Socialista Morena
Cultura

As raízes históricas da “pãodemia” que tomou conta das redes na quarentena

O pão transmite uma multitude de significados, e assá-lo preenche variadas funções práticas, psicológicas e sociais

Pão e foto: Ormuzd Alves
The Conversation
19 de maio de 2020, 12h15

Por Muzna Rahman, no The Conversation
Tradução Maurício Búrigo

Sua timeline nas redes sociais tem estado seguramente tomada por imagens bem iluminadas de pães macios, com crosta e polvilhados de farinha. Seja de banana, focaccia ou de fermentação natural, o pão se tornou o campeão das delícias assadas do confinamento. A escassez generalizada de farinha e de fermento nos EUA deixa clara a popularidade do forno como estratégia de sobrevivência no confinamento, com receitas de pão no topo das listas recentes de mais procuradas nas ferramentas de busca.

Assar permite que você se empenhe num processo –algo com um começo, meio e fim– de modo que se sinta como se tivesse realizado algo tangível, com um saboroso produto final rico em carboidratos. As pessoas têm notado que sovar a massa pode gerar uma espécie de calma zen, forçando a mente ansiosa a se fixar no presente. Estas explicações para o fato de as pessoas estarem recorrendo ao forno soam plausíveis, mas além delas há razões menos óbvias, mas profundamente enraizadas, sobre o porquê de o pão ser, especificamente, uma das oficiais #lockdowngoals (metas do confinamento).

A escassez generalizada de farinha e fermento nos EUA deixa clara a popularidade de assar como estratégia de sobrevivência no confinamento, com receitas de pão no topo das listas de mais procuradas nas ferramentas de busca

A simples substância massuda é perene e onipresente. Foi vital na formação das sociedades primitivas. O cultivo e a domesticação do trigo encorajaram os humanos a deixarem seu estilo de vida nômade e a se dedicarem à agricultura, formando povoações que deram origem a cidades e formas cada vez mais sofisticadas de sociedade. Arqueólogos encontraram provas de preparação do pão por humanos há mais de 14 mil anos, no fim da Idade da Pedra. Variações dele também podem ser encontradas quase que em todo lugar mundo afora, dos parathas sul-asiáticos ao challah judaico e todos os outros pães “chatos” e de fôrma.

A nós que estamos empacados em casa, parte da ansiedade sentida é devida ao sentimento de ser lançado para fora do próprio tempo: o mundo está em pausa. Enquanto as economias ficam estagnadas e a vida pública cessa, assar pão nos permite reconectar com o nosso lugar na história, e um com o outro. Nestes tempos sem precedentes, precisamos de uma linguagem comum para falarmos além de fronteiras nacionais e culturais pelas quais essa pandemia tem percorrido.

Quando pensamos em socializar e em coletividade, pensamos em partilhar o pão; até mesmo a história deste termo revela o papel central do pão nas nossas concepções de comunidade. Na mitologia bíblica, partilhar o pão era uma metáfora para compartilhar bençãos. Porém, como nos encontramos atualmente impossibilitados de fazer isto pessoalmente, faz sentido que o façamos agora no único espaço comum que nos restou: online. A explosão de hashtags e instaposts em torno do ato de assar demonstra que, no nosso mundo digitalmente viabilizado, a comida que fazemos é consumida duas vezes: uma vez na vida real, e uma outra vez online.

O crítico francês Roland Barthes afirmava que a comida podia ser “lida” como qualquer texto escrito. Postar fotos do pão que assamos se trata, parcialmente, de apresentação de si mesmo; é criar uma narrativa sobre nossas próprias vidas –mas é também uma maneira de falar uns com os outros. Há uma cultura próspera de padeiros online compartilhando dicas de como conseguir que aquele fermento fique no ponto certo, como fazer um pão saudável, ou por onde começar se você nunca tiver feito pão antes. Do mesmo modo, padeiros novatos e tarimbados estão compartilhando seus sucessos na internet.

Momentos como este podem causar terrível ansiedade, mas também um desejo ávido de ver como seria se tudo viesse a desmoronar. Isto pode explicar por que tantos dentre nós se voltaram à literatura e cinema pandêmicos

Neste momento único na história, o pão transmite vários significados. Ao assá-lo, conseguimos nos reassegurar de que estejamos muito bem no confinamento porque ainda podemos ter acesso aos prazeres protetores das coisas caseiras. O aconchego e a segurança que isso inspira são inestimáveis quando nossos espaços públicos são considerados perigosos. A atemporalidade do pão transmite a simplicidade e o conhecimento do passado, nos enraíza de volta a uma narrativa reconhecível da história. Esta é uma virada na direção da nostalgia –um olhar de volta a um tempo que veio antes, um tempo que se percebe como menos incerto.

O Brexit também causou este tipo de nostalgia, levando as pessoas de volta a seus loteamentos para cultivar os próprios produtos, revigorando o espírito do “Dig for Victory” (“Cavar para a Vitória”) da Segunda Guerra Mundial. O antídoto para a ansiedade é com frequência a simplicidade e a certeza, dois ingredientes vitais no impulso nostálgico.

Há também compulsões mais sinistras em jogo, quando se trata do nosso interesse renovado pelo pão. Assar pão nos convida a ensaiar fantasias pós-apocalípticas de sobrevivência, autossuficiência e regressão.

Se a sociedade entra em colapso, dizemos a nós mesmos que ainda podemos fazer e dar de comer a nossas famílias e a nós próprios alguma coisa saudável e nutritiva. Este mesmo impulso de catastrofização induz ao surto de compras e acumulação, uma reação comum às crises. Estes cenários de “dia do juízo final” invocam imagens de uma sociedade que lembra formas de vida mais antigas, mais básicas. À luz destas fantasias regressivas, nossa atual fascinação por uma comida que supostamente foi inventada no período pré-Neolítico faz até mais sentido.

O aconchego que isso inspira é inestimável quando os espaços públicos são considerados perigosos. A atemporalidade do pão transmite a simplicidade e o conhecimento do passado, nos enraíza de volta a uma narrativa reconhecível da história

Tempos de preocupação nacional e global podem provocar uma fascinação bizarra e um tanto mórbida pelo fim dos tempos. Momentos como este podem causar terrível ansiedade, mas também a curiosidade ardente de testemunhar o advento do desastre, um desejo ávido de ver como seria se tudo viesse a desmoronar. Isto pode, de algum modo, explicar por que tantos dentre nós se voltaram à literatura e cinema pandêmicos no confinamento. Contágio (2011), de Steven Soderbergh, tornou-se, de repente, popular nas plataformas de streaming. Fantasias apocalípticas contêm tanto prazer quanto medo.

Portanto, embora possa parecer que o pão seja a mais simples das comidas, ele transmite uma multitude de significados, e assá-lo preenche variadas funções práticas, psicológicas e sociais. Tudo em um dia de trabalho, para o humilde e confiável pedaço de pão.

Muzna Rahman é professora de Inglês na Manchester Metropolitan University

*APOIE O TRADUTOR: Gostou da matéria? Contribua com o tradutor. Todas as doações para este post irão para o tradutor Maurício Búrigo. Se você preferir, pode depositar direto na conta dele: Maurício Búrigo Mendes Pinto, Banco do Brasil, agência 2881-9, conta corrente 11983-0, CPF 480.450.551-20. Obrigada por colaborar com uma nova forma de fazer jornalismo no Brasil, sustentada pelos leitores.

 


Nenhum comentário Escrever comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião da Socialista Morena. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Deixe uma resposta

 


Mais publicações

Politik

Grandes enganações do capitalismo: o CD


Existe tecnologia mais fail do que CD? A porcaria arranha, quebra, fura, mofa, descasca ou simplesmente NÃO TOCA! Quem nunca passou raiva com um CD que fica rodando, rodando, rodando e zunindo sem parar? Aí…

Feminismo

“Máscara é coisa de viado”. Ou: a heterossexualidade frágil dos heterossexuais


Pobre do homem cuja masculinidade depende de usar ou não um trapo no meio da cara