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Denúncia do MP contra Greenwald lembra perseguição da direita a Samuel Wainer

Criador do The Intercept é acusado de ter "auxiliado" e "orientado" grupo de hackers, embora a PF o tenha inocentado

Samuel Wainer na CPI da Câmara contra a Última Hora, em 1953 Foto: Acervo Última Hora/Apesp
Cynara Menezes
21 de janeiro de 2020, 18h48

Em outubro de 1955, um ano e dois meses após o suicídio de Getúlio Vargas, o Tribunal de Justiça do Rio condenava Samuel Wainer, fundador do jornal Última Hora, a um ano de prisão por “falsidade ideológica”. Wainer era acusado de se passar por brasileiro tendo nascido na Bessarábia, então parte do Império Russo. A Constituição proíbe que brasileiros não-natos possuam meios de comunicação, um protecionismo do qual os donos da mídia não abrem mão até hoje, ao contrário do que pregam em relação ao petróleo e demais riquezas nacionais.

De fato, o jornalista fora trazido ao Brasil pelos pais aos 2 anos de idade, mas isto só seria revelado 25 anos após sua morte, em 2005, na edição ampliada da autobiografia de Wainer, Minha Razão de Viver. Em 1953, duas Comissões Parlamentares de Inquérito foram montadas na Câmara dos Deputados para averiguar os empréstimos que a Última Hora havia recebido do Banco do Brasil, a quem, na verdade, toda a imprensa da época devia –tanto é que ambas as CPIs concluíram haver irregularidades nas transações do BB com os veículos de comunicação em geral, não só com a Última Hora. Wainer, porém, só se livraria da acusação de “falsidade ideológica” após decisão do Supremo Tribunal Federal, em novembro de 1955, mandando soltá-lo da prisão.

A Constituição proíbe que brasileiros não-natos possuam meios de comunicação, um protecionismo do qual os donos da mídia não abrem mão até hoje, ao contrário do que pregam em relação ao petróleo e demais riquezas nacionais

Quando veio o golpe militar, apoiado pelo mesmo Carlos Lacerda que capitaneara a perseguição a Samuel Wainer 19 anos antes, o jornalista capitulou e se antecipou à tormenta, pedindo asilo na embaixada do Chile. A Última Hora, que entre sua criação, em 1951, e o golpe de 1964 havia se tornado um dos maiores e mais modernos jornais brasileiros, com uma versão paulista e edições locais em cinco capitais, acabou sendo vendida e descaracterizada até desaparecer.

O que mais chama a atenção na campanha contra Samuel Wainer é que, em nenhum momento, seus colegas na “grande” imprensa lhe manifestaram solidariedade ou apoio. Pelo contrário. “Na Tribuna da Imprensa (de Carlos Lacerda) e nos Diários Associados (de Assis Chateaubriand), reportagens, artigos e editoriais fustigavam-me diariamente. Graças à TV Tupi, a figura de Lacerda tornara-se familiar a centenas de milhares de espectadores, que a cada noite ouviam mais acusações contra mim. E o cerco se tornou incomparavelmente mais agressivo a partir de 12 de julho de 1953. Nesse dia, o Diário de São Paulo, um dos jornais da cadeia de Assis Chateaubriand, publicou uma manchete que agitaria o país: ‘Wainer não nasceu no Brasil'”, conta, na autobiografia.

Greenwald acusa Moro de estar por trás da denúncia. “O procurador que levou esta denúncia é o mesmo que tentou criminalizar Felipe Santa Cruz por criticar Sergio Moro. Obviamente ele está abusando de seu cargo para atacar inimigos políticos”

“Durante todo o tempo, o restante da imprensa apoiou meus adversários, fustigou o governo e colaborou na ofensiva contra mim. Não houve um único jornal que tenha publicado oito, dez linhas demonstrando compaixão pela Última Hora ou pelo homem Samuel Wainer. Jornalistas adoram assinar manifestos, mas nenhum deles se arriscou a redigir algum documento que me apoiasse. Só os donos de jornais divulgaram um manifesto, afirmando que, por representar uma ameaça à liberdade de imprensa, meu jornal deveria ser fechado.”

A lembrança do que aconteceu a Samuel Wainer vem automaticamente à memória ao ler a notícia de que Glenn Greenwald foi denunciado pelo Ministério Público Federal como “cúmplice” dos hackers que invadiram os celulares da turma da Lava-Jato em Curitiba. Na denúncia, o procurador Wellington Divino de Oliveira afirma que Greenwald “de forma livre, consciente e voluntária, auxiliou, incentivou e orientou, de maneira direta, o grupo criminoso, DURANTE a prática delitiva, agindo como garantidor do grupo”.

Divino de Oliveira é o mesmo procurador que denunciou por “calúnia”, em dezembro passado, o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, por ter dito que o ex-juiz e atual ministro da Justiça de Bolsonaro, Sergio Moro, “banca o chefe de quadrilha”. O procurador chegou a pedir o afastamento do presidente da OAB, mas a Justiça rejeitou a denúncia em janeiro. No texto da denúncia contra Greenwald, o procurador só se refere a ele como “jornalista”, entre aspas.

“Não é possível identificar a participação moral e material do jornalista Glenn Greenwald nos crimes investigados”, afirmou o delegado Luiz Flávio Zampronha no relatório da Polícia Federal que deu o caso por encerrado

O jornalista Glenn Greenwald publicou um vídeo no twitter onde acusa Moro de estar por trás de ambas as denúncias. “O procurador que levou esta denúncia é o mesmo que tentou criminalizar o Felipe Santa Cruz por criticar Sergio Moro. Obviamente ele está abusando de seu cargo para atacar inimigos políticos.”

Glenn salientou que a Polícia Federal, sob o comando do mesmo Moro, fez uma investigação sobre o caso e concluiu que nem ele nem a ex-deputada Manuela Dávila, que o colocou em contato com os hackers, cometeu nenhum crime. “Não é possível identificar a participação moral e material do jornalista Glenn Greenwald nos crimes investigados”, afirmou o delegado Luiz Flávio Zampronha no relatório que deu o caso por encerrado.

“Esse é um ataque contra a imprensa livre, mas também é um ataque à Polícia Federal. Isso é obviamente uma retaliação do governo Bolsonaro. Nós não vamos nos sentir intimidados”, disse o jornalista.

Assim como Samuel Wainer, Greenwald é estrangeiro. Nasceu nos Estados Unidos e adotou o Brasil como seu país, radicando-se no Rio de Janeiro a partir de 2005. Ele é casado com o deputado federal David Miranda; juntos, adotaram duas crianças. “Eu investi minha vida no futuro do Brasil”, publicou Glenn ao ser confrontado com uma petição da extrema direita exigindo a Bolsonaro sua deportação, da mesma forma como o criador da Última Hora afirmava: “Ao longo de minha vida, jamais duvidei de que eu, Samuel Wainer, era um brasileiro”.

Desde o golpe contra Dilma Rousseff, o jornalista, criador do site The Intercept, vem sendo atacado pela direita e pela extrema direita, e, também como Wainer, tem encontrado pouca ou nenhuma solidariedade dos colegas na mídia comercial. Para tentar prejudicar o jornalista, o Estadão, por exemplo, já o chamou de “ativista” em editorial –pelo Estatuto do Estrangeiro, da época da ditadura, brasileiros não-natos eram impedidos de ter atuação política no Brasil, mas o estatuto foi extinto em 2017.

Em vez de defender a liberdade de imprensa, nomes da extrema direita no jornalismo, como Augusto Nunes, que agrediu o colega norte-americano durante um programa da rádio reacionária Jovem Pan, reivindicam publicamente a deportação de Greenwald. E vejam como a História é caprichosa nas ironias: foi Nunes o responsável pela organização da autobiografia de Wainer.

Em julho do ano passado, Moro publicou uma portaria polêmica, a portaria 666, que torna possível a deportação imediata de estrangeiros considerados “pessoas perigosas ou que tenham praticado ato contrário aos princípios e objetivos dispostos na Constituição Federal”. Justo neste momento, o site The Intercept divulgava os primeiros áudios da Vaza-Jato, que comprovaram a atuação parcial da Lava-Jato contra o ex-presidente Lula, a partir do vazamento feito pelos hackers.

Uma última coincidência a unir Wainer e Greenwald: ambos são judeus.


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