Como o Macarthismo perseguiu professores (exatamente como quer o Escola Sem Partido)

Publicado em 14 de junho de 2017
("Quão vermelha é a escolinha vermelha?)

(“Quão vermelha é a escolinha vermelha? É hora dos pais americanos saberem os fatos!”)

Há uma história pouco contada dentro da histeria anticomunista que tomou conta dos Estados Unidos entre 1947 e 1956, a chamada “caça às bruxas” ou Macarthismo: a perseguição, pelo senador Joseph McCarthy e seus discípulos, aos professores do país. Em março de 1952, a Suprema Corte norte-americana atestou a constitucionalidade da Lei Feinberg, aplicada no Estado de Nova York desde 1949. De acordo com a lei, as escolas públicas estavam proibidas de contratar professores “subversivos” e poderia demitir todos os docentes que julgassem “comunistas”.

Após o Supremo dar seu aval à lei, que contrariava frontalmente a primeira emenda da Constituição norte-americana, vários outros estados a adotaram, perseguindo e demitindo professores apontados como “subversivos”. Na maioria dos Estados, os docentes contratados por instituições educacionais públicas depois desta data eram obrigados a assinar um juramento atestando que não eram nem nunca foram comunistas.

Por 6 votos a 3, os juízes da Suprema Corte consideraram, como noticiou o New York Times na época, que “o Estado tem o direito constitucional de proteger as mentes imaturas das crianças nas escolas públicas da propaganda subversiva, sutil ou não, disseminada por aqueles para quem elas olham buscando informação, autoridade e liderança”.

Qualquer semelhança com o que diz o movimento Escola Sem Partido no Brasil de 2017 não é mera coincidência: “É fato notório que professores e autores de livros didáticos vêm-se utilizando de suas aulas e de suas obras para tentar obter a adesão dos estudantes a determinadas correntes políticas e ideológicas; e para fazer com que eles adotem padrões de julgamento e de conduta moral –especialmente moral sexual– incompatíveis com os que lhes são ensinados por seus pais ou responsáveis”.

Na prática, a Corte Suprema norte-americana avalizou o que já estava ocorrendo em todo o país com a “caça às bruxas” promovida pelos macarthistas em escolas e universidades: professores eram dedurados, submetidos a interrogatório e perdiam seus empregos. A paranoia anticomunista na educação havia começado em 1946, com a formação do Conselho Nacional para a Educação Americana, uma organização que tinha como finalidade “erradicar o socialismo, o comunismo e todas as formas de marxismo das escolas e universidades da América, e estimular a educação americana”, seja lá o que isto signifique.

Um ano antes de a lei Feinberg ser considerada constitucional, em fevereiro de 1951, o diretor do FBI, J. Edgar Hoover, instado por governadores de estados como Delaware e Illinois, decidira passar a espionar professores das escolas públicas e universidades do país para que os políticos não precisassem passar pelo “constrangimento” de serem acusados de perseguir docentes. Se os governadores fossem municiados confidencialmente, argumentaram, poderiam se proteger das acusações. A partir daí, o FBI teve carta branca para expandir a espionagem que fazia sobre os artistas hollywoodianos, intelectuais e políticos também ao professorado e demais funcionários públicos dos EUA.

“Em 30 de abril de 1951, uma conferência de executivos do FBI recomendava fazer uma purga de professores nas escolas públicas, porque ‘o contato diário dos professores com os pupilos cria uma ligação próxima e faz os professores controlarem efetivamente o pensamento das crianças e então insidiosamente impregnar suas mentes com o pensamento do partido Comunista’. Hoover deu sua aprovação escrevendo: ‘OK, H.’ na recomendação. O diretor acreditava que os subversivos estavam ’em ação em todas as instituições educacionais, desde o jardim da infância até a universidade'”, diz a introdução do historiador Kenneth O’Reilly, da Universidade do Alasca, para o catálogo dos documentos sobre a perseguição aos professores.

("é hora de)

(“Decência, honra, sinceridade:  ideias idiotas!” “É hora de todos os pais americanos terem um interesse maior em nossas escolas e uma mão mais ativa em moldar as mentes de suas crianças”)

Ao contrário do que Hoover pensava, a opinião pública não ficaria do lado da caça aos professores, mas a mídia, sim. Os estudiosos do tema dizem que somente um jornal do país, o Denver Post, teve um papel diferente. Como acontecia (e os “defensores da democracia” criticavam) na União Soviética de Stalin, colegas e alunos eram encorajados a denunciar os professores quando viam algum sinal de que eram “traidores” da pátria e “antiamericanos”, forma como o senador McCarthy e os adeptos de sua caça às bruxas chamavam os comunistas. Em vez dos fuzilamentos dos regimes totalitários, o que acontecia era o estrangulamento econômico do professor, que era demitido e não conseguia mais emprego em lugar algum.

Havia julgamentos públicos espetaculosos (“show trials”) de professores acusados de comunismo em prefeituras, salões comunitários, acampamentos militares, em escolas e presídios. A pergunta era a mesma: “Você é atualmente ou já foi membro do partido Comunista?” Milhares de professores e funcionários públicos perderam seus empregos no período, muitos chegaram a ser presos. Livros foram banidos ou queimados, como na distopia de Fahrenheit 451, o clássico da ficção científica de Ray Bradbury. E não é difícil imaginar quantas injustiças foram cometidas em nome de “salvar as criancinhas do perigo vermelho”.

("Então você lê, hein?" Cartum de Herblock no Washington Post, 1949)

(“Então você lê livros, hein?” Cartum de Herblock no Washington Post, 1949)

Em fevereiro do ano passado, o Boston Globe contou a história de como a loucura anticomunista do macarthismo destruiu a vida de uma professora na cidadezinha de Wayland, Massachusetts, em 1954. De nada adiantou Anne Hale afirmar, em um pronunciamento público, que era uma defensora da Constituição e da democracia, apesar de ter sido membro do Partido Comunista norte-americano na juventude. Foi demitida e perseguida a vida inteira. Só foi reintegrada à escola pública pela Justiça em 1968, 14 anos depois, quando se encontrava doente. Morreu antes de reassumir, aos 60 anos, vítima de um tumor no cérebro.

No ano em que foi afastada de sua querida escola, Anne não teve o direito nem de se despedir dos alunos. Deixou uma carta dizendo:

Queridas crianças,

Sua família irá dizer a vocês que pessoas diferentes possuem diferentes ideias sobre como o país deve ser governado. tenho trabalho há longo tempo da melhor maneira que conheço para assegurar que ‘a liberdade e a justiça para todos’ sobre a qual falamos toda manhã estará sempre conosco e que irá melhorar. aqueles que não concordam comigo dizem coisas duras.

Lembrem apenas destas coisas, que eu sei que vocês sabem: eu amo meu país e amo vocês.

Professores de universidades conceituadas, como Harvard e o MIT, também sofreram perseguições. Organizações estudantis que estudavam o marxismo foram fechadas e estudantes expulsos. Em 1949, a Universidade de Washington demitiu três professores acusados de “comunismo”, após um processo de investigação sobre 11 docentes, mesmo sem o Comitê de Atividades Antiamericanas ter conseguido provar que “doutrinavam” os alunos. Os três professores nunca puderam retornar à academia.

Hoover, o diretor do FBI, ordenou a seus agentes em todo o país que montassem dossiês sobre “pessoas subversivas” em pelo menos 54 universidades. Em 1953, a caça aos comunistas havia se estendido a Harvard, considerada um “reduto vermelho” por McCarthy, mas a universidade reagiu fortemente em defesa de sua longa tradição de liberdade acadêmica. O Conselho de Educação havia publicado, em 1949, uma lista dos Red-Ucators at Harvard, que citava 76 nomes, entre eles o do economista keynesiano John Kenneth Galbraith.

Um dos citados, o professor associado de Física Wendell H. Furry, denunciado por um colega como participante de um suposto grupo secreto de comunistas em Harvard, foi convocado a testemunhar diante do Comitê de Atividades Antiamericanas, mas preferiu permanecer calado. Ele foi defendido pelo próprio reitor da universidade, Nathan M. Pusey, que não aceitou os pedidos de McCarthy para que Furry fosse demitido, e também pelo Nobel de Física de 1952, seu colega de Harvard Edward M. Purcell. “É um homem que está subvertendo e pervertendo as mentes da juventude americana”, disse o senador sobre o professor.

McCarthy conseguiu pressionar instituições inteiras ao tirar as isenções fiscais de todas as entidades filantrópicas que tivessem “comunistas ou simpatizantes do comunismo em sua folha de pagamentos”. O resultado é que muitos destes centros simplesmente fecharam as portas.

(O professor Keyishian e seu alvo de T.S.Elliot nos anos 1960. Arquivo pessoal)

(O professor Keyishian e seu alvo de T.S.Elliot nos anos 1960. Foto: arquivo pessoal)

No início dos anos 1960, um grupo de professores da Universidade de Búfalo, no Estado de Nova York, se recusou a assinar o juramento sobre ser ou não ser comunista e decidiu apelar à Suprema Corte. Encabeçados pelo professor de Letras Harry Keyishian, os docentes ganharam a causa e a lei Feinberg, que proibia a contratação de comunistas, foi finalmente considerada inconstitucional em janeiro de 1967, por um placar apertado de 5 a 4.

O caso, que ficaria conhecido como Keyishian vs. Board of Regents, é considerado o mais importante em defesa da liberdade acadêmica da história do Direito norte-americano.  Após a reversão na Justiça, todos os professores que perderam seus empregos em virtude da perseguição macarthista foram readmitidos e tiveram sua aposentadoria assegurada.

50 anos depois que esta tragédia acabou, tentam ressuscitá-la no Brasil com o nome de Escola Sem Partido. O projeto de lei que regulamenta esta aberração está em discussão no Congresso, mas a caça às bruxas já está acontecendo: alunos estão gravando professores em sala de aula para acusá-los sabe-se lá de quê nas redes sociais; o vereador de direita paulistano Fernando Holiday invade escolas para assediar e constranger professores; coordenadores escolares recebem denúncias por e-mail acusando professores de serem “gays ou esquerdistas”; e uma professora de Santa Catarina está sendo processada na Justiça por uma aluna reaça por dar um curso sobre feminismo.

Se esta lei for aprovada, imaginem o que não fará às nossas escolas e à liberdade de expressão dos professores. O projeto em apreciação na Câmara deixa explícito que, como aconteceu nos EUA na década de 1950, abrirá caminho à deduragem e às perseguições de esquerdistas. “As secretarias de educação contarão com um canal de comunicação destinado ao recebimento de reclamações relacionadas ao descumprimento desta Lei, assegurado o anonimato”, diz o texto do famigerado projeto da Escola Sem Partido. É o neomacarthismo demonstrando que a direita brasileira caminha para trás.

 

 

 

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Os dez livros que abalaram o mundo

Publicado em 6 de junho de 2017
(Pôster do filme Outubro, de Sergei Eisenstein, 1927)

(Pôster de Yakov Ruklevsky para o filme Outubro, de Sergei Eisenstein, 1927)

Por Luiz Philippe Torelli*

No hoje longínquo e lendário ano de 1968, Nelson Rockfeller, herdeiro de uma das mais ricas e predadoras famílias do mundo, veio ao Brasil em uma das clássicas visitas de “boa vizinhança” à ditadura militar. Os ventos da revolta já estavam assanhando corações e mentes.

A guerra do Vietnã exibia a escalada de violência americana, despejando mais bombas do que em toda a Segunda Guerra Mundial. Os estudantes franceses convulsionavam o país e traziam consigo os operários. Naqueles dias, dois livros caíram em minhas mãos: Meu Amigo Che, de Ricardo Rojo, e O Manifesto Comunista, de Marx e Engels. A fracassada aventura do Che em terras bolivianas e a luta de classes atearam, literalmente, fogo em minhas ideias.

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Dias antes da chegada do magnata americano, fui ao banheiro da escola e havia um pequeno cartaz com os seguintes dizeres: “Rockfeller vem aí. Pau nele!”. Nos dias seguintes, houve protestos e passeatas por todo o país. Nossa antes movimentada e algo feérica W3 (avenida de Brasília) era o palco das batalhas campais com a polícia. O ano de 1968, todos sabem como terminou: edição do AI-5, acirramento da ditadura, fechamento do Congresso, prisões, tortura e morte.

A curiosidade despertada pela leitura é um novelo inesgotável, um livro puxa o outro. Nessa fiada, vieram A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels, e Eros e Civilização, de Herbert Marcuse. O primeiro, para mim, à época, tal qual o Manifesto Comunista, explicava tudo. Era a chave para o entendimento do mundo. O segundo, uma mistura explosiva de sexo, psicanálise, filosofia e marxismo, abria portas até então lacradas para um “calango” de Brasília. Era o mundo da chamada contracultura.

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A entrada na Universidade multiplicou as leituras e interesses. Mas já havia uma “picada aberta” por onde vieram As Três Fontes e as Três Partes Constitutivas do Marxismo, de Lênin, dissecando as principais influências do pensamento socialista: o socialismo utópico francês, que mais tarde pude estudar com detalhes nas aulas de Teoria da História da Arquitetura e do Urbanismo; a filosofia alemã, especialmente Hegel; e a economia política britânica de Ricardo e Adam Smith. O Contrato Social, de Rousseau, foi muito importante para um posicionamento na linha do tempo e para a percepção dos conflitos entre os direitos individuais e os coletivos e do quanto injusta era a nossa sociedade. Deu para ver também que o caminho era mais longo e conflituoso do que eu pensava.

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Fui brevemente seduzido pelas ideias anarquistas, ao ler Anarquismo: Roteiro da Libertação Social, de Edgard Leuenroth, tipógrafo revolucionário que liderou as primeiras greves proletárias no Brasil. Um dos maiores centros de documentação dos movimentos operários, localizado na Universidade de Campinas (Unicamp), leva seu nome, em homenagem a sua dedicação e pioneirismo. Por esse tempo, também tive um flerte prolongado com o trotskismo. A História da Revolução Russa, uma monumental resenha crítica daqueles dias de outubro de 1917, narrada na terceira pessoa, tornou Leon Trotsky alvo da minha admiração permanente, revivida recentemente com a leitura de O Homem que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura. A descrição da tomada do Palácio de Inverno pelos revolucionários, depois retratada por Sergei Eisenstein, é inesquecível. Além disso, a Libelu –tendência trotkista do movimento estudantil nos anos 1970– tinha festas ótimas, onde as socialistas eram mais bonitas.

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Rumo à Estação Finlândia, do crítico americano Edmund Wilson, embora demasiado objetiva e algo desapaixonada, é uma obra essencial para quem quer estudar a História do Socialismo. Rigorosa e bem construída, ajuda a entender afinal o que é materialismo histórico e materialismo dialético. De Babeuf, revolucionário 45 francês guilhotinado pelo Diretório, passando por Saint-Simon, Fourier, Proudhon, Marx, finalmente chegando ao desembarque de Lênin em São Petesburgo e à Revolução Russa, a leitura desse livro foi fundamental para entender o encadeamento das ideias socialistas e como se chegou a 1917. Embora escrito no início dos anos 1940, também anunciou as origens da desagregação do socialismo “real” que ocorreria cinquenta anos depois.

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Fecho esta crônica, escrita mais pela saudade do tempo em que fiz essas leituras do que qualquer outra coisa, com um dos livros mais emocionantes de todos os tempos: os Dez Dias Que Abalaram o Mundo. A epopeia do jornalista e revolucionário John Reed através da Rússia, até chegar ao epicentro da revolução comandada por Lênin, não é só uma grande obra de história e literatura, mas sobretudo uma aventura existencial e filosófica. Se tiverem que escolher um dos livros que citei para ler, escolham os Dez Dias… Vocês não se arrependerão.

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Caros leitores, não pensem que sou um revolucionário ou algo do gênero. Embora as ideias da juventude continuem vivas em um avô que já começou a “subir a montanha” à procura de uma visão panorâmica que ajude a entender a vida e o passar célere do tempo. Penso como Camus: “Feliz é quem foi jovem em sua juventude e feliz quem foi sábio (pretensão) em sua velhice”.

Confesso que tenho saudade de um tempo em que alguns faróis ideológicos nos eximiam da angústia das escolhas e eliminavam nossa perplexidade. Mas, ao mesmo tempo, me sinto desapegado para pensar a esmo e valorizar minha experiência. Parafraseando Ítalo Calvino, acho que trouxemos para o século XXI muitas coisas que deveríamos ter deixado no passado, a crença em um progresso perpétuo, consumo, guerra, preconceitos étnicos e religiosos, exclusão e pobreza.

* Luiz Philippe Torelly é arquiteto. Trecho do livro Memória e Patrimônio: Crônicas e Outros Escritos, Verbena Editora, 168 págs., 35 reais.

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Lenin: Sobre as Greves, 1899

Publicado em 1 de maio de 2017
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(“Sob a bandeira, diante de Lenin, miro Outubro”)

“Quando a ruína do povo chega a tal ponto que nas cidades e nas aldeias há sempre massas de desempregados, quando os patrões amealham enormes fortunas e os pequenos proprietários são substituídos pelos milionários, então o operário isolado transforma-se num homem absolutamente desvalido diante do capitalista. O capitalista obtém a possibilidade de esmagar por completo o operário, de condená-lo à morte num trabalho de escravos, e não só ele, como também sua mulher e seus filhos. Com efeito, vejam as indústrias em que os operários ainda não conseguiram ficar amparados pela lei e não podem oferecer resistência aos capitalistas e comprovarão que a jornada de trabalho é incrivelmente longa, de até 17 e 19 horas, que criaturas de cinco ou seis anos executam um trabalho extenuante e que os operários passam fome constantemente, condenados a uma morte lenta. Exemplo disso é o caso dos operários que trabalham a domicílio para os capitalistas; mas qualquer operário se lembrará de muitos outros exemplos! Nem mesmo na escravidão e sob o regime de servidão existiu uma opressão tão terrível do povo trabalhador como a que sofrem os operários quando não podem opor resistência aos capitalistas nem conquistar leis que limitem a arbitrariedade patronal.”

“Que significado têm as greves na luta da classe operária? Para responder a esta pergunta devemos nos deter primeiro em examinar com mais detalhes as greves. Se o salário do operário se determina —como vimos— por um convênio entre o patrão e o operário, e se cada operário por si só é de todo impotente, torna-se claro que os operários devem necessariamente defender juntos as suas reivindicações, devem necessariamente declarar-se em greve para impedir que os patrões baixem os salários, ou para conseguir um salário mais alto. E, efetivamente, não existe nenhum país capitalista em que não sejam deflagradas greves operárias. Em todos os países europeus e na América, os operários se sentem, em toda parte, impotentes quando atuam individualmente e só podem opor resistência aos patrões se estiverem unidos, quer declarando-se em greve, quer ameaçando com a greve. E quanto mais se desenvolve o capitalismo, quanto maior é a rapidez com que crescem as grandes fábricas, quanto mais se veem deslocados os pequenos pelos grandes capitalistas, mais imperiosa é a necessidade de uma resistência conjunta dos operários, porque se agrava o desemprego, aguça-se a competição entre os capitalistas, que procuram produzir mercadorias de modo mais barato possível (para o que é preciso pagar aos operários o menos possível), e acentuam-se as oscilações da indústria e as crises. Quando a indústria prospera, os patrões obtêm grandes lucros e não pensam em reparti-los com os operários; mas durante a crise os patrões tratam de despejar sobre os ombros dos operários os prejuízos. A necessidade das greves na sociedade capitalista está tão reconhecida por todos nos países europeus, que lá a lei não proíbe a declaração de greves.”

“Quando os operários enfrentam sozinhos os patrões continuam sendo verdadeiros escravos, que trabalham eternamente para um estranho, por um pedaço de pão, como assalariados eternamente submissos e silenciosos. Mas quando os operários levantam juntos suas reivindicações e se negam a submeter-se a quem tem a bolsa de ouro, deixam então de ser escravos, convertem-se em homens e começam a exigir que seu trabalho não sirva somente para enriquecer a um punhado de parasitas, mas que permita aos trabalhadores viver como pessoas. Os escravos começam a apresentar a reivindicação de se transformar em donos: trabalhar e viver não como queiram os latifundiários e capitalistas, mas como queiram os próprios trabalhadores. As greves infundem sempre tal espanto aos capitalistas porque começam a fazer vacilar seu domínio.”

“Quando um patrão que acumulou milhões às custas do trabalho de várias gerações de operários não concede o mais modesto aumento de salário e inclusive tenta reduzi-lo ainda mais e, no caso de os operários oferecerem resistência, põe na rua milhares de famílias famintas, então os operários veem com clareza que toda a classe capitalista é inimiga de toda a classe operária e que os operários só podem confiar em si mesmos e em sua união. Acontece muitas vezes que um patrão procura enganar, a toda custa, os operários, apresentar-se diante deles como um benfeitor, encobrir a exploração de seus operários com uma dádiva insignificante qualquer, com qualquer promessa falaciosa. Cada greve sempre destrói de imediato este engano, mostrando aos operários que seu ‘benfeitor’ é um lobo com pele de cordeiro.”

“Cada greve lembra aos capitalistas que os verdadeiros donos não são eles, e sim os operários, que proclamam seus direitos com força crescente. Cada greve lembra aos operários que sua situação não é desesperada e que não estão sós.”

(Trechos de artigo escrito por Lenin em 1899 e publicado pela primeira vez em 1924, na revista Proletarskaia Revoliutsia – A Revolução Proletária. Íntegra aqui)

 

 

 

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