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Um ano após o golpe, Lucho Arce, candidato de Evo Morales, é favorito na Bolívia

No próximo dia 18 de outubro, os bolivianos irão escolher entre a pátria ou a pilhagem de suas riquezas

O candidato de Evo, Lucho Arce. Foto: divulgação/twitter
Martín Fernández Lorenzo
06 de outubro de 2020, 17h17

No dia 18 de outubro finalmente acontecerão as eleições presidenciais na Bolívia, e nosso país irmão buscará recuperar sua democracia, brutalmente arrancada por um golpe de estado ocorrido em 10 de novembro passado. Tudo começou após as eleições presidenciais de 20 de outubro de 2019, quando Evo Morales venceu no primeiro turno. Em nome de uma suposta fraude, começaram as marchas, greves e outros incidentes promovidos pela oposição, para posteriormente se somar aos motins policiais e ao pedido de renúncia feito pelas forças armadas, o que levou o presidente a deixar o cargo para evitar um banho de sangue.

O atual candidato do MAS (partido de Evo Morales), Luis “Lucho” Arce, lidera as últimas pesquisas e poderia vencer seu principal adversário, Carlos Mesa, no primeiro turno. Para que isso aconteça, precisará obter 50% dos votos, ou pelo menos 40%, obtendo uma diferença de 10 pontos para o segundo. Após a pesquisa do início de setembro, a ditadora Jeanine Añez resolveu sair da disputa, já que sua intenção de voto só alcançou 10%. Ela se manifestou sobre a desistência alegando que não queria o “retorno da ditadura” ou colocar em jogo a democracia.

Nestes tempos, a golpista tentou acusar Morales de “terrorista”, o que foi questionado até mesmo pela Human Rights Watch, que alegou que eram denúncias graves sem qualquer evidência. Hoje Añez tenta difamar o ex-presidente o acusando de “pedófilo”, novament, sem provas.

Por sua vez, Luís Fernando Camacho, que ajudou a presidenta de facto chegar ao poder e é o terceiro nas pesquisas, criticou Añez duramente e pediu que ela deixasse de fazer spots de campanha… através de um spot de campanha.

Camacho, um extremista de direita que faz com que Bolsonaro pareça uma pessoa decente e educada, faz seus anúncios com um rosário enrolado na mão e, em seus discursos pré-pandêmicos, com uma pessoa ao seu lado segurando uma imagem da Virgem Maria. Nada haveria de errado com seu fervor religioso, se não fosse por ele ter pertencido a um grupo paramilitar e por representar o setor mais racista da oligarquia boliviana, o que contradiz a mensagem religiosa que tenta transmitir.

Não se pode esquecer que este nefasto personagem havia declarado que o povo boliviano iria ver Evo cair no mesmo dia em que o ex-presidente, dias depois de ser reeleito, sofreu um “acidente” com seu helicóptero, em 4 de novembro. No exílio, o próprio Evo Morales afirmou que foi um atentado.

Um dos líderes do golpe, Camacho, um extremista de direita que faz com que Bolsonaro pareça decente e educado, faz seus vídeos com um rosário enrolado na mão e, em seus discursos pré-pandêmicos, com uma pessoa ao lado segurando uma imagem da Virgem Maria

Voltando ao plano eleitoral, e tendo essas disputas entre a ultradireita, o caminho fica mais limpo para o candidato Arce. Mas é preciso recuar um pouco nos fatos, para ver como todo o arco oposicionista boliviano participou diretamente do golpe. Foi o candidato Mesa, ex-presidente e considerado “o último presidente neoliberal” ou “o Macri boliviano”, que, ao perder as eleições de 20 de outubro de 2019, denunciou automaticamente a fraude.

A partir daí, começaram a acontecer eventos que montaram a estrutura para tirar o poder de Morales e invalidar as eleições. A OEA (Organização dos Estados Americanos), ou poderíamos chamá-la de Organização do Estado Norte-Americano, foi quem imediatamente confirmou as declarações de Mesa e, em um relatório, validou a fraude.

Com o apoio dos EUA e de outros países da região, Morales passou a ser condenado por um crime totalmente inexistente. Meses depois, uma equipe de pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) apresentou um relatório independente contratado pelo Center for Economic and Policy Research, em Washington, e rejeitou a suposta manipulação das eleições, publicando um artigo no Washington Post em fevereiro: “A Bolívia classificou as eleições de outubro como fraudulentas. Nossa investigação não encontrou razões para suspeita de fraude”. Em junho, o New York Times publicaria outro relatório independente que também negava a fraude.

O relato completo que o CELAG fez na construção da espinha dorsal do golpe pelos EUA é mais do que interessante, tendo a OEA como braço executor. Detalha as contribuições para as campanhas de desinformação dos norte-americanos nos últimos anos, como o treinamento em suas terras de integrantes das Forças Armadas da Bolívia que se rebelaram contra Morales, e a vergonhosa manipulação da OEA sobre os resultados eleitorais.

Meses depois, uma equipe de pesquisadores do MIT fez um relatório independente e rejeitou a suposta manipulação das eleições bolivianas por Evo Morales. Em junho, o New York Times publicaria outro relatório independente que também negava a fraude

Vale acrescentar o artigo de Glenn Greenwald no The Intercept, sobre como a manipulação da poderosa mídia norte-americana influenciou na suspeita de uma fraude que nunca existiu. Agora resta saber por que o golpe se deu. Os motivos parecem bem claros se olharmos para o governo Morales, como ele destacou na ONU em setembro de 2019:

– Crescimento econômico de 4,9% em média nos últimos 6 anos;

– De 2005 a 2019, o PIB passou de 9,5 bilhões de dólares para 40,8 bilhões de dólares;

– Menor desemprego na região: 4,2%

– A pobreza extrema caiu de 38,2% para 15,2% em 13 anos

– A expectativa de vida aumentou 9 anos;

– O salário mínimo passou de 60 dólares para 310 dólares;

– A diferença de gênero na titulação de terras para mulheres foi reduzida, 138.788 mulheres receberam terras até 2005 e 1.011.249 até 2018;

– A Bolívia é o terceiro país do mundo com maior participação feminina no parlamento: mais de 50% é composto por mulheres;

– A Bolívia se declarou um território livre de analfabetismo em 2008;

– A evasão escolar caiu de 4,5% para 1,5% entre 2005 e 2018;

– A taxa de mortalidade infantil caiu 56%;

– Aprovada a lei de atendimento gratuito para pacientes com câncer;

– Nacionalizaram os recursos naturais;

– Construção de um Sistema Único de Saúde que garanta que 100% dos bolivianos tenham acesso a um sistema gratuito digno;

– Um modelo econômico, social e produtivo que reconhece os serviços básicos como um direito humano, e não como uma empresa privada.

Ao contrário do discurso de Bolsonaro na ONU, ninguém poderia chamar Morales de mentiroso. A gestão boliviana tem sido, sem dúvida, uma das melhores do planeta nas últimas décadas. Não foi à toa que o MAS destacou seu melhor jogador para estas eleições, que foi o ministro da Economia durante todos esses anos da administração de Evo Morales: Luis Arce. Muitos atribuíam o “milagre econômico boliviano” a Arce, considerado o cérebro do sucesso de Evo. Após despontar como candidato favorito, passaram a chamá-lo de “fantoche” de Morales.

Para refrescar um pouco a memória, é preciso voltar à ONU em 2018, onde Morales, a poucos centímetros de Trump, o enfrentou com bravura. Denunciou como os EUA atacaram o Iraque e a Líbia sem nenhuma acusação concreta além de mentiras e sua constante ameaça de querer invadir a Venezuela: “Os EUA não estão interessados ​​em democracia. Ou não teriam financiado golpes nem financiado ditadores. Eles não estão interessados em direitos humanos ou Justiça”.

É provável que o líder boliviano já soubesse o que os norte-americanos estavam tramando. Mas há mais uma razão, e talvez a razão mais importante para o ataque contra a Bolívia: o lítio. Não à toa, Evo chama o golpe boliviano de “golpe do lítio”.

No dia 24 de julho, foi o próprio presidente da Tesla, Elos Musk, empresa que fabrica e projeta carros com baterias de lítio, que respondeu a um usuário do twitter que o questionou sobre o golpe na Bolívia: “Vamos derrubar quem quisermos”. Imediatamente, Evo Morales o rebateu: “Outra prova de que o golpe se devia ao lítio boliviano. Vamos defender nossos recursos naturais”.  A Bolívia é o país com as maiores reservas do planeta (21 milhões de toneladas) do considerado “ouro branco” ou “óleo branco”.

Infelizmente, a história do país sul-americano parece se repetir com o passar das décadas, e roubar os recursos raturais parece uma tradição dos mais poderosos. Em 1971, Eduardo Galeano escreveu em As Veias Abertas Da América Latina: “Dizem que a então Rainha Vitória, enfurecida (pela humilhação a um embaixador inglês na Bolívia), pediu um mapa da América do Sul, riscou uma cruz sobre a Bolívia e sentenciou: ‘Bolívia não existe’. Para o mundo, com efeito, a Bolívia não existia e não existiu depois; o saque da prata e, posteriormente, o despojo do estanho não foram mais do que o exercício de um direito natural dos países ricos ”. Parece que o costume dos poderosos de saquear os recursos do povo boliviano continua intacto depois de séculos.

No dia 18 de outubro, a Bolívia irá escolher: pátria ou pilhagem.

 


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PAULO ROBERTO MARTINS em 06/10/2020 - 19h40 comentou:

Resta investigar a participação provável de fascistas brasileiros na armação do golpe,ao lados dos norteamericanos,já que somos aqui os cachorros encarregados de manter afastados qualquer que perturbe a tranquilidade do quintal ianque.

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