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Mídia

A mídia e o vício em investir na intriga e sabotagem do país

Visita da presidenta da Comissão Europeia é um exemplo de cobertura enviesada: imprensa ocultou elogios ao brasileiro para retratar encontro como negativo

Lula cumprimenta Ursula Von der Leyen, presidenta da Comissão Europeia. Foto: Ricardo Stuckert/PR
Cynara Menezes
13 de junho de 2023, 15h24

Desde a volta da democracia e das eleições para presidente, em 1989, a imprensa brasileira persegue o objetivo de se mostrar imparcial ao público, de transmitir a falsa imagem de que não privilegia este ou aquele grupos políticos. Isso se mostrou, ao longo dos anos, uma falácia, como foi fartamente comprovado no apoio à perseguição jurídica ao PT desde o mensalão, coroada com o golpe contra Dilma Rousseff e a prisão de Lula.

A mídia comercial tem lado, e é natural que tenha um lado: ela vem das classes privilegiadas e seu lado sempre será o dos privilegiados. Ainda que tente iludir os incautos com sua autoproclamada “independência editorial” para conseguir assinantes, tudo o ela que defende está em comum acordo com o grande capital financeiro. Entre os sem-terra, os quilombolas, os povos indígenas e o agronegócio, por exemplo, para que lado pendem os veículos tradicionais? Lógico que do agronegócio. Então não me venham com esse papo furado de imparcialidade, seus Sergio Moro do jornalismo. Sejam apenas honestos.

Com Bolsonaro fora, o jornalismo brasileiro voltou ao vício de investir na intriga e na sabotagem ao governo. Isso ficou exposto de forma escandalosa na cobertura à visita da presidenta da Comissão Europeia. Ursula Von der Leyen se desmanchou em elogios a Lula e ao Brasil. Suas falas simplesmente não foram noticiadas

E o que é fazer jornalismo honesto? É narrar os fatos como se deram. Infelizmente, no afã de fazer merchã de sua inexistente imparcialidade, os jornais há muito pararam de fazer jornalismo em relação ao Partido dos Trabalhadores e ao seu líder, Lula. Em outubro de 2022, os principais meios de comunicação brasileiros deixaram de lado momentaneamente essa forma enviesada de fazer a cobertura do PT porque interessava a eles que Bolsonaro fosse derrotado. O principal inimigo deles era Bolsonaro.

Embora seja exímia em criar falsas simetrias entre Lula e o capitão fascistoide, a mídia comercial sabe que a comparação é esdrúxula: enquanto o petista trata jornalistas com respeito, Bolsonaro mandava repórteres mulheres calarem a boca e chegou a fazer uma insinuação sexual a uma delas. A ameaça ao negócio deles era Jair Bolsonaro e não Lula, por isso a trégua oferecida na eleição.

Com Bolsonaro fora do poder, o jornalismo brasileiro voltou ao vício de investir na intriga e na sabotagem ao governo. Isso ficou exposto de forma escandalosa na cobertura feita, nesta segunda-feira, ao encontro da presidenta da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, a Lula. Ursula se desmanchou em elogios ao presidente e ao Brasil.

“Obrigada pela acolhida carinhosa, estou muito orgulhosa de estar aqui em Brasília. Presidente Lula, você trouxe o Brasil de volta ao lugar que lhe pertence, como um importante player global, um líder no mundo democrático. E eu estou aqui para dizer a você que a Europa está de volta, também. A Europa está de volta no Brasil. A Europa está de volta na América Latina. E está na hora de levar nossa parceria estratégia ao próximo patamar”, disse Ursula, que anunciou investimentos de 10 bilhões de reais na América Latina, além dos 100 milhões de reais para o Fundo Amazônia, “e isso é só o começo”.

No afã de fazer merchã de sua inexistente imparcialidade, os jornais há muito pararam de fazer jornalismo em relação ao PT e a Lula. Ao cobrir a visita de Von der Leyen, deram ênfase à frase de Lula de que o Brasil não aceitará sanções. Lógico que isso é notícia. Mas o fato de a presidenta da Comissão Europeia ter elogiado Lula também é

Toda essa positividade, a expectativa de notícias boas para o futuro do nosso país que advenham do reforço nessa parceria, ficou de fora do noticiário dos principais portais e jornais. Todos, com as exceções do jornal Estado de Minas e do canal Bloomberg Línea, preferiram destacar a frase de Lula de que o Brasil não aceitará sanções. Lógico que isso é notícia. Mas o fato de a presidenta da Comissão Europeia ter feito rasgados elogios a Lula também é –e, ainda que se optasse mais uma vez pela intriga, por que não noticiar que a fala dela foi uma alfinetada em Bolsonaro? Von der Leyen deixou claríssimo que agora existe jogo com o país e antes não havia; foi a primeira vez em 10 anos que um executivo da Comissão Europeia visita o Brasil, como destacou o presidente em seu discurso.

O Jornal Nacional, (ainda) o telejornal mais assistido do país, deu uma matéria de quase 5 minutos sobre o encontro entre Lula e a executiva europeia sob uma abordagem entre negativa e burocrática: “Lula recebe Ursula von der Leyen em Brasília e critica exigências da Comissão Europeia na área ambiental” foi a chamada. O resumo: “Em pouco mais de uma hora, os dois conversaram sobre temas como regulação digital, mudanças climáticas, energia renovável e o acordo comercial entre a União Europeia e Mercosul”. Nenhuma menção aos elogios a não ser a passagem em que ela anuncia que “é uma nova era das relações entre a União Europeia e o Brasil”.

Quem assistir pensará que Lula cometeu algum deslize diplomático e que o encontro foi um desastre. Pelo contrário, Von der Leyen saiu do Brasil deixando mais elogios ao presidente no twitter. “Presidente Lula, você trouxe o Brasil de volta ao cenário mundial. Vamos dar uma nova vida à nossa parceria. Com, primeiro, uma cooperação mais forte em ação climática, comércio e energias renováveis. Também expressei nosso apreço pela condenação do Brasil à guerra da Rússia contra a Ucrânia”, publicou.

É mais fácil hoje ao brasileiro tomar conhecimento sobre quem brigou com quem no governo (muitas vezes com erro, como aconteceu na “notícia” de que a ministra do Turismo iria cair) do que saber como as decisões governamentais afetam suas vidas. É mais importante para jornais e TVs noticiarem as “derrotas” do governo do que as ações que beneficiaram o povo –até mesmo a derrota dos povos indígenas e da Amazônia, que foi o que aconteceu com a aprovação do Marco Temporal na Câmara, saiu na imprensa como “derrota de Lula”.

Investir apenas na intriga, sem informar os leitores, é o contrário de fazer jornalismo, é só sabotar o governo. Trata-se de uma opção editorial legítima, claro: ninguém pode obrigar jornais a fazer jornalismo. O problema é que, quando sabota o governo Lula, a mídia sabota em consequência o Brasil. Já vimos este filme antes, num passado não tão distante, e não acabou bem. Pelo visto, Bolsonaro não serviu para que aprendessem a lição.


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(5) comentários Escrever comentário

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Mario em 13/06/2023 - 17h20 comentou:

Grande Cynara! De volta com seus belos textos.

Responder

Antonio Carlos gomes em 14/06/2023 - 06h46 comentou:

Achei demais seu artigo.Confeso que levantei hoje dia 14/06 ,querendo gritar .Não consigo mais assistir o GLOBO NEWS,o negocio deles é fazer intriga. Não tenho onde assistir um noticiario factual,é só opinativo e é demais.Abs

Responder

Eugênio Bh em 14/06/2023 - 20h37 comentou:

Não se trata de “representar”.

Folha de São Paulo É um banco banco:

https://pagseguro.uol.com.br/

Responder

Allan em 17/06/2023 - 12h46 comentou:

Foi isso que vc fez nos ultimos anos.
Esqueceu?

Responder

    Cynara Menezes em 19/06/2023 - 13h03 comentou:

    No governo do preguiçoso que não fez nada a não ser motociata e rir dos mortos na pandemia? Desnecessário

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