Socialista Morena
Feminismo

Quantos homens que oferecem rosas no Dia da Mulher as oprimem todos os dias?

8 de Março não é dia de receber cumprimentos, é dia de manifestar apoio, prestar solidariedade à nossa luta, que acontece a vida inteira

Detalhe de pôster búlgaro contra a violência doméstica. Foto: Denitza Tchacarova/CC
Cynara Menezes
08 de março de 2022, 15h50

A franco-peruana Flora Tristán (1803-1844), precursora do socialismo e que influenciou Karl Marx e Friedrich Engels (é dela a frase “trabalhadores do mundo, uni-vos” que aparece no Manifesto Comunista), dizia, sobre a condição feminina: “A mulher é o proletário do proletário”. Isso porque até mesmo o homem mais oprimido ainda pode chegar em casa e oprimir sua companheira.

Confesso a vocês que tenho certa antipatia pelo Dia Internacional da Mulher. Entendo que é um dia importante de luta, mas me irritam as flores e a xaropada que acompanham a data. Cumprimentar pelo quê? O que temos a celebrar? Me parece extremamente hipócrita, até porque suspeito que muitos dos que oferecem rosas no Dia da Mulher oprimem alguma de nós todos os dias.

Um levantamento do Fórum de Segurança Pública divulgado na segunda-feira 7 de março aponta que mais de 100 mil meninas e mulheres sofreram violência sexual entre março de 2020 e dezembro de 2021; um estupro a cada 10 minutos e um feminicídio a cada 7 horas. Mas nem precisa estatística, basta olhar os portais de notícias diariamente para perceber a calamidade da situação da mulher em pleno século 21.

Comemorar o quê? Que as mulheres continuem a ganhar 20,5% menos que os homens? Que diminuiu a participação delas no mercado de trabalho na pandemia? Que o desemprego entre negras seja o dobro que o dos homens brancos? Que Damares seja ministra da Mulher?

Em janeiro, em Campo Grande (MS), Adailton Freixeira da Silva, de 46 anos, torturou até a morte, com choques elétricos e pauladas, Francielle Guimarães Alcântara, de 36 anos, na frente do filho de 1 ano, após mantê-la em cárcere privado durante um mês, sem poder ter contato com nenhum familiar. Francielle foi encontrada com sinais de estrangulamento, perfurações nas costas, dentes quebrados e os cabelos cortados.

Em fevereiro, em Pimenta Bueno (RO), Gabriel Henrique Santos Souza Masioli, de 28 anos, esfaqueou e estrangulou Antonieli Nunes Martins, de 32 anos, porque ela estava grávida e ele não queria assumir a paternidade. Os dois eram colegas de trabalho e Gabriel era casado. Ele compareceu à delegacia e foi solto porque já havia passado o período de flagrante, mas acabou tendo a prisão decretada.

Na quinta-feira dia 3 de março em Natal (RN), Manuela Josino Miranda, de 32 anos, foi morta com um tiro na cabeça pelo ex-marido, Maciel Ramalho, de 40, que se suicidou em seguida. Não bastasse a violência contra Manuela, Maciel ainda atingiu psicologicamente outras três, a mãe dela, e as filhas do casal, de 6 e 8 anos, ao atirar na cabeça da moça diante delas.

No último final de semana, em Jaru (RO) Laurinda Aparecida Gomes, de 51 anos, chegou a ligar para a irmã pedindo que o filho dela fosse comprar maracujá para “acalmar” o marido, pois ele estaria muito nervoso. Quando a irmã chegou para acudi-la, Laurinda já havia sido morta a facadas pelo companheiro.

“Abra seus olhos: uma campanha contra a violência de gênero”. Denitza Tchacarova/CC

No domingo dia 6 de março em Três Lagoas (MS), José Barbosa dos Santos, de 44 anos, matou a tiros sua mulher, Crislaine Célia Martins, de 34 anos, e a sobrinha dela, Mariane Cristiana Martins Fonseca, de 22, em outro apartamento do mesmo condomínio. José acusava Crislaine de traição e matou Mariane por ser “cúmplice”. Outras duas mulheres foram alvo dos tiros dele, mas conseguiram fugir.

Repito: comemorar o quê? Que, em pleno 2022, as mulheres continuem a ganhar 20,5% menos que os homens ainda que ocupando a mesma função? Que os afazeres das mulheres na América Latina e Caribe aumentaram ainda mais na pandemia e no entanto diminuiu a participação delas no mercado de trabalho, um retrocesso de mais de 10 anos? Que o desemprego entre as mulheres negras seja o dobro que o dos homens brancos? Que Damares Alves seja ministra da Mulher?

Nada há a celebrar. E quem reclama dos cumprimentos, das flores, dos bombons e das mensagens melosas, como se fosse o Dia dos Namorados, ainda é chamada de “chata”. Dia Internacional da Mulher não é dia de receber presente, é dia de manifestar apoio, prestar solidariedade à nossa luta. E a luta da mulher é todo dia, a vida inteira, não um dia só no ano para limpar a barra dos hipócritas.

Do quê adianta dar rosas em público e distribuir espinhos no privado?

 


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(2) comentários Escrever comentário

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Loira Capitalista em 08/03/2022 - 21h18 comentou:

Há poucos anos mulheres nem dirigiam na Arábia Saudita, hoje dirigem… Não tínhamos Lei Maria da Penha anos atrás, hoje temos… Não se discutia diferença salarial anos atrás, hoje se discute … enfim, há muito o que se comemorar, e há muito o que se fazer… como em tudo na vida.

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JUSTINO AMORIM DA SILVA em 09/03/2022 - 09h15 comentou:

Excelente Artigo.
Todavia estamos ainda distantes de uma igualdade de gênero, de uma convivência harmoniosa entre homens e mulheres. Às Instituições sejam elas Familiar, Públicas, Privadas, religiosas ou Sociais ainda impera o Machismo, o Patriarcalismo, a Misoginia, a Lesbiofobia etc.

Há que rompermos com o preconceito, com a violência contra a Mulher presente na Sociedade. Para isso é necessário mudar a mentalidade masculina com relação as Mulheres, precisamos romper paradigmas.

Faz se necessário um processo educacional que perpassa por todas as Instituições de forma a desconstruir o Machismo e o Preconceito arraigado na mente masculina.
Temos muito forte em nossas instituições uma violência Máscula Institucionalizada, é preciso mudar esta realidade e abrirmos espaços para um Projeto de convivência mútua com respeito, inclusão e valorização das mulheres nos espaços Institucionais bem como em toda a Sociedade.

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