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Amizades surpreendentes: o lisérgico Timothy Leary e o visionário Marshall McLuhan

Conheci a obra do teórico canadense Marshall McLuhan (1911-1980) nos anos 1980, graças a um professor da faculdade, e fiquei fascinada, como qualquer um ficaria. O cara era simplesmente um gênio. Sua ideia de que o mundo se tornaria uma “aldeia global” (global village) foi a mais acertada previsão sobre o que seria a internet, […]

Cynara Menezes
27 de maio de 2015, 20h35
luhandaumain

(Marshall McLuhan em 1966. Foto: Henri Daumain/LIFE)

Conheci a obra do teórico canadense Marshall McLuhan (1911-1980) nos anos 1980, graças a um professor da faculdade, e fiquei fascinada, como qualquer um ficaria. O cara era simplesmente um gênio. Sua ideia de que o mundo se tornaria uma “aldeia global” (global village) foi a mais acertada previsão sobre o que seria a internet, mais de 30 antes de que ela se tornasse realidade.

Me parece incrível a atualidade de McLuhan, que via a tecnologia como uma “extensão” dos sentidos humanos: o telefone como uma extensão dos ouvidos, a TV como uma extensão dos ouvidos e dos olhos, o carro como uma extensão dos pés e “a próxima mídia” (a internet?) como uma extensão da consciência.

Seu livro The Medium is The Massage (“O Meio É a Mensagem”, um trocadilho com message e mass age), escrito em parceria com o designer gráfico Quentin Fiore, foi publicado em 1967 e se transformou num clássico instantâneo. O visual do livro é pura arte pop.

„The Medium is the Massage“ Marshall Mc Luhan, Quentin Fiore Photo by Tony Rollo for Newsweek Bantam Books 1967 Cover

Enquanto McLuhan teorizava sobre as extensões tecnológicas, o psicólogo, filósofo e neurocientista Timothy Leary (1920-1996) pesquisava as extensões da mente, ou melhor, as expansões da percepção, utilizando a droga mais hippie de todas, o ácido lisérgico (LSD). Se há um “papa” dos alucinógenos, este papa é Leary, que acreditava no poder terapêutico do ácido. Perseguido pelo governo reacionário de Richard Nixon, que o considerava “o homem mais perigoso da América”, Leary foi preso mais de 20 vezes em vários países. E é na temporada que passou na prisão entre 1973 e 1976 que nossos dois personagens se encontram.

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(Leary sendo preso em 1972)

Leary e McLuhan, na verdade, se admiravam mutuamente desde o princípio dos anos 1960. Consta que foi uma dica de McLuhan a frase que se tornou célebre com Leary: Turn On, Tune In, Drop Out (algo como plugue-se, ligue-se, viaje). O papa do LSD, por sua vez, considerava “o meio é a mensagem”, de McLuhan, a mais importante sacada dos anos 1960. Quando Leary estava preso, McLuhan foi um dos intelectuais convocados a se manifestar em favor de sua liberdade, ao lado de nomes como Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Arthur Miller e Anais Nin, entre outros. Em 1973, Leary foi entrevistado em Folsom Prison.

Condenado a 95 anos de prisão (!), em 1976 ele recebeu o perdão do governador da Califórnia e foi solto. A carta de McLuhan em favor de Timothy Leary só foi revelada no ano passado por seu arquivista Michael Horowitz. Nela, o canadense compara o amigo americano ao herói grego da Odisséia, chamando-o de “o Ulisses da viagem interior”.

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“Caro Dr. Horowitz:

Que tal Tim como o Ulisses da viagem interior? Ou o Homero da era eletrônica? A tecnologia, em virtude de sua relação imediata com nosso sistema nervoso, é ela mesma uma espécie de viagem interior, com as drogas fazendo o papel de sub-trama ou modo alternativo. Pode ser, portanto, que daqui a alguns anos se descubra que o pânico sobre as drogas psicodélicas se relaciona menos com a química do que com os terrores ocultos que as pessoas sentem na presença da tecnologia eletrônica. O mesmo ocorreu no princípio da era do rádio, nos anos 1920, que inspirou uma onda de pânico do álcool.

Os homens acústicos se inclinam a ser alcoólatras… Isto é, todas as sociedades pré-letradas, e também as pós-letradas, como nós. Foi no TV Guide do dia 15 de setembro de 1973 que apareceu um artigo explicando a descoberta experimental do caráter viciante da TV como meio. Nada a ver com os programas. Tim poderia ser um mártir deste poder viciante oculto da TV. Tony Schwartz, em The Responsive Chord (Doubleday, Anchor book, 1973), sugere que a TV ‘utiliza o olho como um ouvido’.

Meus melhores desejos,

Marshall McLuhan” (tradução minha)

Ao contrário do que se possa imaginar, McLuhan nunca experimentou um “doce”. Sua viagem era puramente intelectual. Em 1969, em entrevista à revista Playboy, ele respondeu diretamente à pergunta, com seu habitual bom humor.

Playboy: O senhor tomou ácido alguma vez?

McLuhan: Não, nunca. Sou um observador nestes assuntos, não um participante. Fiz uma operação ano passado para remover um tumor que estava expandindo meu cérebro de uma maneira menos prazerosa, e durante minha prolongada convalescença não estou autorizado a usar nenhum estimulante mais forte que café. Ai de mim! Alguns meses atrás, no entanto, quase fui acusado de porte de drogas. Em um avião voltando de Vancouver, onde uma universidade tinha me concedido um título de doutor honoris causa, respondi a um colega que me perguntou de onde eu vinha. ‘De Vancouver, pegar meu LL.D. (doutor honoris causa, na sigla em inglês)’. Notei que um passageiro ficou me olhando com uma expressão estranha, e, quando cheguei ao aeroporto de Toronto, dois guardas me empurraram até um quartinho e começaram a remexer minha bagagem. ‘Você conhece Timothy Leary?’, um deles perguntou. Respondi que sim e isto pareceu revelador para ele. ‘Onde está o bagulho? Nós sabemos que você disse a alguém que foi a Vancouver pegar um LL.D.’ Após um longo diálogo, consegui convencê-lo de que LL.D. não tinha nada a ver com expansão da consciência  na verdade é justo o oposto – e fui liberado.

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(Leary em seu último ano de vida. Foto: Robert Sebree)

Em suas últimas décadas de vida, Timothy Leary se dedicava mais às pesquisas sobre tecnologia do que sobre o ácido lisérgico. Foi, inclusive, uma das primeiras pessoas a ter um blog, e dizia que “o PC é o LSD dos anos 1990”. Em 1993, três anos antes de morrer, Leary gravou um vídeo onde saudava o amigo McLuhan como “um profeta”. “Ele nos disse que o objetivo da evolução era usar os meios de comunicação para criar o que todos nós queremos: a aldeia global, a linguagem que pode ser entendida por cada ser humano, por todos os cérebros.”

Assista o vídeo, com legendas em espanhol.

(Se você quiser saber mais sobre a amizade entre estes dois gênios, clique aqui para acessar os arquivos de Timothy Leary.)

 

 


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