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Cultura

“Não necessitamos que o império nos dê nada de presente”, escreve Fidel Castro

Como não republicar este texto de Fidel Castro sobre Obama? É genial. Saiu segunda-feira no Granma e repercutiu em vários jornais do mundo. Traduzi para vocês. Ansiosa para ver o que ele vai escrever sobre o show dos Rolling Stones. Hahaha. Original aqui. ***    O irmão Obama    Por Fidel Castro Os reis da […]

Cynara Menezes
29 de março de 2016, 22h25
obamafidel

(O sorriso de Obama não convenceu o velho Fidel…)

Como não republicar este texto de Fidel Castro sobre Obama? É genial. Saiu segunda-feira no Granma e repercutiu em vários jornais do mundo. Traduzi para vocês. Ansiosa para ver o que ele vai escrever sobre o show dos Rolling Stones. Hahaha. Original aqui.

***

   O irmão Obama
   Por Fidel Castro

Os reis da Espanha nos trouxeram os conquistadores e donos, cujas pegadas ficaram nos pedaços circulares de terra doados aos buscadores de ouro nas areias dos rios, uma forma abusiva e vergonhosa de exploração cujos vestígios se podem avistar de cima, em muitos lugares do país.

O turismo hoje consiste, em grande parte, em mostrar as maravilhas das paisagens e saborear as delícias alimentares de nossos mares, sempre que se compartilhe com o capital privado das grandes corporações estrangeiras, cujos lucros, quando não atingem bilhões de dólares per capita, não são dignos de nenhuma atenção.

Já que me vi obrigado a mencionar o assunto, devo acrescentar, principalmente para os jovens, que poucas pessoas se dão conta da importância de tal condição neste momento singular da história humana. Não direi que não há mais tempo, mas não hesito em afirmar que não estamos suficientemente informados, nem vocês nem nós, dos conhecimentos e das consciências que deveríamos ter para enfrentar as realidades que nos desafiam. A primeira coisa a se levar em conta é que nossas vidas são uma fração histórica de segundo que é preciso dividir, além do mais, com as necessidades vitais de todo ser humano. Uma das características deste é a tendência à supervalorização de seu papel, o que contrasta, por outro lado, com o número extraordinário de pessoas que encarnam os sonhos mais elevados.

Ninguém, no entanto, é bom ou mau por natureza. Nenhum de nós foi projetado para o papel que deve assumir na sociedade revolucionária. Em parte, nós, cubanos, tivemos o privilégio de contar com o exemplo de José Martí. Me pergunto, inclusive, se tinha que cair ou não em Dos Rios, quando disse “para mim é chegada a hora”, e disparou contra as forças espanholas entrincheiradas em uma sólida linha de fogo. Não queria regressar aos Estados Unidos e não havia quem o fizesse regressar. Alguém arrancou algumas folhas de seu diário. Quem carregou essa pérfida culpa, sem dúvida obra de algum intrigante inescrupuloso? Sabe-se de diferenças entre os chefes, mas jamais de indisciplinas. “Quem tentar apropriar-se de Cuba recolherá o pó de seu solo empapado em sangue, se não perecer na luta”, declarou o glorioso líder negro Antonio Maceo. Máximo Gómez também é reconhecido como o chefe militar mais disciplinado e discreto de nossa história.

Olhando de outro ângulo, como não se admirar com a indignação de Bonifácio Byrne quando, da distante embarcação que o trazia de volta a Cuba, ao avistar outra bandeira junto à da estrela solitária, declarou: “Minha bandeira é aquela que jamais foi mercenária…”, e acrescentou a seguir uma das mais belas frases que jamais escutei: “Mesmo desfeita em pequenos pedaços continuará a ser minha bandeira… Nossos mortos, erguendo os braços, ainda saberão defendê-la!…”. Tampouco esquecerei as inflamadas palavras de Camilo Cienfuegos naquela noite, quando, a várias dezenas de metros, bazucas e metralhadoras de origem norte-americana, em mãos contrarrevolucionárias, apontavam para o terraço em que estávamos. Obama nasceu em agosto de 1961, como ele mesmo explicou. Mais de meio século transcorreu desde aquele momento.

Mas vejamos como pensa hoje nosso ilustre visitante: “Vim aqui para deixar para trás os últimos vestígios da guerra fria nas Américas. Vim aqui estendendo a mão de amizade ao povo cubano”. Em seguida, uma enxurrada de conceitos, inteiramente inéditos para a maioria de nós: “Ambos vivemos em um novo mundo colonizado por europeus”. Prosseguiu o presidente norte-americano. “Cuba, assim como os Estados Unidos, foi constituída por escravos trazidos da África; como os Estados Unidos, o povo cubano tem ancestrais em escravos e escravistas”.

As populações nativas simplesmente não existem na mente de Obama. Tampouco diz que a discriminação racial foi varrida pela Revolução e que a aposentadoria e o salário de todos os cubanos foram decretados por ela antes de que o senhor Barack Obama completasse 10 anos. O odioso costume burguês e racista de contratar seguranças para que os cidadãos negros fossem expulsos dos centros de recreação foi varrido pela Revolução Cubana. Ela poderia passar à história pela batalha que travou em Angola contra o apartheid, pondo fim à presença de armas nucleares em um continente de mais de um bilhão de habitantes. Não era esse o objetivo de nossa solidariedade, mas ajudar os povos de Angola, Moçambique, Guiné Bissau e outros do domínio colonial fascista de Portugal.

latuffraul

Em 1961, apenas um ano e três meses após o triunfo da Revolução, uma força mercenária com canhões e infantaria blindada, equipada com aviões, foi treinada e acompanhada por barcos de guerra e porta-aviões dos EUA, atacando nosso país de surpresa. Nada poderá justificar aquele traiçoeiro ataque que custou a nosso país centenas de baixas, entre mortos e feridos. Da brigada de assalto pró-ianque, em nenhuma parte consta que escapou um só mercenário. Aviões ianques de combate foram apresentados diante das Nações Unidas como cubanos amotinados.

É bastante conhecida a experiência militar e o poderio daquele país. Na África acreditaram, da mesma forma, que a Cuba revolucionária seria facilmente posta fora de combate. O ataque das brigadas motorizadas da África do Sul racista pelo Sul de Angola os levou até as proximidades de Luanda, a capital angolana. Ali se iniciou uma luta que se prolongou não menos que 15 anos. Eu nem sequer falaria disto, a não ser pelo dever elementar de responder ao discurso de Obama no Grande Teatro de Havana Alicia Alonso.

Não vou tampouco dar detalhes, somente enfatizar que ali se escreveu uma página honrosa da luta pela libertação do ser humano. De certa forma, eu desejava que a conduta de Obama fosse correta. Sua origem humilde e sua inteligência natural eram evidentes. Mandela estivera preso durante toda a vida e se havia  convertido em um gigante da luta pela dignidade humana. Um dia, chegou às minhas mãos um exemplar do livro que conta parte da vida de Mandela e, oh, surpresa!: estava prefaciado por Barack Obama. Folheei rapidamente. Era incrível o tamanho da minúscula letra de Mandela tomando notas. Valeu a pena ter conhecido homens como ele.

Sobre o episódio da África do Sul devo assinalar outra experiência. Eu estava realmente interessado em conhecer mais detalhes sobre a forma como os sul-africanos tinham adquirido as armas nucleares. Tinha apenas a informação muito precisa de que não passavam de 10 ou 12 bombas. Uma fonte segura seria o professor e pesquisador Piero Gleijeses, que havia redigido o texto Missões em conflito: Havana, Washington e África 1959-1976; um trabalho excelente. Eu sabia que ele era a fonte mais segura do ocorrido e lhe disse isso; ele me respondeu que não tinha mais falado do assunto, porque no texto havia respondido às perguntas do companheiro Jorge Risquet, que fora embaixador ou colaborador cubano em Angola, muito amigo seu. Localizei Risquet, já em outras importantes ocupações; estava terminando um curso que lhe faltavam várias semanas para concluir. Essa tarefa coincidiu com uma viagem bastante recente de Piero a nosso país; eu havia avisado a ele que Risquet já tinha certa idade e que sua saúde não era boa. Poucos dias depois, ocorreu o que eu temia. Risquet piorou e faleceu. Quando Piero chegou, não havia nada a fazer, exceto promessas, mas eu já havia obtido a informação relacionada a esse armamento e a ajuda que a África do Sul racista tinha recebido de Reagan e Israel.

Não sei o que Obama terá a dizer agora sobre esta história. Ignoro se sabia ou não, embora seja muito duvidoso que não soubesse absolutamente nada. Minha modesta sugestão é que reflita e não trate agora de elaborar teorias sobre a política cubana.

Há uma questão importante:

Obama pronunciou um discurso em que utiliza as palavras mais açucaradas para dizer: “Já é hora de esquecermos o passado, deixemos o passado, olhemos para o futuro, olhemos juntos, um futuro de esperança. Não será fácil, haverá desafios, e a eles vamos dar tempo; mas minha estadia aqui me dá mais esperanças do que podemos fazer juntos, como amigos, como família, como vizinhos, juntos”.

Supõe-se que cada um de nós corria o risco de um infarto ao escutar estas palavras do presidente dos Estados Unidos. Depois de um bloqueio impiedoso que já dura quase 60 anos… E os que morreram nos ataques mercenários a barcos e portos cubanos, o avião comercial repleto de passageiros que explodiu em pleno vôo (em 1976, leia mais aqui), as invasões mercenárias, os múltiplos atos de violência e de força?

Que ninguém tenha a ilusão de que o povo deste nobre e abnegado país renunciará à glória e aos direitos, e à riqueza espiritual que ganhou com o desenvolvimento da educação, da ciência e da cultura.

Advirto, além disso, que somos capazes de produzir os alimentos e as riquezas materiais de que necessitamos com o esforço e a inteligência de nosso povo. Não necessitamos que o império nos dê nada de presente. Nossos esforços serão legais e pacíficos, porque é nosso o compromisso com a paz e a fraternidade de todos os seres humanos que vivemos neste planeta.

 

 


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