9 coisas que não existiriam mais se a esquerda acabasse, como quer a direita

Publicado em 10 de fevereiro de 2017
florestaamazônica

(Para a direita, a Amazônia é só um desperdício de terra. Foto: Neil Palmer/CIAT)

A direita brasileira, sobretudo a direita extrema, vive dizendo que é preciso “eliminar a esquerda” do mundo. Mas o que aconteceria se só existisse o pensamento de direita? Teríamos um planeta e uma sociedade bem diferentes do que existe hoje. Junto com a esquerda, algumas coisas simplesmente acabariam. Veja uma pequena lista delas.

1. A floresta amazônica  Que “pulmão do mundo” que nada! Se dependesse da direita, a Amazônia já tinha se transformado num pasto e aquela madeira toda “sem uso” já teria virado móveis há muito tempo. São os “chatos” de esquerda que impedem que isto aconteça. Tanto é que foi só a direita voltar a governar o Brasil que já estão avaliando “reduzir as florestas” na Amazônia sem nem sequer ouvir seu próprio ministério do Meio Ambiente. Um projeto de lei do governo federal pretende reduzir em 35% as áreas das unidades de conservação, demarcadas por decretos da presidenta deposta Dilma Rousseff.

2. Os índios – A direita despreza e odeia os indígenas ao ponto de, em alguns casos, recorrer a capangas para eliminá-los. A questão da direita com os índios é que eles possuem o que mais ela quer e valoriza: terras. Para disfarçar que gostariam de exterminar os índios para ficar com suas terras, muitos direitistas defendem que os índios “se civilizem”, ou seja, passem a viver nas cidades –e vendam suas terras a preço de banana. Para a esquerda, a decisão de deixar de morar nas aldeias –assim como as terras– pertence exclusivamente aos indígenas.

3. As sementes originais – Se dependesse da direita, uma só empresa, a Monsanto, forneceria todas as sementes do planeta. O monopólio das sementes é visto pelos direitistas como algo natural, decorrente do “livre mercado”. Por que é importante manter as sementes originais? Porque as sementes transgênicas são estéreis, não se reproduzem, ou seja, os agricultores não podem reaproveitar as sementes geradas a partir do crescimento das plantas, tendo que todos os anos pagar por novos grãos. Esta dependência das “donas” das sementes tem levado os agricultores mais pobres até mesmo ao suicídio. E é a esquerda que tem feito a defesa da preservação das sementes originais.

4. Os direitos humanos – A direita hierarquiza os direitos humanos. Para ela, alguns humanos são melhores do que os outros : “direitos humanos para humanos direitos”, dizem. Isto significa, em termos reais, que só existiriam direitos humanos basicamente para os ricos e os brancos; negros, crianças de rua, menores infratores, prostitutas, presidiários e sem-teto, por exemplo, não teriam direito aos direitos humanos, porque estes “cristãos” estabeleceram que estes seres humanos não são humanos. A esquerda vê diferente: todos os seres humanos devem ser iguais e ter os mesmo direitos, independentemente da raça, classe social, gênero, religião ou origem.

5. A liberação feminina – Vixe, se dependesse da direita todas as mulheres seriam belas, recatadas e do lar. E, se forem independentes, têm que se manifestar contra o feminismo, claro (como se ser feminista não fosse sinônimo de ser independente). A esquerda acha que, enquanto houver disparidade entre homens e mulheres, sempre será necessário falar em feminismo e em lutas como a prevenção e punição da violência de gênero.

6. Os direitos LGBTs – Os gays viraram alvo da extrema-direita em todo o mundo. É até bizarro como essa gente se preocupa com a vida sexual alheia, não? Mesmo os falsos liberais brasileiros volta e meia demonstram sua profunda homofobia, aludindo a uma “ditadura gayzista” que viria para transformar todas as pessoas em homossexuais. Freud explica.

7. A saúde e a educação públicas – A esquerda considera a saúde e a educação um direito dos cidadãos, enquanto a direita considera a saúde e a educação como privilégios. Por isso eles defendem privatizar totalmente o ensino e a saúde, como se fosse um negócio qualquer. Assim, só teriam acesso à saúde e à educação quem tivesse dinheiro para pagá-los. Os pobres? “Não se esforçaram o suficiente.”

8. Os movimentos sociais – Movimento social, para a direita, é coisa de vagabundo, desocupado. Se fosse por eles, existiriam no máximo sindicatos patronais, para defender o ponto de vista daqueles que, segundo a direita, realmente importam, porque representam a classe que “produz” (como se seus empregados passassem o dia inteiro à toa). Os sindicatos de trabalhadores, ao contrário, só atrapalham, e quanto mais pelegos forem, melhor. Os movimentos em defesa dos sem-terra e dos sem-teto são um antro de criminosos que deveriam ser proibidos. Na dúvida, prende todo mundo. A esquerda, ao contrário, considera fundamental o papel dos movimentos sociais e dos sindicatos nas lutas pelos direitos do trabalhador, contra a desigualdade social e na defesa dos desassistidos.

9. A democracia – Democracia pressupõe o convívio de formas distintas de pensamento. Transformar a sociedade em pensamento único é ditadura. Não era isso que a direita sempre criticou nos regimes totalitários que usaram o nome do comunismo? Sem pluralidade, não existe democracia. Resumindo: se a esquerda deixar de existir, com ela vai embora a democracia.

 

 

 

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As 14 características do fascismo, por Umberto Eco. Parecem familiares?

Publicado em 2 de dezembro de 2016
fascistas

(Cartaz antifascista da guerra civil espanhola)

(Adaptado do PijamaSurf)

Umberto Eco (1932-2016) é uma das personalidades que melhor poderiam definir o fascismo, pois nele se combinaram a experiência própria, a erudição e a lucidez analítica. Como italiano, viveu de perto o fascismo e suas consequências, e como intelectual dedicou-se a estudá-lo, entendê-lo e explicá-lo, mas, acima de tudo, a denunciá-lo e preveni-lo. De todos os males que o ser humano pode gerar a si mesmo, poucos são tão nefastos como um regime totalitário, em que normalmente o sofrimento é muito maior do que os possíveis benefícios.

Compartilho o fragmento de uma conferência que Eco fez em 1995 na Universidade de Columbia, em que elaborou uma rápida caracterização do que chamou “Ur-Fascismo” ou “fascismo eterno”, quer dizer, uma ideologia e vontade de governar que, independentemente das circunstâncias históricas, parece sempre estar ali, à espreita, esperando um mínimo descuido para se apoderar de um governo nacional, uma sociedade, um país. Eco reconhece que nem todos os regimes totalitários são iguais, mas ao mesmo tempo encontrou alguns traços comuns, ou, melhor dizendo, recursos que a maioria empregou para seduzir a população e tomar o poder político.

Muita gente acha que falar em fascismo é “banalizar” o termo, mas reparem que a extrema-direita hoje, representada por Donald Trump e seus supremacistas brancos nos Estados Unidos e aqui pelos MBLs e Bolsonaros da vida, se enquadra em cada uma destas características. Só não vê quem não quer. Fica a advertência de Eco: “O Ur-Fascismo pode voltar todavia com as aparências mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo sobre cada uma de suas novas formas, todo dia, em todas as partes do mundo”.

A seguir, as 14 características do fascismo segundo Umberto Eco. Leia o texto completo da conferência aqui.

1. Culto da tradição, dos saberes arcaicos, da revelação recebida no alvorecer da história humana, dos hieróglifos egípcios às runas dos celtas e aos textos sagrados, ainda desconhecidos, de algumas religiões asiáticas.

2. Rechaço do modernismo. O Iluminismo, a idade da Razão, são vistos como o princípio da depravação moderna. Neste sentido, o Ur-Fascismo pode se definir como irracionalismo.

3. Culto da ação pela ação. Pensar é uma forma de castração. Por isso a cultura é suspeita, à medida em que é identificada com atitudes críticas.

4. Rechaço do pensamento crítico. O espírito crítico opera distinções e distinguir é sinal de modernidade. Para o Ur-Fascismo, estar em desacordo é traição.

5. Medo ao diferente. O primeiro chamamento de um movimento fascista, ou prematuramente fascista, é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, pois, racista por definição.

6. Apelo às classes médias frustradas. Em nossa época, o fascismo encontrará seu público nesta nova maioria.

7. Nacionalismo e xenofobia. Obsessão pelo complô. Os seguidores têm de se sentir ameaçados.

8. Inveja e medo do “inimigo”.

9. Princípio de guerra permanente, antipacifismo.

10. Elitismo, desprezo pelos fracos.

11. Heroísmo, culto à morte.

12. Transferência da vontade de poder a questões sexuais. Machismo, ódio ao sexo não-conformista, como a homossexualidade. Transferência do sexo ao jogo das armas.

13. Populismo qualitativo, oposição aos apodrecidos governos parlamentares. Toda vez que um político lança dúvidas sobre a legitimidade do parlamento porque já não representa a voz do povo, podemos perceber o cheiro do Ur-Fascismo.

14. Novilíngua. Todos os textos escolares nazis ou fascistas se baseavam em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com a finalidade de limitar os instrumentos para o raciocínio complexo e crítico. Devemos estar preparados para identificar outras formas de novilíngua, inclusive quando adotam a forma inocente de um popular reality show.

 

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Grandes ideias retrógradas de direita: na Espanha, privatizaram o sol

Publicado em 27 de novembro de 2016
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(Foto de Anamaria Rossi em Barcelona)

Há duas semanas, a escritora e ativista canadense Naomi Klein expôs, em entrevista ao programa de TV espanhol Salvados, seu espanto com um imposto criado pelo governo neoliberal do país, o chamado “imposto ao sol”. Quem utilizar em suas casas placas de energia solar e baterias para acumular a energia não utilizada durante o dia, em vez de economizar, pagará mais. É o cúmulo do neoliberalismo: privatizaram o sol. O paradoxo é que a decisão foi tomada pelo Estado para proteger as empresas privadas de energia, uma hipocrisia para quem defende a menor intervenção estatal possível na economia.

“Nenhum país desenvolvido do mundo cobra impostos sobre o sol”, disse Naomi na entrevista. “A Espanha não só deixou de ajudar como está desincentivando de forma ativa seus cidadãos a fazer o que deveriam, que é instalar placas de energia solar. Estão penalizando as pessoas por fazer a coisa certa.”

O “imposto ao sol” foi uma das “brilhantes” soluções do governo de direita da Espanha para combater a crise. A ideia, que vai de encontro a qualquer raciocínio científico em relação à crise energética no planeta, coloca o país na contramão de todas as nações ditas civilizadas. Ainda mais se tratando da Espanha, com mais horas de sol por ano do que todos os demais países da Europa. No verão, só escurece na capital, Madri, às 10 da noite.

Desde que a direita assumiu, a Espanha, que foi um país pioneiro em energia solar fotovoltaica e chegou a ter 40% da potência instalada no mundo com o PSOE na presidência de governo, decaiu com o PP no poder para 0,09%. Passou da segunda posição mundial à décima. O governo neoliberal, em tese defensor do livre mercado, impede a liberdade de competição, protegendo as três grandes companhias elétricas do país e prejudicando os pobres com uma conta que subiu quase 25% este ano, às vésperas do verão.

Em 2012, os incentivos para quem instalasse painéis solares foram retirados; e, em outubro de 2015, o PP conseguiu aprovar o famigerado Real Decreto de Autoconsumo, apelidado de “imposto ao sol”. E deu um prazo de seis meses para que as pessoas se adequassem à nova norma, sob a pena de multas pesadíssimas. “São multas absurdas e injustas, maiores, inclusive, que as aplicadas por extraviar resíduos radiativos”, denunciou Sara Pizzinato, do Greenpeace. A norma de auto-consumo espanhola é considerada a mais restritiva do mundo.

Este mês, o Greenpeace soltou um comunicado sobre o novo governo em que exige a anulação do imposto ao sol. “O Greenpeace considera que Álvaro Nadal, nomeado ministro da Energia, Turismo e Agenda Digital deve revogar o Real Decreto de Auto-consumo energético como primeiro passo para conseguir que a Espanha volte a ser uma potência mundial em energias renováveis. A revogação deste lesivo decreto forma parte do pacto firmado entre o PP e o partido Ciudadanos” (para composição do novo governo, após meses de crise).

Em fevereiro deste ano, 227 deputados de todos os partidos, à exceção do PP e da União do Povo Navarro, haviam fechado um acordo para fomentar o auto-consumo de energia na Espanha, pondo fim ao polêmico imposto ao sol. Para conseguir governar, o PP foi obrigado a ceder. “Se eliminarão as dificuldades que possam existir ao auto-consumo elétrico eficiente (coloquialmente conhecido como imposto ao sol) com o fim de promover um marco regulatório estável e propício”, diz o acordo fechado com Ciudadanos. O secretário de Energia do governo, porém, já saiu em defesa do imposto.

Que ninguém pense que este tipo de ideia retrógrada é exclusiva dos neoliberais espanhóis. No governo do PT, a presidenta Dilma Rousseff concedeu um desconto na conta de luz a quem instalasse placas de energia solar em casa –milhares de casas do programa Minha Casa, Minha Vida receberam painéis.

Em dezembro do ano passado, o governo Dilma também criou um programa de incentivo à geração de energia solar, com financiamento da Caixa e do Banco do Brasil e a possibilidade de o consumidor vender o adicional às empresas elétricas. Agora, sob o governo de direita de Michel Temer, as empresas estão tentando derrubar o desconto para quem tem placas de energia solar em casa. Qual será o próximo passo para trás?

 

 

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