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Stranger Things é uma metáfora sobre como estamos nos perdendo no mundo virtual

***SPOILER***NÃO LEIA ESTE TEXTO SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU A SÉRIE ATÉ O FINAL***SPOILER*** Numa leitura óbvia, Stranger Things, a série do canal por assinatura Netflix cuja primeira temporada virou febre entre os brasileiros, é uma espécie de paródia genial de sucessos dos anos 1980, principalmente E.T. (1982), Os Goonies (1985) e Conta Comigo (Stand by Me, […]

Cynara Menezes
09 de agosto de 2016, 15h36

tabuleiro

***SPOILER***NÃO LEIA ESTE TEXTO SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU A SÉRIE ATÉ O FINAL***SPOILER***

Numa leitura óbvia, Stranger Things, a série do canal por assinatura Netflix cuja primeira temporada virou febre entre os brasileiros, é uma espécie de paródia genial de sucessos dos anos 1980, principalmente E.T. (1982)Os Goonies (1985) e Conta Comigo (Stand by Me, de 1986), misturada a filmes de terror como A Pequena Loja de Horrores (1987), O Monstro do Pântano (1982) e Invasores de Corpos (1978). Os próprios efeitos visuais são retrô, intencionalmente toscos. Mas eu vejo, na aparente trama de ficção científica e suspense, uma poderosa fábula sobre como estamos perdendo nossos filhos (e a nós mesmos) para o mundo virtual.

O grupo de pré-adolescentes que protagoniza o episódio de estreia é formado por garotos e garotas “estranhos”, daquele tipo que geralmente é alvo de bullying tanto dos valentões quanto dos “populares” do colégio. O casting feito pelos irmãos Matt e Ross Duffer, a dupla criadora da série, aponta explicitamente neste sentido: o menino de 12 que ainda não ganhou dentes definitivos; o garoto negro na vizinhança branca; o nerd clássico de corte de cabelo Beatles. O garoto e a garota que desaparecem são ainda mais extremamente “desajustados”: o sensível menino Will, que é chamado de “gay” pelos colegas, e Barb, a adolescente solitária que não se enquadra nos padrões de beleza. Vítimas ideais para “monstros” desta e de outras dimensões.

radioamador

(O aparelho de rádio-amador, quem conhece?)

A nostalgia da era anterior à internet perpassa toda a narrativa: os meninos com seus jogos de tabuleiro e seus passeios de bicicleta (e que bikes! as bicicletas infanto-juvenis já foram bem mais bacanas, não?); as experiências com o aparelho de rádio-amador, coisa que pouca gente sabe o que é atualmente; o divertido walk-talkie em contraposição ao banal celular de hoje em dia. A câmera fotográfica analógica e suas surpresas na hora da revelação na quarto escuro são um ponto-chave do enredo, assim como o telefone de disco grudado na parede. Tampouco foi por acaso a escolha, para viver a mãe de Will, de outro ícone dos 1980, Winona Ryder, que já confessou colecionar fitas cassete com mensagens de voz, detestar gadgets tecnológicos e não ter o menor interesse em redes sociais.

bikes

(As bicicletas invocadas da série)

A menina Eleven é uma hacker, o elo entre os dois mundos (e a referência aí é mais recente, a trilogia Millenium, do sueco Stieg Larsson). Cobaia nas mãos de um cientista louco, ela é capaz de ir até o mundo invertido e voltar, e tem medo de permanecer lá. Já viu como é o outro lado e sabe como é escuro, pegajoso, sem retorno. Privada de afeto e diversão, Eleven é uma menina triste, assustada, apesar de seus poderes paranormais. Ter contato com aquela distopia significou para ela a perda da infância, que a menina enfim consegue resgatar na companhia dos novos amigos. É este mundo, o das brincadeiras, das descobertas, do olho no olho, que é bacana. O outro é ruim. Caberá a Eleven impedir que o Demogorgon roube também a infância de seus amigos.

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(Eleven e o Demogorgon, ladrão de infância)

O que é o “mundo invertido” da série senão um mundo paralelo onde as pessoas não mais se relacionam de verdade umas com as outras? Joyce (Winona) perdeu Will, mas sabe que ele não está morto e sim definhando aos poucos em uma realidade inatingível, na qual não é possível mais a uma mãe se conectar com o próprio filho. Não é exatamente assim que muitas vezes nos sentimos em relação às nossas crianças, mergulhadas durante horas em seus tablets e jogos eletrônicos? Ou em relação a nós mesmos, gastando nossas vidas diante do computador e do smartphone, estabelecendo contatos virtuais em vez de encontrarmos com gente que amamos, de carne e osso? Só é possível a Joyce “falar” com o filho perdido através de lâmpadas!

winona

(“Meu filho, responda”)

A intenção dos autores de fazer esta crítica metafórica às redes sociais e à era virtual fica clara no último capítulo, quando Will aparece literalmente “conectado” ao monstro que suga a sua energia e o mantém ali, prisioneiro, longe de qualquer convívio com a família e amigos. A jovem Barb, coitada, já era, foi literalmente sugada pelo mundo de cabeça para baixo para sempre. Para Will, que é pequeno, ainda existe salvação. O menino acaba finalmente desconectado e volta à sua vidinha de antes, de jogar com os amigos usando a imaginação e de andar de bicicleta. Só que Will esteve no outro mundo e foi contaminado. Ficou com a semente da distopia implantada nele. Nunca mais será o mesmo.

willconectado

(Will: conectado ao monstro do mundo paralelo)

Me parece sintomático que uma das séries de TV mais badaladas dos últimos tempos, em pleno século 21, seja, no fundo, ludita, antitecnológica. Ouviremos o alerta subliminar de Stranger Things? Duvido.

***SPOILER***NÃO LEIA ESTE TEXTO SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU A SÉRIE ATÉ O FINAL***SPOILER***

 


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