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Cultura

Acabou Chorare: memórias sentimentais com Moraes Moreira (1947-2020)

Obrigada por fazer parte da trilha sonora da minha vida, conterrâneo

Capa do primeiro disco solo de Moraes Moreira, de 1975
Cynara Menezes
13 de abril de 2020, 18h26

Não bastasse toda a tristeza do coronavírus, ainda perdemos o Moraes Moreira em plena pandemia… Há alguns dias o cantor e compositor, baiano de Ituaçu, publicou um cordel no instagram falando da quarentena. “Eu temo o coronavírus/ E zelo por minha vida”, dizia Moraes nos versos, um manifesto contra a misoginia, o preconceito e outros males que nos assolam além do vírus, como a impunidade dos mandantes do assassinato de Marielle Franco.

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Oi pessoal estou aqui na Gávea entre minha casa e escritório que ficam próximos,cumprindo minha quarentena,tocando e escrevendo sem parar. Este Cordel nasceu na madrugada do dia 17, envio para apreciação de vocês .Boa sorte Quarentena (Moraes Moreira) Eu temo o coronavirus E zelo por minha vida Mas tenho medo de tiros Também de bala perdida, A nossa fé é vacina O professor que me ensina Será minha própria lida Assombra-me a pandemia Que agora domina o mundo Mas tenho uma garantia Não sou nenhum vagabundo, Porque todo cidadão Merece mas atenção O sentimento é profundo Eu não queria essa praga Que não é mais do Egito Não quero que ela traga O mal que sempre eu evito, Os males não são eternos Pois os recursos modernos Estão aí, acredito De quem será esse lucro Ou mesmo a teoria? Detesto falar de estrupo Eu gosto é de poesia, Mas creio na consciência E digo não a todo dia Eu tenho medo do excesso Que seja em qualquer sentido Mas também do retrocesso Que por aí escondido, As vezes é o que notamos Passar o que já passamos Jamais será esquecido Até aceito a polícia Mas quando muda de letra E se transforma em milícia Odeio essa mutreta, Pra combater o que alarma Só tenho mesmo uma arma Que é a minha caneta Com tanta coisa inda cismo…. Estão na ordem do dia Eu digo não ao machismo Também a misoginia, Tem outros que eu não aceito É o tal do preconceito E as sombras da hipocrisia As coisas já forem postas Mas prevalecem os relés Queremos sim ter respostas Sobre as nossas Marielles, Em meio a um mundo efêmero Não é só questão de gênero Nem de homens ou mulheres O que vale é o ser humano E sua dignidade Vivemos num mundo insano Queremos mais liberdade, Pra que tudo isso mude Certeza, ninguém se ilude Não tem tempo,nem.idade

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A música de Moraes Moreira me transporta imediatamente à infância. Moraes cantava numa linguagem que agradava às gentes de qualquer idade. No meu caso, eu tinha uns 6 anos quando ouvi Pombo Correio pela primeira vez no velho trio elétrico instrumental, sem cantor, apenas com alto-falantes. O trio passava na porta das casas nas cidades do interior da Bahia, literalmente arrastando o povo pra rua…

Em 1975, um ano após deixar os Novos Baianos, Moraes criou letra para a música composta em 1952 pela dupla Dodô e Osmar, com o título de Double Morse. “Existia uma melodia composta por Dodô e Osmar em 1952 chamada Double Morse, inspirada no código Morse. Pensei em comunicação, e veio a imagem do pombo correio levando uma carta de amor. A música estourou, virou tema de abertura do telejornal Hoje e propaganda institucional dos Correios e Telégrafos”, contou Moraes ao jornalista Guilherme Bryan, da Rede Brasil Atual, na época do lançamento de seu segundo livro, Sonhos Elétricos, em 2011.

Poucos anos antes, ainda menorzinha, eu já tinha ouvido a maioria das músicas dos Novos Baianos, que fizeram um sucesso estrondoso e tocavam nas rádios de todo o país, mesmo sob a ditadura militar. Na voz de Moraes, Preta Pretinha cairia no gosto popular. Quem não sabe essa letra de cor?

Lançado em 1972, o álbum Acabou Chorareinfluenciado por João Gilberto, é um dos discos mais geniais da música brasileira e mundial. Vivendo em comunidade no Rio, Moraes, Luiz Galvão, Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo e Pepeu Gomes fizeram um som irrepetível, influência para toda a nova geração de músicos que os seguiram. O próprio Moraes Moreira considerava o disco “uma Bíblia” à qual todo mundo volta para consultar…

Na adolescência, continuei a curtir Moraes Moreira como autor da maior parte das marchinhas de carnaval na Bahia. Vassourinha Elétrica, Grito de Guerra, Chame Gente e Balança o Chão da Praça de fato faziam o chão da Praça Castro Alves, tremer, com Moraes acompanhando o trio de seus velhos parceiros Armandinho, Dodô e Osmar.

Imaginem uma catarse coletiva e vocês não chegarão nem perto do que era o carnaval de Salvador nesta época. Eu voltava pra casa de manhã, com a unha do pé preta de tanto levar pisão no meio da turba. E quem disse que eu sentia na hora? Só depois…

Moraes Moreira continuou participando de minha vida em outro momento, quando tive o primeiro filho, em 1991. Duas canções na voz dele adoçaram a infância do meu menino, que até hoje se emociona ao ouvi-las. A primeira é As Abelhas, do especial Arca de Noé, da Globo, com músicas feitas a partir de poemas de Vinicius de Moraes, que eu também tinha adorado quando criança.

A outra canção é Lenda do Pégaso, parceria de Moraes com Jorge Mautner que meu filho, aos 4, 5 anos, ouvia sempre com os olhos marejados. Achava a letra tristíssima. “Era uma vez, vejam vocês,/um passarinho feio/ Que não sabia o que era, nem de onde veio/ Então vivia, vivia a sonhar em ser o que não era/ Voando, voando com as asas, asas da quimera…”

Nos anos 1990, Moraes ficou retado com o carnaval baiano, se sentindo excluído quando a turma do axé dominou a folia, transformando-a numa farra milionária onde era preciso comprar abadás para pular, isolados do povo pelas cordas. Ele nunca escondeu sua revolta com a mercantilização do carnaval, a elitização e sobretudo a falta de espontaneidade gerada por este comércio.

O músico ficou afastado durante mais de 10 anos, quando preferia tocar em Recife e Olinda, cujo carnaval era mais digno do seu respeito.  “Até o final dos anos 1970, o carnaval era lúdico, o pessoal saía para a rua para brincar de graça. Ninguém pagava para ir atrás de trio elétrico. A partir daí vieram os blocos de cordas e abadás, em que se paga, e tomaram conta. O poder público não viu isso e os foliões pipoca, que pulam fora da corda, perderam o carnaval e os trios. Como ninguém podia reclamar de nada e a Bahia vivia uma oligarquia pesada, eu fui retirado do carnaval”, contou.

Moraes Moreira nunca escondeu sua revolta com a mercantilização do carnaval baiano, que transformou uma festa popular numa farra milionária que separava com cordas o povo de quem podia pagar pelos abadás

Ele só voltou a cantar no carnaval da Bahia em 2010. “Encontrei João Ubaldo Ribeiro e disse que iria voltar. Ele me falou ‘Você vai voltar nos braços do povo’, e realmente aconteceu. Foram seis dias de uma coisa deliciosa, muita gente acompanhando o trio, todo mundo cantando as músicas. Foi uma sensação muito boa de permanência do meu trabalho, da minha música. Continua tudo aí, apesar das trezentas coisas que aconteceram na Bahia, o povo ainda quer ouvir Chame Gente, Pombo Correio e Preta Pretinha“, ele comentou com a repórter Laís Vita, do Bahia Notícias, também em 2011.

Naquela entrevista, ele anteviu o movimento que de fato acabou acontecendo nos últimos anos, da rejeição do folião baiano ao modelo excludente dos abadás e das cordas que reinou durante tanto tempo. “Você pode ver que o folião pipoca já tá querendo ver o trio independente dele, tá querendo sair com a roupa que ele quiser, dançar a dança que ele quiser. Ele não quer mais ficar naquela de ‘faz isso’, ‘faz aquilo’, ‘agora levanta a mão’, ‘agora não-sei-o-quê’. Eu tô sentindo que está havendo uma reação para a ‘apadronização’ do carnaval da Bahia. Agora é tudo muito padronizado: a roupa, a música, a dança, a coreografia, ficou tudo marcado demais. Agora vamos desmanchar tudo e fazer tudo de novo!”

Em janeiro deste ano, em entrevista a Maria Fortuna, do jornal O Globo, Moraes Moreira falou de sua preocupação com o Brasil de Bolsonaro, “pior que no tempo da ditadura. Primeiro porque naquele tempo tocava música brasileira no rádio. E hoje tem essa coisa que a gente não sabe direito… Amanhã a Ancine pode acabar, depois da amanhã pode não ter mais teatro. É uma pressão psicológica.”

É triste ver o Brasil descendo a ladeira, né, Moraes? Obrigada por fazer parte da trilha sonora da minha vida, conterrâneo. Acabou chorare.

Para ler mais sobre Moraes Moreira e Novos Baianos, clique aqui.

 


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