Ditadura de direita: filho de Muhammad Ali é “acusado” de ser muçulmano em aeroporto

Publicado em 25 de fevereiro de 2017
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(Muhammad Ali e seu filho em 1974. Foto: Bill Ingraham)

Filho do mais famoso boxeador de todos os tempos, Muhammad Ali Jr. ficou retido durante horas em um aeroporto na Flórida, nos Estados Unidos, no início de fevereiro, “acusado” de ser muçulmano, apenas por causa da aparência e do nome que carrega. Os policiais interrogaram o rapaz por duas horas perguntando: “Onde você arranjou este nome?” “Você é muçulmano?” A história foi revelada pelo jornal USAToday, na última sexta-feira.

Nascido Cassius Marcellus Clay Jr. em Louisville, Kentucky, o lutador de boxe Muhammad Ali trocou de nome em 1964, ao se converter ao islamismo. Até então, lutava como Cassius Clay. Seu filho Muhammad Ali Jr. nasceu na Filadélfia em 1972, ou seja, como o pai, é cidadão norte-americano. Quando respondeu aos oficiais do aeroporto que sim, é muçulmano, os policiais continuaram perguntando sobre sua religião e onde ele tinha nascido, como se Muhammad Jr. tivesse acabado de chegar do Oriente Médio.

O filho de Muhammad Ali e sua mãe, Khalilah Camacho-Ali, segunda mulher do boxeador, estavam chegando ao aeroporto internacional de Fort Lauderdale no dia 7 de fevereiro, após participarem de um evento do Mês da História Negra na Jamaica, quando foram separados da fila da alfândega em virtude dos sobrenomes árabes, de acordo com o amigo da família e advogado Chris Mancini. Como tinha na bolsa uma foto posando ao lado de Ali, Khalilah mostrou aos policiais e foi liberada. O filho ficou retido. Quando se deu conta, a mãe ficou desesperada.

Nenhum dos dois jamais havia sido parado no aeroporto de nenhum lugar do mundo por conta do sobrenome. “Para a família Ali, ficou claro que isto está diretamente relacionado aos esforços do Sr. Trump de banir os muçulmanos dos Estados Unidos”, disse Mancini, em referência à decisão da ordem assinada pelo presidente em 27 de janeiro de banir cidadãos de sete países muçulmanos. O advogado disse que a família estuda processar as autoridades.

O caso de Muhammad Ali Jr. demonstra que a ditadura de direita em que Donald Trump está transformando os EUA ameça não só estrangeiros, mas os próprios norte-americanos de religião muçulmana. Vale lembrar que muitas celebridades dos EUA e de outros países também se converteram ao islamismo nas últimas décadas, como o ex-jogador de basquete Shaquille O’Neal, o boxeador Mike Tyson, o rapper Mos Def, o comediante Dave Chapelle, o ex-vocalista do One Direction Zayn Malik e o cantor britânico Cat Stevens, que desde 1977 usa o nome Yusuf Islam.

Se há alguma utilidade em Trump é deixar evidente como a direita governa e que mundo deseja para todos nós.

 

 

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9 coisas que não existiriam mais se a esquerda acabasse, como quer a direita

Publicado em 10 de fevereiro de 2017
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(Para a direita, a Amazônia é só um desperdício de terra. Foto: Neil Palmer/CIAT)

A direita brasileira, sobretudo a direita extrema, vive dizendo que é preciso “eliminar a esquerda” do mundo. Mas o que aconteceria se só existisse o pensamento de direita? Teríamos um planeta e uma sociedade bem diferentes do que existe hoje. Junto com a esquerda, algumas coisas simplesmente acabariam. Veja uma pequena lista delas.

1. A floresta amazônica  Que “pulmão do mundo” que nada! Se dependesse da direita, a Amazônia já tinha se transformado num pasto e aquela madeira toda “sem uso” já teria virado móveis há muito tempo. São os “chatos” de esquerda que impedem que isto aconteça. Tanto é que foi só a direita voltar a governar o Brasil que já estão avaliando “reduzir as florestas” na Amazônia sem nem sequer ouvir seu próprio ministério do Meio Ambiente. Um projeto de lei do governo federal pretende reduzir em 35% as áreas das unidades de conservação, demarcadas por decretos da presidenta deposta Dilma Rousseff.

2. Os índios – A direita despreza e odeia os indígenas ao ponto de, em alguns casos, recorrer a capangas para eliminá-los. A questão da direita com os índios é que eles possuem o que mais ela quer e valoriza: terras. Para disfarçar que gostariam de exterminar os índios para ficar com suas terras, muitos direitistas defendem que os índios “se civilizem”, ou seja, passem a viver nas cidades –e vendam suas terras a preço de banana. Para a esquerda, a decisão de deixar de morar nas aldeias –assim como as terras– pertence exclusivamente aos indígenas.

3. As sementes originais – Se dependesse da direita, uma só empresa, a Monsanto, forneceria todas as sementes do planeta. O monopólio das sementes é visto pelos direitistas como algo natural, decorrente do “livre mercado”. Por que é importante manter as sementes originais? Porque as sementes transgênicas são estéreis, não se reproduzem, ou seja, os agricultores não podem reaproveitar as sementes geradas a partir do crescimento das plantas, tendo que todos os anos pagar por novos grãos. Esta dependência das “donas” das sementes tem levado os agricultores mais pobres até mesmo ao suicídio. E é a esquerda que tem feito a defesa da preservação das sementes originais.

4. Os direitos humanos – A direita hierarquiza os direitos humanos. Para ela, alguns humanos são melhores do que os outros : “direitos humanos para humanos direitos”, dizem. Isto significa, em termos reais, que só existiriam direitos humanos basicamente para os ricos e os brancos; negros, crianças de rua, menores infratores, prostitutas, presidiários e sem-teto, por exemplo, não teriam direito aos direitos humanos, porque estes “cristãos” estabeleceram que estes seres humanos não são humanos. A esquerda vê diferente: todos os seres humanos devem ser iguais e ter os mesmo direitos, independentemente da raça, classe social, gênero, religião ou origem.

5. A liberação feminina – Vixe, se dependesse da direita todas as mulheres seriam belas, recatadas e do lar. E, se forem independentes, têm que se manifestar contra o feminismo, claro (como se ser feminista não fosse sinônimo de ser independente). A esquerda acha que, enquanto houver disparidade entre homens e mulheres, sempre será necessário falar em feminismo e em lutas como a prevenção e punição da violência de gênero.

6. Os direitos LGBTs – Os gays viraram alvo da extrema-direita em todo o mundo. É até bizarro como essa gente se preocupa com a vida sexual alheia, não? Mesmo os falsos liberais brasileiros volta e meia demonstram sua profunda homofobia, aludindo a uma “ditadura gayzista” que viria para transformar todas as pessoas em homossexuais. Freud explica.

7. A saúde e a educação públicas – A esquerda considera a saúde e a educação um direito dos cidadãos, enquanto a direita considera a saúde e a educação como privilégios. Por isso eles defendem privatizar totalmente o ensino e a saúde, como se fosse um negócio qualquer. Assim, só teriam acesso à saúde e à educação quem tivesse dinheiro para pagá-los. Os pobres? “Não se esforçaram o suficiente.”

8. Os movimentos sociais – Movimento social, para a direita, é coisa de vagabundo, desocupado. Se fosse por eles, existiriam no máximo sindicatos patronais, para defender o ponto de vista daqueles que, segundo a direita, realmente importam, porque representam a classe que “produz” (como se seus empregados passassem o dia inteiro à toa). Os sindicatos de trabalhadores, ao contrário, só atrapalham, e quanto mais pelegos forem, melhor. Os movimentos em defesa dos sem-terra e dos sem-teto são um antro de criminosos que deveriam ser proibidos. Na dúvida, prende todo mundo. A esquerda, ao contrário, considera fundamental o papel dos movimentos sociais e dos sindicatos nas lutas pelos direitos do trabalhador, contra a desigualdade social e na defesa dos desassistidos.

9. A democracia – Democracia pressupõe o convívio de formas distintas de pensamento. Transformar a sociedade em pensamento único é ditadura. Não era isso que a direita sempre criticou nos regimes totalitários que usaram o nome do comunismo? Sem pluralidade, não existe democracia. Resumindo: se a esquerda deixar de existir, com ela vai embora a democracia.

 

 

 

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As 14 características do fascismo, por Umberto Eco. Parecem familiares?

Publicado em 2 de dezembro de 2016
fascistas

(Cartaz antifascista da guerra civil espanhola)

(Adaptado do PijamaSurf)

Umberto Eco (1932-2016) é uma das personalidades que melhor poderiam definir o fascismo, pois nele se combinaram a experiência própria, a erudição e a lucidez analítica. Como italiano, viveu de perto o fascismo e suas consequências, e como intelectual dedicou-se a estudá-lo, entendê-lo e explicá-lo, mas, acima de tudo, a denunciá-lo e preveni-lo. De todos os males que o ser humano pode gerar a si mesmo, poucos são tão nefastos como um regime totalitário, em que normalmente o sofrimento é muito maior do que os possíveis benefícios.

Compartilho o fragmento de uma conferência que Eco fez em 1995 na Universidade de Columbia, em que elaborou uma rápida caracterização do que chamou “Ur-Fascismo” ou “fascismo eterno”, quer dizer, uma ideologia e vontade de governar que, independentemente das circunstâncias históricas, parece sempre estar ali, à espreita, esperando um mínimo descuido para se apoderar de um governo nacional, uma sociedade, um país. Eco reconhece que nem todos os regimes totalitários são iguais, mas ao mesmo tempo encontrou alguns traços comuns, ou, melhor dizendo, recursos que a maioria empregou para seduzir a população e tomar o poder político.

Muita gente acha que falar em fascismo é “banalizar” o termo, mas reparem que a extrema-direita hoje, representada por Donald Trump e seus supremacistas brancos nos Estados Unidos e aqui pelos MBLs e Bolsonaros da vida, se enquadra em cada uma destas características. Só não vê quem não quer. Fica a advertência de Eco: “O Ur-Fascismo pode voltar todavia com as aparências mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo sobre cada uma de suas novas formas, todo dia, em todas as partes do mundo”.

A seguir, as 14 características do fascismo segundo Umberto Eco. Leia o texto completo da conferência aqui.

1. Culto da tradição, dos saberes arcaicos, da revelação recebida no alvorecer da história humana, dos hieróglifos egípcios às runas dos celtas e aos textos sagrados, ainda desconhecidos, de algumas religiões asiáticas.

2. Rechaço do modernismo. O Iluminismo, a idade da Razão, são vistos como o princípio da depravação moderna. Neste sentido, o Ur-Fascismo pode se definir como irracionalismo.

3. Culto da ação pela ação. Pensar é uma forma de castração. Por isso a cultura é suspeita, à medida em que é identificada com atitudes críticas.

4. Rechaço do pensamento crítico. O espírito crítico opera distinções e distinguir é sinal de modernidade. Para o Ur-Fascismo, estar em desacordo é traição.

5. Medo ao diferente. O primeiro chamamento de um movimento fascista, ou prematuramente fascista, é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, pois, racista por definição.

6. Apelo às classes médias frustradas. Em nossa época, o fascismo encontrará seu público nesta nova maioria.

7. Nacionalismo e xenofobia. Obsessão pelo complô. Os seguidores têm de se sentir ameaçados.

8. Inveja e medo do “inimigo”.

9. Princípio de guerra permanente, antipacifismo.

10. Elitismo, desprezo pelos fracos.

11. Heroísmo, culto à morte.

12. Transferência da vontade de poder a questões sexuais. Machismo, ódio ao sexo não-conformista, como a homossexualidade. Transferência do sexo ao jogo das armas.

13. Populismo qualitativo, oposição aos apodrecidos governos parlamentares. Toda vez que um político lança dúvidas sobre a legitimidade do parlamento porque já não representa a voz do povo, podemos perceber o cheiro do Ur-Fascismo.

14. Novilíngua. Todos os textos escolares nazis ou fascistas se baseavam em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com a finalidade de limitar os instrumentos para o raciocínio complexo e crítico. Devemos estar preparados para identificar outras formas de novilíngua, inclusive quando adotam a forma inocente de um popular reality show.

 

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