Socialista Morena
Cultura

O dia em que Caetano foi obrigado pela ditadura militar a cantar na Globo

No "mea culpa" de 2013, a emissora se disse arrependida pelo "apoio editorial" ao regime; mas sua parceria com os militares foi muito além disso

O semblante sisudo de Caetano, ao lado de Bethânia, no programa Som Livre Exportação, da Globo. Foto: revista Manchete/reprodução
Cynara Menezes
28 de novembro de 2021, 14h51

Em seu mea culpa por ter apoiado a ditadura militar, 49 anos após o golpe de 1964, as organizações Globo disseram ter sido um erro o “apoio editorial” ao regime. Modéstia: a televisão da família Marinho não deu só “apoio editorial”, foi partícipe da ditadura, sócia dos generais na encenação de farsas que visavam transmitir “normalidade” ao país. Uma delas foi a apresentação de Caetano Veloso na emissora durante uma curta visita que o cantor fez ao Brasil, em janeiro de 1971, quando estava exilado em Londres. Para dar a impressão de que havia partido por decisão própria e não porque sofria perseguição política, Caetano foi obrigado pelos militares a cantar na TV Globo.

O próprio cantor contou essa história na autobiografia Verdade Tropical, de 1997, festejada na mídia comercial com pompa e circunstância, mas, claro, sem dar nenhum destaque ao trecho onde Caetano denuncia a cumplicidade da emissora com seus algozes. Na matéria especial de 8 minutos dedicada pelo dominical Fantástico ao livro, apresentada por Pedro Bial e Carla Vilhena, os trechos pinçados, lidos por Gil, Maria Bethânia, Oscar Niemeyer, Jorge Mautner e Tom Zé, são de crítica à esquerda –além de uma eulogia à prata da casa, Roberto Carlos, que aparece quase como um herói contra a ditadura.

Jornalisticamente falando, o que conta Caetano no livro sobre ser forçado a cantar numa emissora de tevê pelo regime deveria ter sido a manchete de qualquer reportagem que se preze, no mínimo pelo ineditismo e inusitado da coisa: os militares atuaram como “diretores” informais da TV Globo, com carta branca para “convidar” artistas a se apresentar nos programas da casa. Senão…

Em janeiro de 1971, Dona Canô e Seu Zeca, pais do cantor, festejariam 40 anos de casados, as “bodas de rubi” do casal. E, segundo Caetano, Maria Bethânia conseguiu com os militares uma permissão para que o músico retornasse provisoriamente de Londres, onde já estava exilado havia quase dois anos, para comemorar a data em Salvador. Ao chegar no Galeão, Caetano foi apartado de sua mulher, Dedé, enfiado num fusca e levado por militares a um apartamento onde foi estabelecida uma das condições para sua estadia: aparecer em dois programas da Globo, o Som Livre Exportação e a Buzina do Chacrinha.

“Eles me levaram para um apartamento na avenida Presidente Vargas e ali me interrogaram e ameaçaram por seis horas. Tive muito medo, muita angústia. Diante de um gravador de rolo ligado (onde terão ido parar essas fitas?), os homens que me levaram –mais os que estavam à minha espera (todos se identificaram como oficiais, mas usavam roupas civis) exigiram que eu compusesse uma canção de propaganda da Transamazônica, a estrada que o governo militar começava a construir e que era um dos símbolos do Brasil Grande”, contou o cantor.

“Quando voltei de Londres a primeira vez, com uma permissão provisória para ficar aqui para o aniversário de casamento dos meus pais, fui obrigado pelos próprios militares a fazer duas apresentações na TV Globo“, contou Caetano a Geneton Moraes Neto na própria GloboNews

Caetano diz que conseguiu se desvencilhar de compor a tal canção transamazônica, mas não das outras condições impostas para sua estada de um mês em sua própria terra. “Eu teria que seguir logo para Salvador, onde devia permanecer (e de onde não podia sair) até a volta para Londres; estava proibido de cortar o cabelo ou fazer a barba enquanto estivesse em território nacional (temiam que parecesse obra deles); não podia recusar entrevistas com a imprensa, mas teria que dá-las por escrito e submetê-las a leitura prévia por parte de agentes federais que me vigiariam durante toda a estadia; finalmente, era obrigado a fazer duas apresentações na TV, uma no programa do Chacrinha e outra no Som Livre, Exportação, o novo musical da TV Globo, para que tudo parecesse normal”, escreveu.

O Som Livre Exportação, que esteve na grade da emissora entre dezembro de 1970 e agosto de 1971, seria denunciado mais tarde por um de seus apresentadores, Ivan Lins (ao lado de Elis Regina), como uma tentativa de cooptação pela Globo dos músicos jovens que haviam despontado nos FIC (Festivais Universitários da Canção) e integravam o MAU (Movimento Artístico Universitário) –e da juventude que os admirava.

“Começou em 1971, depois do quinto festival universitário, que venci com O Amor é Meu País. O grupo que defendeu a música, todo egresso da Jaceguai, tinha um uniforme, um colete azul. A Globo ficou impressionada: pareceu aos diretores que era a primeira coisa com cara de ‘grupo’ desde a Tropicália. Bom, a Globo havia cooptado gente que havia militado em política de esquerda, como o Solano Ribeiro, por exemplo, que tinha experiência de organizar os festivais da TV Record, em São Paulo. Íamos lá para conversar sobre o programa e ‘eles’ nos mostravam filmes sobre a invasão da Checoslováquia, a Hungria… e diziam: ‘Precisamos fazer um programa revolucionário.’ Estavam usando-nos, já que representávamos uma facção que incomodava o governo. Nos usando para distrair a juventude, como fizeram com o futebol, para afastar os meninos da política. Chegaram ao ponto de serem condescendentes conosco em relação à droga. Todos fumavam maconha”, contou Ivan em entrevista ao jornalista Mauro Dias publicada no Estadão de 6 de dezembro de 1997.

Em entrevista ao repórter Geneton Moraes Neto, em 2006, na própria GloboNews, no lançamento do álbum , Caetano volta a contar o episódio da coação dos militares para que se apresentasse na emissora. “Quando eu voltei de Londres a primeira vez, com uma permissão provisória para ficar aqui para o aniversário de casamento dos meus pais, vigiado pela Polícia Federal e pelo Exército, com os dias contados para ficar e ter que voltar para o exílio, fui obrigado pelos próprios militares a fazer uma apresentação na TV Globo, no programa Som Livre Exportação e outra no Chacrinha. Duas apresentações”, afirmou o cantor. “Eu fui então fazer essas duas apresentações.”

Embora a entrevista de Caetano Veloso a Geneton escancare que foi obrigado a se apresentar nos dois programas, a versão oficial da Globo é que Caetano tinha feito os shows “ao retornar de Londres, onde residia” –na verdade, ele tinha se visto obrigado a sair do Brasil após passar dois meses preso em 1969 e outros cinco em prisão domiciliar; esta tentativa de normalizar o exílio dos músicos da MPB como se estivessem apenas passando uma temporada fora foi uma constante na imprensa do período. “Em 1971, Caetano Veloso fez duas apresentações especiais no Som Livre Exportação antes de retornar a Londres, onde então residia”, diz a emissora em seu portal de “memórias”.

Em 30 de janeiro de 1971, o jornal O Globo noticiou que Caetano tinha sido “contratado” pela TV Globo para apresentações no Som Livre Exportação e na Buzina do Chacrinha. O exílio de Gil e Caetano na Inglaterra é tratado como uma opção profissional. “Quando Caetano e Gilberto Gil partiram para Londres, duas correntes se formaram no movimento musical brasileiro: uma, favorável à viagem, acreditava num estrondoso sucesso de ambos; outra, pessimista, preconizava o fracasso total da dupla. Alguns falavam, até, em desemprego, fome e miséria”, diz o texto.

A versão oficial da Globo é que Caetano tinha feito os shows “ao retornar de Londres, onde residia”. Esta tentativa de normalizar o exílio dos músicos da MPB como se estivessem apenas passando uma temporada fora foi uma constante na imprensa do período

“Caetano Veloso veio de Londres só para rever os pais e sua amada Bahia. Chacrinha e os produtores do Som Livre Exportação conseguiram, porém, demovê-lo de seus planos de ficar apenas repousando antes do regresso à Inglaterra”, diz o jornal da família Marinho em 6 de fevereiro de 1971, tratando a apresentação como uma “conquista” dos produtores do programa e não uma ordem expressa dos militares.

Não há informações sobre se a apresentação na Buzina do Chacrinha de fato ocorreu. O Globo e outros jornais falam que Caetano ia gravar com o Velho Guerreiro, mas em nenhum deles há fotos ou referências sobre se isso realmente se concretizou. O que é citado na imprensa é um jantar oferecido pelo apresentador ao cantor exilado, com fotos de um Chacrinha bronzeado, sorridente, camisa florida aberta no peito e Caetano com o cenho cerrado.

Caetano e Chacrinha em 1971. Foto: reprodução

Já a aparição no Som Livre Exportação teve ampla cobertura pela mídia, que não destacou, porém, o evidente semblante de contrariedade do músico. Seu visível incômodo é descrito como “timidez”: “Sempre tímido, Caetano esperou nos bastidores, junto com a irmã Bethânia, o momento de sua apresentação”, diz a revista Manchete. No livro e na entrevista a Geneton, Caetano inclusive se queixa da “decepção” da plateia, que esperava vê-lo cantar um rock, e em inglês, mas o cantor fala que sempre achou Stairway to Heaven, lançada pelo Led Zeppelin naquele ano, “cafona”.

“A platéia do Som Livre era constituída de jovens cariocas que nada sabiam a respeito de minha prisão e tinham uma idéia pop-rock da contribuição que eu dera à modernização da MPB. Os garotos nus da cintura para cima e as garotas de cabelos longos e lisos ovacionaram meu nome. Eles mostraram esperar de mim uma versão mais madura e mais sofisticada daquilo que estavam aprendendo a cultuar: uma fusão do pop inglês com o samba-jazz carioca”, conta Caetano em Verdade Tropical.

Caetano e Bethânia no Som Livre Exportação. Foto: revista Manchete

“Entrei apenas com meu violão e cantei Adeus, batucada, o genial samba de Sinval Silva que fora a mais bela gravação de Carmen Miranda. Nada podia ser mais fiel à história tropicalista: um contraste gritante com o samba-jazz e com a fusion, uma referência a Carmen Miranda (e justamente com um samba em que a grande exilada da música popular brasileira dizia que ia embora chorando, mas com o coração sorrindo, pois ia deixar todo mundo valorizando a batucada ): a garotada ficou perplexa e decepcionada. Passou despercebido o fato de que era a primeira vez que eu me apresentava na TV brasileira tocando meu violão.”

O jornalista Nelson Motta, em seu livro Noites Tropicais, compra a história disseminada pela “memória” global, como se Caetano tivesse vindo ao Brasil para fazer a apresentação. “Recebeu uma autorização especial do governo para participar do programa e passar uns poucos dias na Bahia, onde fui entrevistá-lo para a TV Globo e matar saudades. A entrevista foi meio frustrante: quase tudo o que eu gostaria de perguntar ele não poderia responder”, escreveu.

Além de ter que se apresentar na Globo, a ditadura impôs a Caetano que só desse entrevistas por escrito. Este fato só foi mencionado pelo jornal Correio da Manhã, que havia apoiado o golpe, mas se voltou contra a ditadura em seguida e fechou as portas em 1974

A cobertura feita pela imprensa adesista (a imprensa contrária à ditadura foi destruída) da passagem de Caetano Veloso pelo Brasil é um caso à parte. Só o Correio da Manhã mencionou que o músico dera apenas entrevistas por escrito em sua passagem pelo país, mesmo sem explicar a razão porque ele assim agia. O jornal havia apoiado o golpe contra João Goulart, mas se voltou contra a ditadura militar instaurada em seguida e pagou o preço: sofreu atentados a bomba, prisão de diretores e asfixia econômica até seu fechamento, em 1974.

“A qualquer jornal, tanto os locais como os do Sul do país, Caetano impôs uma condição para conceder entrevistas: que as perguntas viessem escritas em papel timbrado e que as respostas também fossem escritas. Ele guardaria uma cópia assinada de cada. Ainda assim, algumas perguntas se negou a responder”, diz a edição de 8 de janeiro de 1971 do jornal. “Nem responde por que para um artista como ele sair do Brasil é uma imposição, a única alternativa.”

Uma das perguntas que Caetano não respondeu foi sobre o que teria querido dizer com a frase “nós estamos mortos”, em referência a ele e Gilberto Gil, publicada numa das cartas que enviou ao Pasquim em 1969, quando já estava no exílio. “Eu agora quero dizer aquele abraço a quem quer que tenha querido me aniquilar porque o conseguiu. Gilberto Gil e eu enviamos de Londres aquele abraço para esses caras. Não muito merecido porque agora sabemos que não era tão difícil assim nos aniquilar. Mas virão outros. Nós estamos mortos”, escreve.

A carta de Caetano no Pasquim. Foto: reprodução

O cantor ficara indignado ao se deparar com uma foto sua e de Gil diante do Big Ben em Londres, como se fossem meros turistas, publicada pela revista Fatos & Fotos, ao lado de um texto sobre o assassinato de seu conterrâneo Carlos Marighella pelo terrorismo de Estado. “Hoje quando eu acordei eu dei de cara com a coisa mais feia que já vi na minha vida. Essa coisa era a minha própria cara”, diz a carta. “Meu coração está cheio de um ódio opaco.”

Caetano e Gil em Londres. Foto: Fatos&Fotos/reprodução

Em 2012, durante o lançamento do disco Abraçaço, em que fez uma canção em homenagem a Marighella, Caetano disse, em entrevista à Folha de S.Paulo, que ninguém no Brasil, nem seus amigos, conseguiram entender o recado que ele tentou passar na carta ao Pasquim. “Eles morando aqui e tal não sentiram o impacto que era ter eu e Gil e eu aparecendo na capa da revista depois de exilados, sorrindo, e o Marighella morto. O texto todo era sobre isso. Você vê que quando a gente está fora, a gente não pode imaginar como é a cabeça das pessoas que estão dentro, porque ninguém sacou. Eu recebi várias cartas de gente dizendo: você está deprimido porque está aí, não sei quê, e de fato estava, mas tinha escrito isso porque eu tinha visto uma capa em que eu e Gil estávamos sorrindo no exílio e o Marighella morto a tiros nas ruas de São Paulo, e eu gostava de Marighella, então achei aquilo um negócio meio terrível, assim. Escrevi e ninguém entendeu.”

Naquele verão de 1971 era preciso calar. E obedecer. “Não sou mudo, mas não posso falar no momento”, havia disparado Caetano em sua chegada, e voltou a repetir a frase algumas vezes durante a estadia no país. Depois de passar 20 dias na Bahia, curtindo a praia, a família, os amigos, descansando, e “respondendo” a entrevistas por escrito, no começo de fevereiro o cantor foi cumprir a ordem dada pelos militares de se apresentar na Globo. O programa Som Livre Exportação foi gravado dia 4. No dia 7 de fevereiro, Caetano Veloso voltaria a seu exílio londrino, de onde só retornaria definitivamente em janeiro do ano seguinte.

 


Apoie o site

Se você não tem uma conta no PayPal, não há necessidade de se inscrever para assinar, você pode usar apenas qualquer cartão de crédito ou débito

Ou você pode ser um patrocinador com uma única contribuição:

Para quem prefere fazer depósito em conta:

Cynara Moreira Menezes
Caixa Econômica Federal
Agência: 3310
Conta Corrente: 23023-7
PIX: [email protected]
(7) comentários Escrever comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião da Socialista Morena. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Roberto Gervitz em 28/11/2021 - 18h15 comentou:

Que excelente artigo, Cynara Menezes. Como não li o livro de Caetano, não conhecia tais fatos da maior importância para a história vergonhosa da grande imprensa brasileira. Parabéns!

Responder

    Cynara Menezes em 28/11/2021 - 19h20 comentou:

    obrigada!

Bernardo Santos Melo em 28/11/2021 - 22h19 comentou:

Cynara sempre reveladora e luminosa .
E agora a Plim-Plim saca o juiz suspeito para mais uma vez fazer a cabeça dos incautos .
Pelo sim e pelo não , juntos estamos de olho na continuação infame do golpe midiático em constante andamento contra o bom jornalismo .

Responder

VINICIUS KRAINER em 29/11/2021 - 09h45 comentou:

Parabéns pelo conteúdo e escrita impecável. Gostei muito!

Responder

Alessandro Batista Batella em 29/11/2021 - 15h56 comentou:

Parabéns.
Excelente artigo.

Responder

Luís Carlos Kerber em 29/11/2021 - 18h24 comentou:

Precisamos sempre nos lembrar que Rede Globo e Ditadura Militar são sinônimos. Parabéns para a Socialista Morena por usar documentos, fotos e reportagens feitas pela própria Rede Globo para mostrar o quanto ela sempre foi Ditadura Militar.

Responder

Marilene em 30/01/2022 - 13h53 comentou:

Excelente matéria. Mas sempre me perguntei : quem arcava com os custos das despesas dos exilados? Comiam adequadamente? Podiam conversar com pessoas desse país que lhe serviu de exílio?

Responder

Deixe uma resposta

 


Mais publicações

Direitos Humanos

Ao atacar pai de Michelle Bachelet, Bolsonaro faz mais um elogio à tortura


Opositor ao golpe contra Allende, o brigadeiro Alberto Bachelet morreu após meses sendo torturado pelo regime de Pinochet

Politik

2019, o ano em que meus piores pesadelos se concretizaram (e foi só o…


Não vejo perspectivas de que tenhamos um "feliz ano novo"; me agarro às alegrias pessoais e sugiro que façam o mesmo