguinte, o jogador foi realmente às vias de fato, ao socar um torcedor do Rennes após a derrota do PSG na Copa da França. Três partidas de gancho foi a única punição que Neymar recebeu.

Além de torcedores, Neymar agrediu verbalmente dois juízes, insatisfeito com a arbitragem em jogos dos quais nem atuava. Na primeira vez, em 2010, foi processado e condenado a pagar uma indenização de 15 mil reais ao árbitro Sandro Meira Ricci por tê-lo xingado nas redes sociais: “Juiz ladrão, vai sair de camburão”, postou. Em 2019, novamente atacou um juiz após a derrota do PSG para o Manchester United por 3 a 1 na Champions League. O tribunal da UEFA acabou suspendendo-o por três partidas na seguinte edição do torneio.

Lá atrás, ainda no Santos, após ter xingado o treinador Dorival Júnior por não tê-lo deixado bater um pênalti, o que culminaria na demissão do técnico, o então treinador do Atlético de Goiás, René Simões, soltou a célebre frase sobre Neymar: “Estamos criando um monstro”.

“Poucas vezes vi alguém tão mal educado desportivamente. Sempre trabalhei com jovens e nunca vi nada assim. Está na hora de alguém educar esse rapaz, ou vamos criar um monstro. Estamos criando um monstro no futebol brasileiro”, disse Simões.

A adesão ao político de extrema direita 12 anos depois soa como a confirmação da profecia. Bolsonaro e Neymar têm tudo a ver um com o outro. Os “valores” são os mesmos.

 


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João Ferreira Bastos em 26/10/2022 - 08h35 comentou:

Essa não é uma reportagem

É uma “capivara” bem extensa desse criminoso

Responder

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