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Direitos Humanos

O fazendeiro branco (e comunista) que pagou a fiança de Angela Davis em 1972

Rodger McAfee deu a propriedade como garantia e teve que se armar e esconder a família após libertar a ativista da prisão

O fazendeiro McAfee, seus filhos e sua mulher com Angela Davis em 1972. Foto: Barney Peterson/The Chronicle
Cynara Menezes
26 de novembro de 2019, 21h52

A escritora e ativista dos direitos civis dos negros Angela Davis por pouco não foi parar na câmara de gás nos EUA em 1972. Angela era acusada de ser cúmplice da tentativa frustrada de libertação de três negros que estavam sendo julgados pela suposta participação no assassinato de um guarda na prisão de Soledad, na Califórnia, onde ficaram conhecidos como “The Soledad Brothers”. As três armas utilizadas no ataque haviam sido compradas por ela. O juiz, que foi sequestrado para ser barganhado pelos prisioneiros, e o líder Jonathan Jackson, de 17 anos, assim como dois dos prisioneiros, foram baleados e mortos pela polícia.

Reagan era governador da Califórnia e Nixon era presidente dos EUA… Todo o aparato do estado estava montado contra mim. Eles tinham todos os recursos e o FBI, e a polícia queria me mandar para a câmara de gás para marcar posição

Após dois meses em fuga, disfarçada e com o cabelo black power domado sob uma peruca, Angela foi capturada em um hotel em Nova York. Passaria mais de um ano na prisão, parte deste tempo na solitária. Lá, conheceu e teve um relacionamento amoroso com George Jackson, um dos “Soledad Brothers” de cuja campanha pela libertação participara. Jonathan era o irmão caçula dele e tinha servido como guarda-costas de Angela, daí as armas em seu nome.

Além disso, os Black Panthers, grupo que integrou, defendiam que os negros deveriam se armar para se defender, como fazem os brancos –não por acaso, nesta época a National Riffle Association, principal lobista das armas nos EUA, passou a defender o controle delas. Em 1967, a Califórnia se tornaria o Estado com as leis mais restritivas em relação ao porte de armas de fogo simplesmente porque a direita não queria ver armas nas mãos dos negros, só dos brancos.

Angela é capturada. Foto: David Pickoff

A relação de Angela Davis com George Jackson seria usada pelos promotores no julgamento, como se a ativista tivesse organizado o ataque “por amor”. George foi assassinado por um guarda da prisão em 1971, um ano antes de que sua inocência fosse provada: os dois “Soledad Brothers” remanescentes foram absolvidos.

O documentário Libertem Angela Davis (2012), dirigido por Shola Lynch, que estreia no canal Curta! na sexta, 29 de novembro, conta a história da campanha que se organizou no mundo todo para que Angela não fosse condenada à morte. Aos 26 anos, ela havia sido declarada “inimiga pública” por dois extremistas de direita poderosos, o governador da Califórnia (e futuro presidente) Ronald Reagan e o então presidente Richard Nixon, até hoje ídolos do conservadorismo brasileiro.

Reagan articulou a expulsão de Angela da Universidade da Califórnia em Los Angeles em 1970, “acusada” de ser comunista. Estudante brilhante desde a infância no Alabama, ela havia sido contratada, aos 25, para ser professora assistente de Filosofia na UCLA quando o governador orquestrou pessoalmente sua demissão –ela só voltaria a ensinar na universidade em 2014. Nixon a colocaria na lista dos 10 mais procurados do FBI, e cumprimentaria o serviço de inteligência por capturar “a perigosa terrorista Angela Davis”.

O cartaz de “procura-se” de Angela Davis

“No meu caso, quando eu penso sobre o fato de que Ronald Reagan era governador da Califórnia e Richard Nixon era presidente dos EUA… Todo o aparato do Estado estava montado contra mim. Eles tinham todos os recursos e o FBI, e a polícia realmente queria me mandar para a câmara de gás para marcar posição. Não fazia tanta diferença quem eu era. Eu era uma figura conveniente para que eles pudessem mandar o recado de que eles iriam oprimir qualquer tentativa de revolução ou libertação”, disse Angela no documentário The Black Power Mixtape.

Várias tentativas de estabelecer uma fiança para que Angela Davis acompanhasse o processo em liberdade foram feitas, sempre negadas pela Justiça, já que ela estava sendo acusada de três crimes puníveis com a pena capital: conspiração, sequestro e assassinato. Finalmente, em 1972, a pena de morte foi extinta na Califórnia, mudando a situação dela, e uma fiança de 102.500 dólares foi estabelecida. Começou então uma corrida para encontrar alguém que pagasse a quantia; faltavam apenas cinco dias para o julgamento.

Aretha Franklin havia prometido pagar a fiança de Angela, “fosse 100 mil ou 250 mil dólares”. O problema era que a cantora estava fora do país e era impossível fazer a transferência. É quando entra em cena a improvável figura do fazendeiro Rodger McAfee

Dois anos antes, a cantora Aretha Franklin havia prometido pagar a fiança de Angela, “fosse 100 mil ou 250 mil dólares”. “A cadeia é um inferno. Se há alguma Justiça em nossos tribunais, vou vê-la livre, não porque acredito em comunismo, mas porque ela é uma mulher negra e ela deseja liberdade para o povo negro”, justificou Aretha. “Eu tenho o dinheiro. Ganhei ele do povo negro, eles me tornaram financeiramente capaz de tê-lo, e quero usá-lo de uma maneira que ajude nosso povo.”

O problema era que Aretha estava fora do país, nas Antilhas, quando a fiança foi estabelecida. Era impossível fazer a transferência bancária. É quando entra em cena a improvável figura do fazendeiro milionário Rodger McAfee, um comunista branco de Caruthers, Califórnia, que deu parte de sua propriedade de 1700 acres, onde criava gado e cultivava alfafa, como garantia para levantar o dinheiro que era preciso para libertar Angela Davis.

McAfee, sua mulher Darlene e dois de seus fihos. Foto: reprodução

Quando a notícia veio a público, McAfee passou a receber ameaças de morte pelo telefone; o fazendeiro, que nunca havia usado arma, comprou um fuzil AR-15 e escondeu a mulher e os cinco filhos. A propriedade passou a ser vigiada 24 horas por voluntários armados.

Se a intolerância nos EUA está me forçando a usar armas por fazer o que acho ser o correto, imagina a pressão sobre o povo negro que está lutando por mudança e progresso

“Sua família estará morta antes do final de semana”, dizia uma das ameaças. McAfee era chamado de “porco comunista” e “comunista sujo”, entre outros “elogios”. Nove de suas vacas foram envenenadas com estricnina e se formou um boicote dos moradores locais contra o leite que produzia, que persistia meses depois da libertação de Angela.

Rodger não se intimidou. “Eu não acredito no que está acontecendo. Se a intolerância nos EUA está me forçando a usar armas por fazer o que acho ser o correto, imagina a pressão sobre o povo negro que está lutando por mudança e progresso”, disse ele ao The New York Times.

McAfee e seu pai, Ray. Foto: reprodução/LIFE

Aos 33 anos, McAfee explicava que enxergava o comunismo “como Cristo ensinou que o comunismo deve ser, uma irmandade entre os homens, tal como está no Evangelho”. No início dos anos 1960, ele havia desafiado a lei norte-americana ao viajar para Cuba para dar conselhos a Fidel Castro sobre como melhorar a agricultura da ilha, o que lhe valeu algumas semanas na prisão na volta. “Quanto mais eu vejo o egoísmo dos norte-americanos, mais eu gosto das minhas vacas. Elas dão alguma coisa em troca. O capitalista somente toma e não dá nada”, ele dizia.

Ao The New York Times, ele explicou por que se uniu à causa da libertação de Angela. “Esta é a coisa mais importante que poderia ser feita no mundo agora. É uma questão humanitária, conectada com substituir o sistema capitalista por uma forma de cooperativa socioeconômica muito mais eficiente.” No documentário de Shola Lynch, McAfee aparece dizendo que pagou a fiança levado por suas convicções como norte-americano: “Angela Davis sempre defendeu a liberdade das pessoas, a liberdade de expressão, e esse é o american way of life”.

“Quanto mais eu vejo o egoísmo dos norte-americanos, mais eu gosto das minhas vacas. Elas dão alguma coisa em troca. O capitalista somente toma e não dá nada”, ele dizia

Em 1981, o fazendeiro, que já havia fundado mais de uma dezena de cooperativas de leite na Califórnia e no México, chegou a ir à União Soviética para buscar um financiamento de 20 milhões de dólares para seu próximo projeto: “El Nido” (“o ninho”, em espanhol), uma fazenda cooperativa onde os pobres pudessem viver e trabalhar. “Não queremos que isso se transforme numa disputa internacional e não há política envolvida. Queremos apenas o melhor acordo para financiar este projeto”, afirmou.

Angela Davis e Rodger McAfee se encontraram poucas vezes após a absolvição dela de todas as acusações, em 1972. Ele perderia o filho mais novo em um acidente suspeito, e morreria na mesma estrada, num acidente de carro provocado por um motorista bêbado que vinha na direção contrária, em 2006.  Sua propriedade, porém, continuou progredindo bem. Os deuses do comunismo, pelo visto, abençoaram a boa ação: o filho dele, Mark McAfee, é o maior produtor de leite cru orgânico dos Estados Unidos, do qual se tornou ativista.

Segundo ele, o leite cru orgânico, não pasteurizado, é capaz de curar asma em crianças e não causa a alergia a lactose tão comum hoje em dia. “A agroindústria está nos matando. Estamos ficando cronicamente doentes, obesos, doentes e imunodeprimidos. A revolução do leite cru cresce fora dessa desordem. As pessoas estão dizendo que não querem comidas que foram esterilizadas ou pasteurizadas ou exposta à radiação. Querem comida de verdade, integral, biodiversa, rica em enzimas naturais”, defende.

Assim como seu avô era socialista e o pai, o comunista que pagou a fiança de Angela Davis, Mark McAfee é chamado de “o rebelde da comida”. “Passei anos fugindo do meu pai, mas olha onde acabei, um aventureiro como ele, tentando subverter a forma como produzimos nosso leite e nossa comida. Do meu jeito, sou mais radical do que ele era. Talvez mais perigoso do que ele era, porque eu sei o que estou tentando mudar”, disse Mark em depoimento ao jornalista Mark Arax.

O irmão dele, Andrew, estava a seu lado no funeral do pai, mas a ausência de dois filhos foi sentida: Eric e Adam, atualmente multimilionários capitalistas, nunca perdoaram Rodger por colocar a atividade política como prioridade. Após o pagamento da fiança de Angela Davis, os meninos sofriam bullying dos colegas, que os chamavam de “commies” (comunistas). Mark, porém, contemporizou. “Acho que se eles estivessem aqui, diriam a você que o incrível sucesso deles tem a ver com o DNA que herdaram do meu pai.”

 


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(5) comentários Escrever comentário

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Rogério Alberto em 27/11/2019 - 08h55 comentou:

Incrível história! Roger McAfee foi um verdadeiro herói. Vê-se que sofreu bastante (e não se abateu) com a maldade do povo direitista branco cristão estadunidense, cujo pensamento hipócrita e retrógrado persiste até hoje, até mesmo em repúblicas de bananas como o Brasil. Esse medo do comunismo é um medo de reconhecer um sistema, no seu cerne, muito mais justo e humano do que o capitalismo predatório.

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Dan Moche Schneider em 28/11/2019 - 21h10 comentou:

Adoro esses artigos! Gracias Socialista Morena. Excelente trabalho.

Responder

Paulo Roberto Martins em 29/11/2019 - 10h39 comentou:

Excelente matéria! Fatos que a história oficial nunca mostrará!

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Denise em 30/11/2019 - 08h33 comentou:

Que bom vc existir, Cynara

Estou tentando doar. Mas tive problema com a criação de um email. Qq coisa me escreva
Bj

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Lucas Cantino em 06/12/2019 - 20h06 comentou:

História maravilhosa , vi no documentário !

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