The playba revolution. Ou: o fim da consciência de classe

Publicado em 12 de abril de 2017
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(Mauricinho Macri, Doria, Donald Trump e Henrique Capriles, atrás)

Fotomontagem: Magnesio Design

Há poucos dias, em entrevista à repórter Eliane Trindade na Folha de S.Paulo, o apresentador Luciano Huck falou que é hora de sua geração “ocupar os espaços de poder”. Sem tucanês, a palavra “geração” na frase de Huck deveria ser substituída por “galera”. O que o apresentador, no fundo, pensa e deseja é que está na hora de gente como ele assumir o poder: quarentões e cinquentões bem nascidos, em geral homens, que estudaram nos melhores colégios e universidades e tiveram todas as oportunidades na vida. Em resumo, playboys. Ou, mais carinhosamente, playbas.

Mas Huck está enxergando mal: os playbas já estão no poder. Nos últimos anos, gente com o perfil de Huck, Aécio Neves e João Doria Jr. tem se mostrado o maior contraponto à esquerda nas Américas. Na Argentina, Mauricio Macri é o protótipo do playba que trabalhou nas empresas da família (riquíssima) antes de entrar para a política. Idêntico perfil tem o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cujo maior “feito” como empreendedor foi herdar tudo e colocar o nome “Trump Incorporation” no império imobiliário do papai. Como Doria, todos têm um talento todo especial para se autopromover.

Os playbas estão representados na Venezuela por Leopoldo López e Henrique Capriles; no Uruguai por Lacalle Pou; e na Bolívia por Samuel Doria Medina. Em comum, têm o fato de serem brancos, herdeiros diretos da elite latino-americana, com passagens por universidades conceituadas nos EUA e Europa, gostarem de se vestir bem e adorarem falar em meritocracia, embora a ascensão profissional não lhes tenha custado muito suor na testa além de nascer com um sobrenome vistoso (Aécio Neves que o diga).

No Brasil, junta-se aos playbas clássicos o perfil dos burocratas do setor público com salários estratosféricos e privilégios trabalhistas que fizeram e fazem deles, cada vez mais, uma casta em relação à população em geral. Jovem, engravatado, impregnado do jargão jurídico, os playbas do funcionalismo têm seus mais indiscutíveis representantes na turma da Lava-Jato: Sergio Moro, Deltan Dallagnol (o do Power Point de Lula) e Roberson Pozzobon (o das “convicções”).

Tem também a categoria dos mini-playbas: o MBL, formado por filhinhos de papai que nunca trabalharam na vida, mas que conseguiram se transformar em influência para uma parcela da juventude inimiga dos estudos e que só sabe repetir clichês neoliberais, sem base em dados científicos. “Pagamos impostos demais”, “o Estado atrapalha”, “sem CLT o trabalhador ganhará mais dinheiro”… O pior é que colou.

É inegável que os playbas estão em ascensão e que seu discurso está encontrando ressonância em uma parcela significativa da população. Para a esquerda, o mais preocupante, porém, é que esteja ganhando um espaço crescente entre os pobres. A pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo na periferia de São Paulo confirma: o jovem pobre, do sexo masculino, se espelha no playba. Deseja ser playba. Por isso o discurso de Doria chegou até eles de forma tão poderosa.

Os pesquisadores da Fundação entrevistaram pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos em todas as faixas de idade e de ambos os sexos. Algumas das respostas mostram que a esquerda precisa estar mais atenta para o fenômeno dos playbas sobretudo porque o discurso deles contra o Estado, de “meritocracia”, “empreendedorismo” e “ascensão individual” está sendo largamente repetido entre os jovens.

É frustrante para a esquerda se dar conta que em 13 anos de PT não se tenha logrado ampliar a consciência de classe entre os mais pobres. Pelo contrário, ela parece estar em franco processo de extinção, não só aqui como em outros países da América Latina. Como é possível que, após 10 anos com a esquerda governando, quase a metade dos equatorianos, por exemplo, possa ter se sentido seduzida pelo discurso de um banqueiro?

Na periferia paulistana, segundo a pesquisa, a noção de consciência de classe simplesmente inexiste.

Trabalhador e patrão são iguais, quase “colegas”.

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O discurso da “meritocracia” colou…

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…assim como o de que o Estado é “inimigo” do cidadão.

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Público é ruim, privado é bom.

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E lutar por direitos é “mimimi”.

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Apenas o “ódio ao PT” estimulado pela mídia não justifica nem explica esta adesão de parte significativa da juventude da periferia ao ideário dos ricos, sua dissociação do meio onde cresceram, mesmo porque o fenômeno é internacional: pobres elegeram Trump, pobres elegeram Doria. Como foi que ser playboy virou um objetivo na vida de tanta gente? Quando é que tanta gente mal nascida passou a olhar com tanto desprezo sua própria classe, ao ponto de desejar lhe virar as costas e se diferenciar dela o quanto antes?

Para a cientista política Lucia Avelar, pesquisadora do Instituto Cesop da Unicamp, o perfil do tecnocrata veio a calhar em um momento em que os políticos vivem uma fase de baixa. “O sujeito apolítico, competente, que no fundo quer despolitizar a política, é uma estratégia de marketing que casa com o momento de desencanto com a política”, diz. Ela também percebe esse descolamento dos moradores da periferia de suas origens, sobretudo entre os brancos. “O branco das classes mais baixas, pouco educado, tem aspirações de mobilidade, de status mais alto, não quer se misturar com gente da sua própria classe, querem ser ‘desiguais’, se diferenciar dos outros. ‘Tem gente pior do que eu, que vive debaixo da ponte’.”

Este é um dado, aliás, que também aparece na pesquisa da Fundação Perseu Abramo, e confirma que a consciência de classe deu lugar à rejeição às origens.

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Para o filósofo Renato Janine Ribeiro, o espantoso seria o contrário. “Em toda a sociedade há um modelo a ser seguido pelos outros, que é o modelo dos mais ricos, dos mais poderosos, da nobreza nos tempos medievais. O poder é um espetáculo. E sendo um espetáculo, os principais atores são aqueles que são mais prestigiados”, diz. “Numa sociedade de forte consumo, o consumo tem um atrativo gigantesco.”

Enquanto a esquerda vê os playbas como fúteis, vazios, cafonas, sem estofo, e assim os subestima, eles se tornaram uma meta para uma massa que vai muito além da “elite” que o PT sempre criticou, enquanto, paradoxalmente, fazia a inclusão pelo consumo –uma das causas para esse desejo tão fundo de ser playboy, segundo Janine Ribeiro e Lúcia Avelar. “A vitória política numa sociedade democrática depende de conseguir hegemonia na sociedade. Em 2001 e 2002, o PT tinha conseguido isso. Havia uma indignação generalizada contra a pobreza, a miséria. Há um vídeo incrível do Duda Mendonça que mostra gente saindo de uma festa e quando aparece o rapaz de barba e bolsa dizendo ‘ se você se sente mal ao ver isso, em algum ponto você é petista, mesmo que não saiba'”, lembra JanineRibeiro.

“Foi uma tacada de gênio, o PT conseguiu fazer a conquista dessa imagem. Foi ganhando eleições, mas rapidamente perdeu essa hegemonia. Quando a direita conseguiu colocar a corrupção contra o PT, isso significou que a causa ética, que era a marca registrada do PT, foi embora. Não é que o PT foi corrupto tanto quanto dizem, mas esqueceu de lutar pela causa ética. Preferiu a inclusão da miséria, mas encarada de forma pragmática, pouco ideológica”, continua. “E, a partir de 2005, 2006, começa uma troca de hegemonia no país, e foi num crescendo. A hegemonia mudou de lado, e é um pacote inteiro: o combate à corrupção, identificada enganosamente com o PT, e o combate aos programas sociais que vem pela valorização do mérito.”

Em minha opinião, as esquerdas têm se equivocado não por priorizar o coletivo –é assim que tem de ser, claro–, mas por não prestar a devida atenção, ao mesmo tempo, ao indivíduo (leia mais aqui). O que a pesquisa Fundação Perseu Abramo mostra com clareza é que o cidadão periférico, assim como os de classe média, deseja ser “self made man”, crescer por si próprio e se tornar, ele mesmo, patrão. A esquerda deixou a “nova classe trabalhadora” pensar que, ao empreender, se situa automaticamente à direita, o que não é verdade.

Nada mais caro à esquerda do que a imagem de uma pessoa que saiu do nada e chegou a ser “alguém” na vida. Tanto é que há uma distopia: as periferias querem empreender, mas estão mirando em exemplos de “empreendedores” que não o são, de self made men que não o são, já que seus ídolos na verdade nunca deram duro na vida, trilharam o caminho mais fácil até o sucesso. Afinal, saíram com muito mais vantagem do ponto de partida, embora encham a boca para falar em meritocracia.

A boa notícia para o campo progressista é que Lula ainda continua representando um referencial neste sentido. A má notícia é: e quando não houver mais Lula?

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Ministério Público Federal no Rio move ação contra Bolsonaro por ofensas a quilombolas

Publicado em 10 de abril de 2017
Mulheres quilombolas do Paraná foram retratadas pela fotógrafa Fernanda Castro no documentário que faz um recorte visual de 10 anos de trabalho destas comunidades. Foto: Fernanda Castro

(Família quilombola no Paraná. Foto: Fernanda Castro/GEPR)

O Ministério Público Federal no Rio entrou hoje, 10 de abril, com ação civil pública contra o deputado de extrema-direita Jair Bolsonaro por danos morais coletivos a comunidades quilombolas e à população negra em geral. Os procuradores da República Ana Padilha e Renato Machado sustentam que “o réu utilizou informações distorcidas, expressões injuriosas, preconceituosas e discriminatórias com o claro propósito de ofender, ridicularizar, maltratar e desumanizar as comunidades quilombolas e a população negra”.

A ação responde à indignação no movimento negro causada pela palestra realizada por Bolsonaro no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, onde o deputado e pré-candidato à presidência disse que os quilombolas “nem para procriador servem mais”. A plateia presente riu. A palestra motivou críticas da comunidade judaica em todo o país e até internacional: a entidade mundial judaica de direitos humanos B’nai B’rith soltou nota de repúdio à “xenofobia, discriminação e racismo” de Bolsonaro na Hebraica carioca, além de criticar quem o convidou.

“Ficamos desapontados pela irresponsabilidade de alguns em permitir que o referido evento tenha ocorrido e que bandeiras de países, como as do Brasil e Israel, tenham estado presentes neste vergonhoso episódio”, diz a nota. Entidades representativas dos quilombolas do país inteiro também entraram com ações contra o deputado por crime de racismo. Com a ação do MPF-RJ, Bolsonaro se torna réu mais uma vez: ele já é réu em dois processos no STF, um por “incitação ao estupro” e outro por “injúria”, ambos envolvendo a deputada petista Maria do Rosário. Em 2015, ele foi condenado a pagar 150 mil por declarações homofóbicas.

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(Moradora do quilombo Kalunga, em Goiás, faz conserva de pequi)

Para os procuradores da República no Rio, as afirmações feitas pelo deputado aos quilombolas desumanizam as pessoas negras, retirando-lhes a honra e a dignidade ao associá-las à condição de animal ao referir a um quilombola usando termos como “pesa sete arrobas”. O julgamento ofensivo, preconceituoso e discriminatório de Bolsonaro às populações negras e quilombolas é incontestável, de acordo com Ana Padilha e Renato Machado. Suas falas tampouco estariam protegidas pelo manto da “liberdade de expressão” e pela imunidade parlamentar.

“Com base nas humilhantes ofensas, é evidente que não podemos entender que o réu está acobertado pela liberdade de expressão, quando claramente ultrapassa qualquer limite constitucional, ofendendo a honra, a imagem e a dignidade das pessoas citadas, com base em atitudes inquestionavelmente preconceituosas e discriminatórias, consubstanciadas nas afirmações proferidas pelo réu na ocasião em comento”, concluem os procuradores na ação.

Se condenado, o deputado federal pode ser obrigado a pagar indenização no valor de R$ 300 mil pelos danos morais coletivos causados ao povo quilombola e à população negra em geral, a ser revertida em projetos de valorização da cultura e história dos quilombos, a serem indicados pela Fundação Cultural Palmares.

(Com informações do MPF-RJ)

 

 

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Boa notícia: Conselho de Ética livra Jean Wyllys de suspensão do mandato por cuspir no “Mito”

Publicado em 5 de abril de 2017
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(Reprodução youtube)

da Agência Câmara

O Conselho de Ética e Decoro Parlamentar aprovou uma censura por escrito contra o deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) por ter cuspido no também deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ).

O episódio aconteceu em abril do ano passado, na sessão que aprovou a abertura de processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff.

A decisão foi contrária ao parecer do relator do processo contra Wyllys, Ricardo Izar (PP-SP).

Inicialmente, Izar havia pedido a suspensão do mandato do deputado do Psol-RJ por 4 meses. Hoje ele mudou a recomendação para suspensão do exercício do mandato pelo prazo de 30 dias. Mesmo assim, seu parecer não foi acolhido. Ele teve 4 votos favoráveis e 9 contra.

Coube ao deputado Julio Delgado (PSB-MG) ler o parecer vencedor, pela censura, que recebeu 13 favoráveis e nenhum contrário.

Fim do processo
Com a censura, o processo se esgota e não será mais levado ao Plenário da Casa. Caberá ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, proferir a censura.

O processo administrativo contra Jean Wyllys foi proposto pela Mesa Diretora da Câmara (Representação 11/16), que pediu uma pena de seis meses de suspensão do mandato.

Wyllys não participou da reunião de hoje do Conselho.

Entenda o caso
No final do ano passado, os dois depuseram no Conselho de Ética.

Wyllys alegou que reagiu a ofensas homofóbicas de Bolsonaro, ditas anteriormente à data do episódio e também no dia. Bolsonaro negou as ofensas e disse que que no dia do impeachment dirigiu a Wyllys apenas a frase “Tchau, querida”, um dos bordões da campanha contra Dilma. O deputado do Psol votou contra a abertura de processo de impedimento da ex-presidente. Bolsonaro votou a favor.

Izar reconheceu que Wyllys foi provocado, mas afirmou que a atitude dele, ao revidar cuspindo, possui “natureza injuriosa” e é incompatível com o decoro parlamentar.

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